Políticos vão para férias cá dentro

A pandemia obrigou os políticos portugueses a fazerem este ano férias em território nacional, seguindo eles próprios o conselho que repetiram aos cidadãos.

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Com o turismo com quebras estimadas de 80%, e perante a quase total inexistência de turistas estrangeiros, a opção por ficar no país tem uma razão económica, a que se juntam os riscos da pandemia. Na verdade, na falta de respostas da própria Medicina face a uma doença para que até ao momento não existe vacina, nem tão pouco tratamento, ninguém se quer arriscar a ter de ficar bloqueado no estrangeiro a cumprir uma quarentena ou internado por ter contraído o vírus.

Os principais protagonistas políticos vão passar todos férias em Portugal, com os cuidados impostos pela pandemia de Covid-19, e dividirão os dias de descanso entre Algarve, Norte e Ilhas.

O Algarve vai ser a escolha de muita da classe política, desde o Presidente da República ao Primeiro-Ministro, passando por ministros, deputados e autarcas. Todos os anos o Algarve é um desfile de caras conhecidas, e 2020 não vai ser excepção.

O Presidente da República já tinha anunciado publicamente que iria passar uns dias de férias na Região Autónoma da Madeira e outra parte no Algarve, para destacar a segurança destes destinos e ajudar a actividade turística, num ano em que a pandemia promete afectar particularmente este sector económico em Portugal.

As férias no Algarve são uma tradição para Marcelo Rebelo de Sousa, que habitua-
lmente fica alojado num hotel. As revistas costumam aproveitar para o fotografar na praia com a namorada de sempre, Rita Cabral. Fora estes dias de férias, Rita Cabral não aparece em público com o Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa visitará Porto Santo entre 6 e 8 de Agosto e rumará ao Algarve na segunda quinzena do mês. Mesmo durante o ano, o PR é conhecido por tomar banho de mar sempre que isso se proporciona. Em Portugal, normalmente em Cascais, perto da sua casa, mas também quando se desloca ao estrangeiro. Mas apesar deste enorme gosto pela praia, a sua assessoria de Imprensa já informou que o Presidente, no dia 27, faz questão de estar em Lisboa para o arranque da 90ª edição da Feira do Livro da capital, que este ano foi adiada também devido à pandemia.

Para além desta interrupção já programada, o Presidente costuma fazer visitas relâmpago, pelo que quer as férias na Madeira quer no Algarve podem trazer mais surpresas. O Presidente tem dois filhos e vários netos que estão no estrangeiro por razões profissionais, não se sabendo se vai ser possível alguma visita.

Estas férias vão servir para Marcelo Rebelo de Sousa decidir o que vai fazer em matéria de eleições presidenciais. É que se uma recandidatura é dada como certa, já a campanha eleitoral vai ter de ser muito diferente do habitual, por causa da pandemia. Para quem é “o campeão dos afectos”, o Presidente da República não tem tarefa fácil. Estes últimos meses de afastamento do contacto popular foram difíceis, e as campanhas eleitorais costumam ser muito mais exigentes.

Marcelo está prestes a entrar nos últimos seis meses de mandato, fase em que não pode dissolver a Assembleia da República, pelo que a hipótese de uma crise política está afastada.

O Presidente tem resultados muito bons nas sondagens, mas existem muitos militantes do PSD e do CDS que estão descontentes com a excessiva aproximação ao PS de António Costa. Logo se verá se no sigilo das urnas Marcelo consegue, ou não, ter um resultado robusto.

O Primeiro-Ministro também escolheu passar as férias no Algarve, onde está com a mulher, Fernanda Tadeu. Sem surpresa, António Costa seguiu o conselho que deu aos portugueses de ir para férias cá dentro.

Quem se cruza com ele refere que António Costa tem passado os dias na praia a ler e a tomar banhos de mar. O PM escolheu o Algarve, o mais popular destino de férias português, e está no concelho de Lagoa. Tem um toldo reservado, mantendo a distância a que a pandemia obriga.

