A erotização da sociedade portuguesa

0
734

Das velhas salas de filmes “porno” glorificando Emmanuelles e Cicciolinas dos anos 70 e 80 até aos debates inflamados sobre a “ideologia de género” e o “sexo virtual” dos nossos dias, a sociedade portuguesa tem percorrido um longo caminho. Hoje, cada vez mais, a mensagem hedonista está por todo o lado. Contudo, ao menorizar-se a disseminação dos conteúdos erótico-pornográficos, a sua problematização e os seus efeitos, considerando-os uma inevitabilidade da cultura de massas, da abertura ao exterior, das “amplas liberdades democráticas” e da revolução nas comunicações, assume-se como aceitável a degradação do universo sexual, reduzido a mero jogo sem qualquer dimensão humana e em que, com frequência, a mulher é desrespeitada e degradada.

No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define-se o vocábulo “erótico” como “relativo ao erotismo”, sendo o “erotismo”, nas três primeiras definições apresentadas, ora como “estado de excitação sexual”, ora como “tendência para experimentar a excitação sexual mais prontamente que a média das pessoas” ou ainda, na terceira acepção, “tendência para se ocupar com ou de exaltar o sexo em literatura, arte ou doutrina”. E, na sequência, quando localizamos o termo “pornografia”, na quarta definição que encontramos podemos ler que se trata de “qualquer coisa feita com o intuito de ser pornográfico, de explorar o sexo tratado de maneira obscena, como atractivo (p. ex, revistas, fotografias, filmes, etc.)”. Tendo em conta estas definições, prossigamos.  

Poucos hoje se recordarão de que o último presidente da República do Estado Novo, Américo Thomaz, na sua Mensagem de Ano Novo de 1 de Janeiro de 1972, referiu “o trabalho de sapa que de há anos para cá foi posto satanicamente em marcha para minar os alicerces da civilização ocidental e cristã”, sendo que “foi precisamente nas nações ditas mais civilizadas que a poluição moral começou, através da corrupção dos costumes, do uso das drogas e do descaminho da juventude, tornando-as centros de desagregação social e de contaminação generalizada. É possível que o comunismo as tenha escolhido (…), evitando dentro de casa o mal que tem procurado e conseguido introduzir na alheia” (in “Segundo Mandato na chefia do Estado”, Secretaria de Estado da Informação e Turismo, 1972, p. 89).

E Américo Thomaz não se ficou por aqui. No mesmo discurso salientou ainda: “Habilmente aproveitados, o teatro, o cinema, a rádio e a televisão foram-se tornando em todo o Ocidente, e quase insensivelmente, canais óptimos para ajudar a promover a corrupção dos costumes. A difusão, às toneladas, de publicações pornográficas, tendo por fito principal a juventude, foi um veículo altamente pernicioso, tão pernicioso quanto nocivo tem sido, para a saúde física e mental, o uso de drogas. Do conjunto destes malefícios resultou, naturalmente, a corrosão das bases seculares da civilização ocidental e a primeira a ser propositadamente atingida foi a família, sem dúvida das mais importantes” (idem, pp. 89-90). 

• Leia este artigo na íntegra na edição em papel desta semana já nas bancas