Os desavergonhados

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Matt Hancock, 42 anos, ministro da saúde do Reino Unido, com um programa de vacinação muito eficiente e ordeiro que já vacinou 23% da população britânica, quando o jornalista Piers Morgan lhe perguntou se ia tomar a vacina primeiro que o resto dos Ingleses, foi taxativo: “Não. Eu estou focado é em que este programa de vacinação seja um sucesso para o povo britânico começando primeiro pelos grupos em maior risco de vida que são os idosos, não as pessoas de meia idade. Assim, esperarei pela minha vez, como qualquer outro cidadão da minha idade”. Bom exemplo ético de um líder e governante que serve em vez de se servir.  

Pelo contrário, Marta Temido, 46 anos, ministra da Saúde de Portugal, com um programa de vacinação muito lento e ineficiente, desordenado e cheio de abusos e ultrapassagens nas sobras por políticos, em que apenas 3% dos portugueses foram vacinados, pelo contrário, já tratou de se vacinar primeiro que a maioria dos cidadãos com muito mais idade que ela, logo em risco muitíssimo maior de vida.  Pedro Nuno Santos, 43 anos, praticamente da mesma idade que Hancock, também já tratou da sua vidinha e já foi vacinado. Curioso, que alguém que se diz “muito à esquerda” e a favor dos “oprimidos e desfavorecidos”, passe descarada e despudoramente à frente na fila da vacinação de quase todas as velhinhas anónimas ou oprimidas e desfavorecidas de Portugal. Este político parece querer mentir tanto como Costa, por isso quer ser o herdeiro de Costa e Sócrates como rei das mentiras e da falência moral, ética e económica de Portugal. Outra Ministra ainda mais nova e grande apologista do “vamos pela esquerda”, Mariana Vieira da Silva, 42 anos, filha do ex-Ministro Vieira da Silva, também já ultrapassou pela esquerda, passando à frente, desavergonhadamente, da maioria dos idosos Portugueses com mais de 70 anos, mesmo muitos idosos com mais de 80 anos e diabéticos que só neste momento se estão a começar a vacinar.  

O argumento de que os políticos têm de dar o exemplo não faz sentido, pois se fosse esse o caso então estes ministros novos tiravam fotos em vez de esconderem que se vacinaram. Também não pega o argumento de que são figuras cruciais para a continuidade do regime. Porque, primeiro, não estão em risco quase nenhum de vida, comparados com idosos; e segundo, só em países do Terceiro Mundo, sem secretários de Estado ou assessores competentes, é que meros ministros e deputados não eleitos pessoalmente por ninguém são “insubstituíveis”. É certo que, em alguns países, os representantes políticos do povo se vacinaram primeiro, mas esses foram mesmo para dar o exemplo pois deixaram-se fotografar para inspirar confiança ao povo; e sobretudo foram eleitos em círculos unipessoais por eleitores que os escolheram a eles pessoalmente para serem deputados, logo são realmente representantes únicos do povo da sua região, eleitos uni-nominalmente para as suas funções.   

Estes são, pois, maus exemplos de ministros portugueses desavergonhados, da mesma idade que Hancock que, segundo o Observador e o Expresso, já se vacinaram sem dar um sinal nas redes sociais nem tirar uma foto, porque sabem que o que fizeram é desprezível e revelador de como olham para a política: estão lá para se servirem, enquanto deixam os cidadãos para últimos da Europa em tudo, até na vacinação, quanto mais na dívida pública e poder de paridade de compra. Sorrindo, vão desviar tudo, desde a ‘bazuca’ europeia às vacinas vindas da Europa, deixando-nos quase sem nada.  

Isto com o elogio cumplice dos telejornais da TV doente (‘sick’ em Inglês) de propaganda que, ao contrário das perguntas difíceis que Morgan e outros jornalistas a sério fazem na Inglaterra aos políticos, cá são conduzidos por manteigueiros que nunca questionam nada a sério aos ministros com péssimos resultados na pandemia e ainda pior comportamento ético.  