Mas António Costa quer alguma reserva da sua vida pessoal durante as férias. Não se sabe se está numa casa ou se foi para um hotel. O gabinete do Primeiro-Ministro, tal como no ano passado, escusou-se a revelar o período ou local em que António Costa goza férias, considerando tratar-se de matéria reservada.

Mas numa era de telemóveis cada vez mais potentes, dificilmente deixará de ser fotografado, num país onde tradicionalmente não se costuma ser desagradável para os políticos em férias.

Em todo o caso, este ano as férias serão mais descansadas, pois Fernanda Tadeu já recuperou da intervenção ao pulmão que fez em 2019. António Costa tem dois filhos já adultos que podem ser visita durante estas férias algarvias.

O PM também tem espaço para pensar no repto que fez à extrema-esquerda para uma nova geringonça. As negociações com as segundas linhas decorrem, mas na ‘rentrée’, após as férias, terá de ser o líder do PS e Primeiro-Ministro a ver se um acordo com o BE e o PC é concretizável.

Já o líder do PSD, Rui Rio, tenciona manter a rotina de férias. O líder ‘laranja’ opta pelo Norte para estas férias marcadas pelo ritmo da pandemia.

Fazendo questão de afirmar que Rui Rio não muda de hábitos, uma fonte do seu gabinete adiantou que o líder ‘laranja’ tem, por norma, “férias muito frugais, a exemplo do que faz na vida em geral”, e passará este período de descanso – com início no princípio de Agosto – no Minho, como é habitual.

É certo que Rui Rio manifestamente não gosta do Sul, tendo optado por transferir para o Porto e para o Norte grande parte da sua agenda política como líder social-democrata.

Costuma passar férias numa casa que tem em Viana do Castelo, aproveitando para ler, descansar e passear na companhia da mulher e da filha.

Será uma oportunidade para Rio tentar pensar numa estratégia para ultrapassar o facto de as suas declarações sobre uma eventual aproximação ao Chega de André Ventura terem suscitado alguma polémica no PSD. Rui Rio afirmou poder ‹conversar› com o Chega se este partido evoluir para uma posição mais moderada.

Já a segundo figura do Estado, Eduardo Ferro Rodrigues, repetirá o destino de férias tradicional: Altura, no Algarve, no início de Agosto. O Presidente da Assembleia da República vai recarregar baterias para um ano parlamentar muito exigente, pelos reflexos da pandemia na economia, que está arrasada, depois de o PIB do segundo semestre ter caído 16,5 %.

Nesta primeira sessão legislativa, Ferro Rodrigues saiu chamuscado com a forma como lidou desastradamente com André Ventura, o líder do Chega. Na verdade, deu a Ventura o palco privilegiado do Parlamento e dessa forma abriu caminho a polémicas que fizeram o líder do Chega ser manchete em vários jornais.

Carlos César, presidente do PS, confirmou que irá fazer férias em “duas ou três ilhas dos Açores”, arquipélago de onde é natural. Recorde-se que Carlos César foi presidente do Governo Regional dos Açores durante muitos anos e que gostava de um dia ser Presidente da Assembleia da República. O Presidente do PS sabe que para isso terá de acabar o ciclo de Ferro Rodrigues. Também no horizonte do pós-Marcelo poderá estar um desejo antigo de se candidatar ao Palácio de Belém.

Igualmente pelo arquipélago dos Açores andará o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, que “passará alguns dias da primeira quinzena de Agosto” nesta Região Autónoma, não só devido às eleições regionais que se realizam depois do Verão, mas também com o objectivo de “ajudar o turismo”. Se a incursão nos Açores tem a dupla vertente de lazer e trabalho, não se sabe se “Chicão” – apodo por que é conhecido nos círculos centristas – não irá ter mais dias de férias. Se os tiver, serão com grande probabilidade passados no Algarve.

As férias são um momento próprio para o líder do CDS reflectir sobre a polémica dentro do partido levantada pelas suas declarações sobre um eventual não apoio à candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa.

