Parte 5: Esquerda e direita, privado e público

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Uma das razões que leva os eleitores à mesa de voto e a fazer as suas escolhas partidárias – em Portugal não é possível escolher entre candidatos – é acharem que são de esquerda ou de direita e votarem de acordo com essas convicções. Há, naturalmente, votantes que utilizam diferentes critérios, ou que alteram o seu sentido tradicional de voto, mas não são em número suficiente para alterar, entre nós, a dimensão do voto ideológico. 

Existem dois grandes problemas com esta prática do voto por razões ideológicas. O primeiro, que acontece frequentemente, resulta de os partidos não serem aquilo que dizem ser e utilizarem uma designação que não corresponde aos seus programas, que aliás muito poucos eleitores lêem, e, principalmente, não correspondem às suas práticas políticas quando chegam ao governo. O segundo problema reside no facto de os conceitos esquerda e direita terem mais de cem anos e durante todo este tempo muito pouco mudou nos objectivos dos partidos e, mais grave, na qualidade das propostas para alcançar esses objectivos.

O PS, putativo vencedor das próximas eleições, já uma vez, com Mário Soares, anunciou meter o socialismo na gaveta para poder retirar o País da crise, no que seria uma opção temporária. Ao fazer isso, Mário Soares foi responsável e honesto, o que não acontece presentemente, na medida em que o PS é simultaneamente de esquerda e de direita, mas sem o dizer e de acordo com as conveniências eleitorais e com os interesses da grande família socialista. António Costa fez um acordo parlamentar com o PCP e o Bloco de Esquerda para ser Primeiro-Ministro, mas faz acordos com o PSD sempre que lhe é conveniente. Aliás, no PS e no conjunto dos seus candidatos a deputados há muito poucos que se possam reclamar de esquerda, a maioria procura um bom emprego e, com sorte, um bom negócio.

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