Nuno Melo:“Costa pode querer antecipar o cenário eleitoral…”

“A prioridade para o CDS é manter-se relevante na Democracia portuguesa, para que no somatório dos votos possa continuar a ser essencial a uma alternativa” – afirma o eurodeputado Nuno Melo a O DIABO, dias depois de uma agitada reunião do Conselho Nacional do partido. Sobre o actual Executivo adianta que “o desgaste provocado pela gestão desastrada da pandemia, casos absurdos como o da escolha do Procurador Europeu na base de informações falsas, a crise do SEF e tantos outros exemplos poderão levar o Dr. António Costa a querer aproveitar a tendência das sondagens e a antecipar o cenário eleitoral”.

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Antes deste turbulento Conselho Nacional disse só estar disponível para uma eventual candidatura à liderança do CDS no Congresso ordinário de 2022. Mantém essa sua disponibilidade?

Na verdade, não disse apenas isso. O primeiro pressuposto teria que ver com a avaliação das circunstâncias do CDS nesse momento. Tendo bom desempenho, não verei necessidade de ponderar candidaturas, mas vivendo um mau momento, porventura sim. Todavia, isso implicaria sempre um “caderno de encargos” exigente. A saber: a possibilidade de juntar o essencial das principais sensibilidades do CDS, o que implicaria a participação do próprio Francisco Rodrigues dos Santos, a par de outros; a realização de uma convenção programática dirigida por figuras reconhecidas pelo país, que em diferentes áreas e traduzindo uma base ideológica e programática do CDS, definiriam a moção de estratégia que adoptaria em Congresso. Por fim, a avaliação de um mínimo de condições financeiras para assegurar os embates eleitorais futuros. De todo o modo, e neste momento, o meu empenho estará todo em dar o contributo possível para que, no que dependa de mim, o CDS possa viver melhores tempos em 2022. E se assim for, a questão nem se porá.

Se Adolfo Mesquita Nunes continuar disponível, é esse o seu candidato?

Suponho que a resposta à pergunta anterior é em parte esclarecedora. O resto, logo se verá.

A direcção de Rodrigues dos Santos ficou com uma vitória na Moção de Confiança por 54,4%. Não é muito escassa?

É uma vitória, nos termos que o Conselho Nacional entendeu bastantes. É certo que os conselheiros eleitos em assembleias distritais de 8 distritos e das regiões autónomas dos Açores e Madeira não puderam participar. Este facto levantou uma questão de representatividade que considerei relevante. Mas, em contraponto, tivemos um dos Conselhos Nacionais mais participados da história do CDS. Acho mesmo que este modelo por videoconferência confere vantagens que o modelo clássico presencial em Lisboa, como regra, jamais conseguirá, atentas as distâncias nas deslocações, custos financeiros e outros factores que levam muitos a não comparecer. Seja como for, a moção de confiança foi aprovada. Disso não há qualquer dúvida.

Recompor a equipa dirigente é uma tarefa que pode reforçar o CDS no curto prazo? Ou uma tarefa quase impossível para Rodrigues dos Santos?

Eu diria que trazer pessoas com disponibilidade, competentes e reconhecidas pelo país seria uma decisão lúcida e muito útil para a direcção e para o CDS.

Para as autárquicas defende candidaturas autónomas ou uma nova AD?

Defendo, como sempre fiz, uma avaliação da base para o topo, começando em cada concelho e só depois, se necessário, pelos órgãos nacionais. Cada concelhia é que conhece melhor a realidade da sua terra, o que equivale a dizer a melhor estratégia e os melhores candidatos. Nuns casos isso passará por candidaturas isoladas do CDS. Noutros, por coligações com o PSD, partido que neste plano tem sido um parceiro estratégico que garantiu vitórias sobre a esquerda em algumas das principais autarquias do país. Noutros casos até, candidaturas independentes, desde que a marca do CDS seja nítida e visível nos candidatos.

Como tem seguido os maus resultados do CDS previstos nas sondagens?

Temos de reconhecer que o CDS não vive um momento extraordinário. Nunca valorizei excessivamente sondagens, mas são já muitas a indicar repetida e consistentemente um sentido descendente, que racionalmente não podemos ignorar. E o facto de os estudos de opinião mais recentes nos colocarem, não como partido que é individualmente mensurável, mas na coluna de “outros”, a par dos que não relevam, sinceramente incomoda-me. Mas quem sabe se o último Conselho Nacional não trouxe o “abanão” de que o CDS precisa para que se inverta a tendência?!

Pensa que o CDS corre o risco de continuar a assistir a uma ‘sangria’ de votos para o Chega e para a Iniciativa Liberal?

