Jorge Sampaio: a liderança serena

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Foi com profunda tristeza que recebi a notícia da morte de Jorge Sampaio. Apesar de saber que estava doente e hospitalizado, não esperava que nos deixasse tão cedo e tinha a esperança que nos acompanhasse mais algum tempo. Infelizmente partiu, deixando-nos o exemplo quase único de um grande português, político completo e homem de grande sabedoria e sentido ético.

Durante sessenta anos Jorge Sampaio foi um farol de seriedade, de clara visão política sem os constrangimentos típicos do meio em que lutou e viveu, o homem íntegro e o decisor justo de causas, nem sempre fáceis, mas que ele sempre seguiu de acordo com a sua consciência. Portugal teve a sorte de o ter nas várias fases da transformação política a que o país assistiu. Nas raras vezes em que discordei das suas decisões reconheço que ninguém teria feito melhor.

Como muitos portugueses adversários de Salazar, segui de longe e com entusiasmo as lutas estudantis de que ele era o líder corajoso e sem compromissos. Segui depois o seu percurso político e quando, como Secretário-Geral do PS, me convidou a interromper o meu jejum político, resultante das circunstâncias da minha vida profissional me terem feito empresário, aceitei, principalmente por respeito para como ele, bastante mais do que como um voto de confiança no Partido Socialista. Assisti de longe a algumas das dificuldades que ele teve no partido com muitos dos que hoje já se esqueceram disso e recordo como exultei com a sua clarividência, quando num avião para Nova Iorque li no jornal que ele decidira candidatar-se a Presidente da autarquia de Lisboa. Foi um acto de grande coragem e de clarificação política que me tocou profundamente, temos homem pensei, para não mais duvidar sobre a qualidade do seu percurso, nomeadamente como Presidente da República. A democracia portuguesa teve a sorte de ter tido na Presidência da República três grandes portugueses, Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, cuja obra temos razões de sobra para venerar.

Conheci Jorge Sampaio pessoalmente em condições um pouco caricatas. Estava a jantar no hotel Eurosol, em Leiria, com um cliente norte-americano no momento em que Jorge Sampaio jantava com outras pessoas numa mesa ao lado. Conhecia-o de longe e seguia o seu percurso político na oposição ao regime com admiração e respeito, nomeadamente as suas batalhas no Tribunal Plenário em defesa dos presos políticos, todavia nunca falara com ele. No dia seguinte a esse jantar, telefonou-me o meu grande amigo e líder das nossa lutas, José Henriques Vareda, que me disse que o Jorge Sampaio lhe tinha perguntado quem seria o tipo que na véspera explicava a alguém em inglês, durante o jantar e em voz bastante zangada, os malefícios do regime de Salazar. O José Vareda terá dito que seria eu, dado que era habitual jantar no hotel onde pernoitavam os clientes da indústria e que habitualmente tinha um tom de voz um pouco acima do normal.

Pouco tempo depois cumprimentei finalmente Jorge Sampaio num dos seus habituais almoços no hotel Flórida em Lisboa, onde fui acompanhado pelo José Vareda. Repetimos os almoços e ali conheci outros ilustres oposicionistas ao regime como João Wengorovius, José Manuel Galvão Teles e alguns outros com quem se discutia sem cessar o sonho de uma futura sociedade democrática, que ninguém duvidava iria chegar.

Recebi de Jorge Sampaio as maiores atenções a que poderia aspirar. Veio uma vez à Marinha Grande com a sua mulher para me entregar um prémio como cliente da TAP, empresa onde ela era dirigente, e recordo nesse dia um agradável almoço com ambos no Hotel Eurosol. Como Presidente da República pendurou-me ao pescoço duas condecorações que então aprendi são coisas que não se pedem nem se agradecem. Viajei a seu convite em viagens de Estado ao estrangeiro e tive a oportunidade de o visitar a seu pedido em Belém para lhe dar nota de algumas ideias. Também de algumas reclamações, como aconteceu com a questão das contrapartidas de má memória, resultantes da compra dos helicópteros pelo Estado português.

Visitou-me na empresa várias vezes e enquanto Presidente da República foi à Marinha Grande para assistir ao funeral do seu e meu amigo José Henriques Vareda. Guardo fotografias com a sua dedicatória resultantes de acontecimentos e viagens que não esqueço e que foram momentos em que tive a oportunidade de conhecer o seu pensamento culto e humanista, a sua ética de vida e as suas preocupações de contribuir para um Portugal mais próspero, mais feliz e mais igualitário.

Assisti com orgulho, como muitos portugueses, a muitas das suas intervenções políticas que marcaram a sua época, como a libertação de Timor, a recusa de enviar o exército português para o Iraque, a dissolução da Assembleia da República. Não o acompanhei na questão da Síria, porque há muitos anos que alimento ideias diferentes sobre a questão das migrações e das ajudas aos países menos desenvolvidos do globo. Não lhe pedi apoio para a minha candidatura à Presidência da República porque sabia bem que não o daria.  

Li com grande satisfação um texto agora publicado pelos seus companheiros das lutas estudantis a mostrar que se mantiveram unidos ao longo de todos estes anos, o que mostra bem a qualidade da liderança de Jorge Sampaio, como a qualidade dos que o acompanharam na política portuguesa, política tão dada a interesses e a facadas. Também a quase unanimidade com que os portugueses fizeram esta semana o julgamento de Jorge Sampaio para a história, o que não engana.

Até sempre Jorge Sampaio, encontrar-nos-emos algures num planeta longínquo. ■