Parte 3: Educação e Economia

0
599

Um dos erros que mais tem afectado a qualidade da governação em Portugal ao longo dos anos, e que actualmente afecta a governação do PS e da geringonça, é a tomada de decisões baseada na análise dos efeitos e não das causas. Este erro resulta sistematicamente da falta de motivação estratégica e da superficialidade da análise feita pelos governantes em relação às grandes questões nacionais. Será esta mais uma razão para não votar no PS em Outubro, dado não ser previsível que esta insuficiência seja corrigida; bem pelo contrário, um novo governo da geringonça resultará em mais navegação à vista e em mais quatro anos perdidos. Se a geringonça compreendesse o que verdadeiramente está em causa quando não se estudam as causas, já teria procedido de acordo, teve quatro anos para o fazer.

Por exemplo, o Governo acaba de anunciar a criação de uma escola especial destinada aos jovens com baixo aproveitamento escolar. Trata-se de mais um erro gritante que resulta da insuficiência de análise estratégica e de pouca competência do Ministério da Educação. O Ministério pretende actuar em função de uma realidade – o baixo aproveitamento escolar – sem se perguntar quais as causas desse baixo aproveitamento e sem actuar em função dessas causas. Ora, como defendo há muito, as causas principais do insucesso escolar residem da enorme desigualdade de qualificações das crianças à entrada do ensino obrigatório. Ou seja, as crianças das classes média e média alta frequentam geralmente boas creches e escolas do ensino pré-escolar, vão ao cinema e ao teatro, fazem desporto, os pais têm livros em casa e boa alimentação. As outras crianças, oriundas das famílias mais pobres e mais ignorantes, a lutar dia a dia para sobreviver, não têm as mesmas vantagens e ao chegar ao ensino oficial enfrentam enormes desigualdades no seu processo de desenvolvimento e ficam marginalizadas, frequentemente revoltadas, acabando a não ter o melhor aproveitamento.   

Esta é a razão por que defendo há anos uma verdadeira rede de creches e de escolas do pré-escolar de elevada qualidade para todos, mas principalmente para os mais pobres, dez horas por dia, com alimentação e transporte, por ser essa a única forma de tentar dar uma formação semelhante a todas as crianças até à entrada no ensino oficial aos seis anos. Sei que isso não resolve todos os problemas da pobreza e da desigualdade, mas seria um passo de gigante na direcção certa, ao passo que a decisão recente do Ministério é demasiado tardia e não vai alterar nada de fundamental, até porque os primeiros anos de vida são definitivamente os mais importantes para a formação das crianças. E não será aos doze, ou catorze anos, que se resolve um problema que começou no primeiro mês de vida.

• Leia este artigo na íntegra na edição em papel desta semana já nas bancas