Penso que é preciso fazer melhor, principalmente em termos de comunicação – já que propostas não faltam no CDS -, para que as pessoas percebam que não têm nada a descobrir nesses novos partidos, que não encontrem há muito no CDS. O CDS ajudou a fundar a Democracia em Portugal. O CDS não nasceu em 2019. O CDS foi forjado nas urnas. O CDS tem um grupo parlamentar nacional relevante, uma delegação no Parlamento Europeu, preside a câmaras municipais e tem uma representação autárquica nacional. Por isso, neste momento, o CDS não tem que temer comparações com o Chega ou a IL, e tem de confiar no que é e no que representa. Duvido que, questionados sobre o Chega ou a IL, a esmagadora maioria das pessoas conheça alguém, para além dos líderes. Com o CDS não é assim. O CDS é feito de muitos rostos e de boas ideias. Mesmo assim, o CDS tem de saber ler a evolução dos tempos. E o que é facto é que a configuração político-partidária está a mudar na Europa e em Portugal.

Em seu entender, o Chega pode ser um parceiro num governo de Centro-Direita?

Em Portugal, a reconfiguração parlamentar à direita levou a IL e o Chega ao Parlamento. E depois da geringonça em 2015, que mostrou que o PS não se importa de governar sozinho tendo perdido eleições, a questão passou a ser a da necessidade de o CDS ter de ter relevância suficiente para que, somados os votos do partido aos do PSD, a questão do Chega nem sequer se coloque. Mas se se colocar, há outra questão que se tem de ponderar, e que é esta: não aceitar o poder sob pretexto de extremismo do Chega, para se entregar em alternativa o poder ao extremismo do BE ou do PCP, fazendo um frete ao PS, faz algum sentido? Não faz. E caso esteja em causa a possibilidade de um governo do CDS com o PSD, para evitar que os socialistas governem, caberá ao Chega decidir se viabiliza este governo, como sucedeu nos Açores, ou em alternativa entrega o poder à esquerda. Se decidir entregar o poder à esquerda, certamente que o Chega também pagará por isso mais tarde nas urnas. Dito isto, a prioridade para o CDS, enquanto partido de direita humanista, personalista, democrata-cristão, é manter-se relevante na Democracia portuguesa, para que no somatório dos votos possa continuar a ser essencial a essa alternativa.

Vê algum sentido numa tentativa de ‘isolar’ o Chega, que contrasta com a solução dos Açores?

Vejo sentido em fazer crescer o CDS, para que não se tenha sequer de pensar nisso. É difícil? Claro que é. Mas também é possível.

Espera que Costa termine esta legislatura, ou encara a hipótese de legislativas antecipadas?

Julgo que não há nenhuma razão para que não termine a legislatura. Não obstante, o desgaste provocado pela gestão desastrada da pandemia, casos absurdos como o da escolha do Procurador Europeu na base de informações falsas prestadas pelo Governo, a crise do SEF e tantos outros exemplos poderão levar o Dr. António Costa a querer aproveitar a tendência das sondagens, antes que a avaliação do PS se deteriore mais, e, com isso, a antecipar o cenário eleitoral.

Sente a necessidade de uma nova ‘federação’ de Direita, ou acredita que os partidos devem ir isolados às legislativas?

Ainda falta muito tempo para as eleições legislativas, no calendário normal. A política é demasiado dinâmica para que a esta distância se tenham ideias definitivas sobre isso.

Portugal tem a presidência da UE neste semestre. Como eurodeputado e interessado nas questões europeias, como avalia o papel de António Costa?

O Governo tem demonstrado demasiada incompetência nas questões europeias para que seja considerado referência do que seja a 27. É assim em relação às supostas razões de princípio, como as que levam o PS a atacar o governo húngaro quando levanta bandeiras relacionadas com o Estado de direito, para depois ouvirmos o primeiro-ministro reclamar fundos sem dependência do respeito por esse Estado de direito, enquanto se abraça àqueles que aponta como pecadores, é assim no delicado e crucial sector da Justiça e do combate à corrupção, como se percebe na instrumentalização da figura da Procuradoria Europeia, com críticas generalizadas dos maiores partidos com assento no Parlamento Europeu, como é assim em relação às principais áreas sectoriais que o governo tutela. As intervenções em Bruxelas durante a apresentação do programa da presidência portuguesa têm sido muito desastradas, exemplos paradigmáticos dos ministros da Administração Interna, da Justiça e da Agricultura. Num exemplo que vale por todos, a ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, ficou em silêncio quando a interpelei acerca do desperdício de fundos comunitários e violação de regras europeias sobre controlo animal. Em Portugal não existe e em Bruxelas não fala. Uma triste e expressiva imagem da avaliação geral da competência do governo português em Bruxelas. ■