O país que endeusa políticos banais

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A classe política portuguesa no poder é banal e tem tido os piores resultados económicos da Europa. No entanto, autoelogia-se tão freneticamente como se fossem os campeões da Europa. Agravando essa desconexão imensa com a realidade, as TVs e jornais dependentes do Estado, a cada nova oportunidade e pretexto, amplificam esses autoelogios dos políticos lusos para níveis estratosféricos, quase tresloucados quando comparados com os baixíssimos resultados, há décadas, para os portugueses.  

Assim que Jorge Sampaio – superior em cultura e ética à baixa média dos actuais dirigentes socialistas – faleceu, muitos ministros e deputados do PS (especialmente os que se candidatam a autarquias) apressaram-se em louvá-lo de forma megalómana e imponderada, sem cuidar de evitar exageros nem olhar a factos incómodos. Isto porque não estavam interessados em honrar a memória do ex-Presidente da República, mas em usarem-no para se autopromoverem, uma vez que são parte do seu legado. É uma técnica conhecida. Certos imperadores romanos, banais e cruéis, ao declararem como deuses os seus falecidos pais, melhores que eles, propagandeavam que também eram bons porque eram filhos divinais

Soubemos do falecimento de Jorge Sampaio, um bom e simpático ser humano, quando estávamos de visita a “Little Portugal” em Stockwell e Lambeth, zona humilde da cidade de Londres, onde vivem hoje em dia milhares de emigrantes portugueses. Tal como viviam muitos milhares de portugueses em Champigny-sur-Marne, nos arredores humildes de Paris, nos anos 60. Claro que as condições de vida hoje são melhores, mas isso é devido à evolução dos países de acolhimento, porque o problema de fundo português, que leva à emigração massiva, continua o mesmo: fraca qualidade da governação política portuguesa, há décadas. Por isso mesmos nas elegias temos de ser mais objectivos e ponderados.

Paz à alma de Jorge Sampaio, que era um homem sério e honrado. Quando ele presidia Portugal, não havia tanto endividamento do Estado para financiar negócios ruinosos ligados a políticos, nem tão mau serviço público como com estes ministros e deputados socialistas, que agora elogiam desmesuradamente. 

No entanto, Sampaio tomou uma decisão péssima para Portugal que, objectivamente, revelou que estava longe de ser um génio divinal, quer na avaliação e escolha de recursos humanos, quer na visão que tinha para o futuro da nação. Não teve capacidade de melhorar significativamente a vida dos portugueses.

Algo impulsiva e levianamente, ao estilo das chicotadas psicológicas precipitadas em certos clubes de futebol, dissolveu a Assembleia da República, sem grandes razões para tal, fazendo cair um governo com apenas quatro meses de existência. Abriu, assim, o caminho para José Sócrates como primeiro-ministro. Este iniciou um dilúvio de corrupção e escalada da dívida pública que nos tem deixado estagnados nos últimos 20 anos, ultrapassados por quase toda a Europa, mesmo os países do antigo bloco comunista. 

Sampaio, apesar de ser uma pessoa cordial, foi, portanto, um político nada de especial comparado com a média europeia e a sua contribuição para Portugal não nos parece extraordinária. Em termos líquidos é legítimo e objectivo considerar até negativa essa contribuição devido ao factor Sócrates. Há decisões que marcam inevitavelmente um líder para pior. Foi assim com a decisão de Blair de suportar a guerra desnecessária no Iraque, algo que manchou para sempre o seu legado e da terceira via. Sampaio, aliás, concordou, em 2016 em afirmações ao Sol, que foi “um erro gigantesco toda a questão do Iraque”. No entanto, dada a irrelevância de Portugal a nível internacional, esse não foi o seu erro gigantesco, mas sim o erro de promover, mesmo que involuntariamente, a corrupção socrática. Abrir caminho para Sócrates ser primeiro-ministro, apesar dos avisos de Guterres sobre o pântano, foi o erro gigantesco de Sampaio.

Consideramos assim que os elogios grandiloquentes e megalomaníacos a Sampaio, insistentemente feitos na comunicação social e pela classe política portuguesa em geral, estão fora de controlo e sem proporção à sua contribuição para elevar o nível de vida dos portugueses. Pior, são, como já referido, uma tentativa da classe política socialista de se auto-endeusar e perpetuar, sem reflectir nem nada ponderar sobre os seus maus resultados para os portugueses. Insistem, alienados da realidade, que são os melhores, quando são os piores políticos da Europa. 

Apesar da implementação da democracia em 1974 e dos infindáveis milhares de milhões de euros de ajuda europeia desde a integração europeia, em 1986, Portugal e os portugueses continuam na cauda da Europa e a emigrar por causa disso. Agora como então, há milhões de cidadãos portugueses emigrados para poderem ter salários dignos, proporcionais ao seu mérito e esforço, preços de energia e de qualidade de vida aceitáveis, em vez dos insuportáveis em Portugal, com um dos mais baixos poderes de compra da Europa. Desde os muitos portugueses limpadores de mesas nos restaurantes da cadeia “Pret A Manger”, em Londres, às duas grandes estrelas futebolísticas do Manchester United, Ronaldo e Fernandes, passando por milhares de jovens recém-licenciados em enfermagem ou engenharia, há muitos portugueses a darem vitórias económicas ao Reino Unido, uma vez que os seus governantes não valorizam nem o mérito, nem o esforço dos seus melhores recursos humanos e engendraram uma economia deficiente, altamente endividada e com impostos enormes em troca de serviços minúsculos, incapaz de atrair os profissionais mais qualificados do mundo, mesmo aqueles nascidos em Portugal. 

Jorge Sampaio não foi capaz de quebrar este ciclo de pobreza e perda de recursos humanos, com milhões de vidas contrariadas longe de Portugal. Por isso somos contidos nos elogios esparsos, mas sinceros, que lhe fazemos em vez de embarcar nas santificações e exageros hiperbólicos dos maus governantes e parlamentares socialistas. Muitos dos elogiadores socialistas estão nervosos com o escrutínio autárquico eleitoral que aí vem pois são candidatos a câmaras. Talvez por isso tenham feito os elogios a Sampaio com mais veemência que para com Mário Soares. Ora Soares objectivamente contribuiu mais para Portugal, pois obteve vitórias, quer contra o fascismo, quer contra o comunismo, e esteve na génese da integração europeia. No entanto, teve o azar de não falecer em campanha eleitoral autárquica do PS e assim não foi tão e louvado como o mais discreto Sampaio, agora, de repente, tão extremamente elogiado, a níveis nunca antes vistos, mesmo tendo em conta que nos períodos fúnebres as pessoas são mais generosas. 

Jorge Sampaio, celebremente, num discurso no Parlamento, a 25 de Abril de 2003, afirmou “há mais vida para além do orçamento” e “a economia é mais do que finanças públicas”. Isso significa que abriu caminho a Sócrates, não só como o presidente que dissolveu a Assembleia da República para Sócrates chegar ao poder, mas como inspirador do “até as crianças sabem que as dívidas não são para pagar” de Sócrates. Foi essa mentalidade socialista que nos levou há baixa qualidade de vida dos portugueses. Sem boas contas nem boa gestão não há boas vidas para os cidadãos, mas os socialistas já há várias gerações que não entendem isso. ■