Para se ter uma ideia no desperdício, esbanjamento de vacinas e falta de rigor científico e epidemiológico que é vacinar políticos na casa dos 40 anos antes dos idosos, o risco de fatalidade após infeção por SARS-Cov-2 dos 40 aos 49 anos está quantificado entre apenas 0.08 e 0.4%, enquanto para idosos acima dos 70 anos pode chegar aos 12%, portanto até 150 vezes mais risco de vida que os senhores ministros desavergonhados Temido, Santos, Silva. Talvez por isso não queiram tirar fotografias a mostrar o quanto acham que têm direito a privilégios injustificados e incompreensíveis só por serem políticos que ninguém elegeu para nada. Em Portugal não há verdadeira democracia, porque estas três pessoas não foram eleitas deputados nem governantes, como são os ministros no governo britânico, em círculos unipessoais nas suas terras. Ninguém os elegeu nem escrutinou para nada. Só estão no governo porque são amigos ou familiares de amigos de Costa. 

Um declínio democrático repugnante que justifica que se sintam impunes perante as suas repugnantes acções contra os eleitores que deveriam representar e servir. Aliás, o primeiro-ministro António Costa, 59 anos, também já tratou de se vacinar primeiro que os mais idosos em risco. Já o primeiro-ministro britânico, com praticamente a mesma idade, 56 anos, ainda não se vacinou. É educado, serve o povo e espera pela sua vez, em vez de querer passar à frente. 

Com os deputados passa-se exatamente a mesma coisa. Ferro Rodrigues e Edite Estrela, ambos com 71 anos, também já se vacinaram. Ora estes, juntamente com o já vacinado presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa, 72 anos, bem poderiam ter esperado pela sua vez, até para terem incentivo para exigirem aos governantes que acelerassem a vacinação para todos os outros idosos portugueses acima dos 70 anos. Agora que já se vacinaram primeiro, qual o incentivo, uma vez que o estímulo e a vantagem pessoal parece ser o que os guia na política, para exigirem rapidez na vacinação para todos os Portugueses? 

A partir desta semana ainda mais deputados novos ou de meia idade se vão vacinar à frente de idosos em risco com mais de 70 anos. Ninguém sabe em detalhe quem está realmente a ser vacinado. Já se falou em cerca de 2.000 figuras políticas. Fala-se agora, no Expresso, em cerca de 50 deputados prioritários, não com base na idade ou outros factores de risco como as doenças que têm, mas na função política, imagine-se. Por exemplo, se são presidentes de comissões tomam a vacina primeiro. Realmente, as nossas comissões parlamentares, especialmente as de inquérito aos bancos e para onde vão os fundos dos contribuintes, são tão eficientes que os líderes são insubstituíveis, únicos no mundo! 

Perante tudo isto e exemplos tão maus vindos de cima, não nos podemos admirar que abaixo destas figuras no governo e parlamento, na questão das sobras de vacinas, seja um forrobodó selvagem e desordenado em que todos os nomeados políticos se queiram vacinar primeiro que os idosos, desde a direcção distrital da Segurança Social até à administração hospitalar, passando pela vereação de grandes câmaras municipais. Estão a seguir o exemplo que vem de cima, dos chefes da direcção actual do PS. Uma direção que envergonha qualquer dos fundadores do PS e contradiz mesmo os princípios mais básicos do partido. No fundo, toda esta história da vacinação revela que muitos destes políticos da actual direção, mais os amigos e familiares que eles escolhem para a administração pública, estão na política principalmente para se servirem, prejudicando gravemente os cidadãos, com a incompetência técnica e falta de ética que leva a muito maus resultados para a população. Deixam para trás todos os cidadãos que servem e todos os Portugueses, mais competentes e éticos, que poderiam, muito melhor, substituir tais maus ministros e administradores públicos se a eleição e contratação cá, como em países mais civilizados politicamente que são democracias plenas, fossem com base unipessoal (votação por selecção específica de um deputado e governante para cada região) e levando em conta o mérito, respectivamente. ■