Pandemia causa milhões de vítimas colaterais

Os confinamentos sucessivos, a alteração das rotinas habituais de vida ou a privação de contactos sociais acabaram por afectar os comportamentos. As primeiras conclusões dos estudos sobre o impacto da pandemia sobre milhões de vítimas colaterais do Covid começam agora a ser publicados. As constatações são alarmantes.

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“A vida tomou novas rotinas, o trabalho e a escola adoptaram a linguagem virtual e assim se foi ganhando tempo para o desenvolvimento de vacinas e controlo dos serviços e recursos de saúde. O mundo foi vivendo múltiplos estados de confinamento, entre a solidão e o isolamento, com efeitos inequívocos sobre o modo como sentimos. O que antes era visto como um problema social principalmente associado aos mais velhos, e ao processo de envelhecimento, foi enquadrado como um problema de saúde pública que poderia afectar pessoas de qualquer idade”.

Numa rápida resposta a esta preocupação iminente de compreensão dos efeitos psicológicos da pandemia, o jornal científico “Lancet” publicava, em Fevereiro de 2020, o artigo: “The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence”. Foram analisados 24 artigos (de uma base de dados de cerca de 3000) sobre o impacto psicológico da quarentena que, na sua maioria, relataram efeitos psicológicos negativos, incluindo sintomas de “stress” pós-traumático, confusão e raiva. A revista “Líder” que abordou os estudos adianta que os factores de “stress” incluíam o medo da infecção, frustração, tédio, desinformação, perdas financeiras e estigma. No geral, esta revisão sugere que o impacto psicológico da quarentena é amplo, substancial e pode ser duradouro. Os investigadores autores do artigo concluem que privar as pessoas da sua liberdade para um bem público geral é frequentemente controverso e deve ser observado com atenção.

As consequências e os efeitos psicológicos deste tipo de isolamento/quarentena já foram alvo de estudos no passado e esta pandemia veio enfatizar os pré-existentes níveis elevados de solidão e isolamento social. Ansiedade, “stress”, angústia, solidão, medo e tristeza são alguns dos sintomas mais comuns identificados pela comunidade médica e científica entre as pessoas que passam pelo processo.

Um novo normal?

Após mais de um ano de vida em estado pandémico são ainda escassos os estudos com peso científico significativo sobre o seu impacto no bem-estar psicológico e a evidência de quais os grupos mais afectados pela solidão e isolamento social. Contudo, alguns estudos começaram a ser publicados no início de 2021, como o liderado pela investigadora Katie Davies e publicado em Janeiro no “The Lancet Healthy Longevity”: “Will the pandemic reframe loneliness and social isolation?”. A investigação usa dados do Estudo Longitudinal de Envelhecimento feito ao longo de 14 anos sobre a população inglesa com mais de 50 anos para mostrar que a solidão e o isolamento social são muito mais complexos e têm uma importância para a saúde e o bem-estar muito maior do que é percecionado. Além de mudar a natureza das ligações sociais, a pandemia também alterou a percepção de solidão e isolamento social e veio desafiar a visão estereotipada do solitário ou isolado. O artigo refere a oportunidade que existe agora para construir uma maior empatia, compaixão, cuidado e preocupação para com aqueles que vêm experimentando a solidão e o isolamento social.

Distanciamento físico

Usando um questionário dirigido a uma amostra de 300 adultos, com idades entre os 18 e os 84 anos, o estudo “The effects of social isolation on well-being and life satisfaction during pandemic”, quis perceber os efeitos do isolamento social na população adulta nos EUA. Publicada na revista “Nature”, em Janeiro de 2021, esta investigação documentou a prevalência do isolamento social durante a pandemia, bem como os vários factores que contribuem para que indivíduos de todas as idades se sintam mais ou menos isolados enquanto são obrigados a manter o distanciamento físico por um longo período de tempo. A investigação sugere que o isolamento social tem um peso significativo na percepção de qualidade de vida das pessoas e que as medidas de distanciamento para reduzir a disseminação da SARS CoV-2 tiveram maior impacto nos jovens adultos. O isolamento social foi associado a um nível baixo de satisfação com a vida em todos os domínios, “stress” relacionado com o trabalho, menor confiança nas instituições como o governo e organizações, risco de infecção e aumento do uso de substâncias como forma de enfrentar a realidade. As consequências sobre o bem-estar psicológico são significativas, sendo o “stress” e o isolamento social factores de risco para a saúde e função imunológica. O estudo refere o prolongamento destes efeitos generalizados enquanto a incerteza do vírus persistir.

Novos Estudos

Também o “Rep. Circle – The Reputation Platform” promoveu, em parceria com o consultor e escritor brasileiro Celso Grecco, um levantamento/estudo sobre a situação do fenómeno em Portugal.

O “Rep.Circle – The Reputation Platform” é um centro de conhecimento criado e promovido pela “Lift Consulting”, inteiramente dedicado à discussão, promoção e divulgação do melhor conhecimento sobre reputação corporativa.

Se a depressão, tida por muitos como a doença do século, ou a Síndrome do Burnout já ganharam o estatuto de doenças reconhecidas pela OMS, a solidão tem tudo para ser equiparada, pois muitas vezes a dor que causa não é menor.

Basta verificar que países como a Inglaterra ou o Japão já criaram Ministérios da Solidão para percebermos a real dimensão do problema, fruto de uma sociedade desenfreadamente competitiva e tecnológica, onde o foco está na superação do desempenho de cada um e de uma forma cada vez mais autónoma, mais solitária. E não se pense que a solidão é um problema especialmente sentido pelos mais idosos, como empiricamente poderíamos ser levados a supor. Nada disso. Esses até se afirmam como os mais conformados perante o isolamento, às vezes mais parecido com abandono, a que são sujeitos.

Jovens sofrem mais

Se atentarmos na média do sentimento apurado entre as pessoas que responderam a este inquérito do “Rep. Circle”, verificamos que em relação a alguns factores geradores de solidão é precisamente a faixa etária mais jovem, entre os 16 e os 25 anos, que se mostra mais sofredora. É o caso, por exemplo, das respostas dadas perante o factor “abandono”. Em média seis em cada dez pessoas sentem-se infelizes ao fazerem coisas sozinhas, mas esse sentimento sobe para sete em dez junto dos mais jovens.

É o que acontece também quando os portugueses inquiridos são colocados perante o factor “inadequação”: metade diz sentir que ninguém os entende; quatro em cada dez declaram que não sentem pertencer aos ambientes nos quais convivem; um terço tem dificuldade em falar com outras pessoas à sua volta e em fazer amizades. É o sentimento de viver a descompasso, fora do lugar, de estar sempre aquém das expectativas. Também aqui, a faixa dos mais jovens apresentou resultados ligeiramente piores.

Escapar ao isolamento

Cristina Queirós, Professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, aponta numa publicação da referida instituição já de Abril de 2020 que “dar significado ao tempo” é uma estratégia a seguir, assim como a adopção de rotinas. Além de manter uma rotina saudável, a docente diz que este é um bom momento para fazer as tarefas adiadas no passado: “Aprender alguma coisa que a pessoa gostava de fazer e que agora tem a oportunidade. Estabelecer diferenças entre os dias de trabalho e o fim-de-semana. Tentar fazer parte de uma equipa, voluntários da comunidade, para as pessoas sentirem que estão a contribuir e não ter um impacto psicológico tão grande”. A Sociedade Portuguesa de Psicanálise tem uma linha activa de apoio nacional que fornece apoio psicológico e psiquiátrico para adultos e crianças, disponível no número: 300 051 920. ■