O Polvo Socialista

“A prisão de Joe Berardo, à revelia de todos os outros companheiros de aventura, só prova que o ‘Polvo’ está bem vivo e não lhe perdoa ter ido à Assembleia da República dizer que a culpa do que lhe perguntaram não era dele, mas dos políticos e dos banqueiros”

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José António Saraiva é um dos mais argutos cronistas portugueses e esta semana, na sua habitual crónica do jornal “Nascer do Sol,” coloca a questão da prisão de Joe Berardo na sua justa perspectiva, ao evocar “O Polvo” que fez a capa do seu jornal a 12 de Fevereiro de 2010. Era quando o Partido Socialista comandado por José Sócrates trabalhava na maior destruição da riqueza nacional depois do 25 de Abril e marcava o início de um longo período de decadência política e económica do país. Foi quando se iniciou a desgraça do então milionário Joe Berardo.

Antes disso, nas vésperas do congresso do Partido Socialista que elegeu José Sócrates como secretário-geral, publiquei um texto sob a designação de “Carta Aberta aos Socialistas”, onde escrevi que José Sócrates era o pior dos três candidatos e onde previ que a sua eleição seria uma desgraça para os socialistas e para Portugal. Não me enganei e uso agora esse crédito para escrever que o “Polvo” desse tempo continua vivo na actualidade, ainda que dotado de maior subtileza e sofisticação. O “Polvo” não desapareceu, apenas cresceu e adaptou-se.

Joe Berardo nunca foi um homem do poder político e o seu erro foi pensar que quando se aliou a José Sócrates e a Ricardo Salgado no ataque ao BCP e colaborou para derrotar a OPA da PT, pensava, a meu ver mal, que poderia controlar o “Polvo”. A sua prisão, à revelia de todos os outros companheiros de aventura, só prova que o “Polvo” está bem vivo e não lhe perdoa ter ido à Assembleia da República dizer que a culpa do que lhe perguntaram não era dele, mas dos políticos e dos banqueiros, quando disse que estes “não sabiam o que andavam a fazer”.

O segundo erro de Joe Berardo foi pensar, onze anos depois, que era mais esperto e tinha maior competência do que o “Polvo” da política. O seu gosto pelo espectáculo e a confiança na superioridade da sua esperteza e na pouca inteligência dos políticos, a quem levara à certa no caso da sua colecção de arte, seriam razões suficientes para a sua defesa. Enganou-se, a sua prisão mostrou o contrário, mostrou que José Sócrates, Ricardo Salgado, Nuno Vasconcelos, Moniz da Maia, Luís Filipe Vieira, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava, António Mexia, Manuel Pinho e tantos outros mantêm alguma protecção do poder político que a ele foi retirada. E o que dizer da protecção dada aos administradores dos bancos, como Santos Ferreira e Armando Vara, entre muitos, que foram os responsáveis pelos empréstimos feitos apenas com a garantia das acções? Ou o que dizer do Banco de Portugal sob a direcção de Victor Constâncio, que assistiu a tudo sem sequer ler o que sobre o assunto publicavam os jornais?

As últimas notícias indicam que Santos Ferreira poderá ser acusado. Duvido, mas então todos os outros que nas administrações dos bancos foram os verdadeiros responsáveis pelos empréstimos concedidos? E os que estavam na direcção do Partido Socialista e no grupo parlamentar? E todos os que estiveram nos governos de José Sócrates?

A resposta é que muitos dos seguidores de José Sócrates continuam nos governos de António Costa, como conhecemos o efeito da frase “à justiça o que é da justiça”, quando Joana Marques Vidal é afastada da Procuradoria-Geral da República e se inicia o cerceamento dos meios de investigação, a via que permite a continuidade do “Polvo” a dominar toda a política portuguesa e a controlar todas as nomeações para cargos públicos. A mesma vontade política que, pouco a pouco, desmontou a CRESAP criada por Passos Coelho na tentativa de contrariar a acção tentacular do PS sobre o Estado.

Provavelmente muitos portugueses pensarão que os ataques de José Sócrates ao regime democrático e a protecção dada aos donos disto tudo é coisa do passado. Santa ideia. Então a continuidade das parcerias público/privadas, a protecção fornecida à EDP, ao Novo Banco e aos beneficiários das energias renováveis? Ou o que aconteceu com os negócios dos Kamov e o nunca explicado SIRESP? Ou os pequenos negócios de governantes, de autarcas e de familiares de governantes e de autarcas, que proliferam em contratos por ajuste directo com o Estado por todo o País?

Na governação de António Costa é dada uma particular atenção aos meios de comunicação e à colocação de comentadores, directa e indirectamente afectos ao PS nos principais programas de opinião, muitos dos quais também sobreviventes desde os tempos de José Sócrates, o qual nunca levou tão longe a sua tentativa de controlo dos meios de comunicação como presentemente, quando as empresas de comunicação escolhidas pelo Governo são financiadas directamente pelo Estado.

Acresce que António Costa tem uma vantagem relativamente a José Sócrates, o facto do PCP e do Bloco de Esquerda estarem amarrados à carroça do poder e já não constituírem uma ameaça permanente para o PS. Como bem explicou o ministro Santos Silva, ambos os partidos podem ter visões e anseios muito diferentes do PS e do Governo, mas não terão a vontade, ou a coragem, para entregar o poder à direita. Vantagem que permite ao “Polvo” socialista gerir o uso e o abuso do seu poder no Estado e na sociedade, neste caso através do enfraquecimento das instituições pela cedência de fundos de forma selectiva, a fim de manter a maioria dos interesses satisfeitos e, se possível, calados.

Com pequenas interrupções que não permitiram a criação de uma alternativa, o Partido Socialista fará em breve vinte anos no poder. Durante todo este tempo o País empobreceu, foi ultrapassado por quase todos os países mais atrasados da União Europeia e criou uma dívida externa monstra que compromete o futuro dos portugueses e, em particular, dos mais jovens. Durante este tempo, acentuámos a nossa dependência dos países mais ricos da UE, ao mesmo tempo que se privilegiou a distribuição para manter contente o bom povo, fazendo-o à custa do investimento reprodutor. Enquanto isso, a impreparação e a voracidade da grande família socialista não cessa de criar novos casos quase diários, resultantes da incompetência e da incapacidade para gerir mesmo os pequenos problemas de qualquer sociedade. Todos esses casos, transformados em escândalos, são resolvidos pelo silêncio do poder e pela desvalorização crescente da democracia e da recusa do seu aprofundamento, como seja, por exemplo, o caso das leis eleitorais. Presentemente, a confiança do “Polvo” chegou ao ponto de não recear que seja o Estado a definir o que é a verdade.

Em resumo, é tempo de os portugueses acordarem para a existência do “Polvo” Socialista para evitar serem comidos por ele. ■