Recorde-se que uma das vozes mais crítica foi a de Lobo Xavier, que ameaçou deixar o CDS-PP caso este não apoie a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas essa foi apenas uma das vozes que se insurgiram contra a possibilidade de a opção presidencial do CDS não passar pelo actual Presidente. A anterior líder, Assunção Cristas, foi das primeiras a declarar que o CDS apoiaria o actual Presidente da República numa recandidatura.

Rodrigues dos Santos tem ainda nas tarefas de férias deste ano uma reflexão sobre o desastre dos resultados do CDS nas sondagens.

Já a coordenadora do BE, Catarina Martins, planeia gozar férias igualmente na primeira quinzena de Agosto e, se a evolução política o permitir, passará esses quinze dias “com a família a Norte (litoral)”, segundo revelou a assessoria do partido.

Como é habitual, o local escolhido é o distrito de Aveiro, onde tem família, mas a assessoria bloquista ressalva que o gozo das férias poderá depender do que acontecer a nível político durante esse período: “Se os acontecimentos políticos o permitirem (estará sempre informada, e portanto a par dos principais assuntos da política e nomeadamente da evolução da situação pandémica) serão 15 dias com a família no litoral do distrito de Aveiro, local onde habitualmente passa férias”. Catarina Martins tem duas filhas, sendo a oportunidade para uma maior proximidade, pois boa parte das semanas é passada pela deputada em Lisboa.

A líder do Bloco de Esquerda irá descansar antes do próximo duplo desafio: as negociações do Orçamento do Estado para 2021 e a possibilidade de haver um acordo formal à esquerda para garantir a estabilidade do Governo do PS, como desafiou António Costa no debate sobre o estado da Nação.

A derrapagem na economia poderá ainda implicar um novo Orçamento Suplementar. Se o Ministro das Finanças, João Leão, avançar com este Suplementar, serão três os Orçamentos debatidos no Parlamento em escassos meses.

Catarina Martins tem neste momento o Bloco pacificado e pode partir para a negociação de um novo acordo formal à esquerda tal como o fez após as últimas legislativas.

O líder comunista é outro dos políticos que rumou ao Sul. De forma institucional, o gabinete de Imprensa do PCP divulgou que o secretário-geral comunista, Jerónimo de Sousa, “gozará o seu período de férias entre o final de Julho e as primeiras semanas de Agosto, no sul do país como é habitual, tomando as medidas de protecção sanitárias ajustadas à situação actual”.

Refira-se que o líder do PCP é tradicionalmente reservado quanto ao programa de férias. Em anos anteriores, os comunistas organizaram uma sardinhada no Algarve, sendo uma forma de regressar ao contacto com os eleitores. Face à pandemia, a festarola pode estar comprometida.

Certa é a Festa do ‘Avante!’, que vai decorrer no Seixal no início de Setembro. O PCP defende que a Festa tem conteúdo político, pelo que decidiu pela sua realização assegurando medidas de distanciamento social. Mas só em Setembro é que se saberá se a tão propagandeada organização dos comunistas vai impedir os participantes da Festa do ‘Avante!’ de potenciarem a propagação do Covid-19.

Jerónimo de Sousa tem evitado dizer se em Novembro, no próximo Congresso do PCP, se recandidata a secretário-geral. As férias de Verão são uma oportunidade para Jerónimo de Sousa pensar no seu futuro político.

O líder do PAN, André Silva, decidiu estar de férias nas primeiras três semanas de Agosto, para recuperar dos trabalhos parlamentares e políticos intensificados com a pandemia.

“À semelhança do ano passado, escolheu Portugal como o local para poder descansar e repor a energia. Durante este período, conta dividir os dias entre o Algarve e a zona de Aveiro. Neste ano em que o país é também afectado por uma crise sanitária, as recomendações e as precauções que têm vindo a ser amplamente recomendadas pelas autoridades de saúde farão seguramente parte da rotina em férias”, adiantou a assessoria de imprensa do PAN.

As férias serão uma oportunidade para André Silva pensar na recente onda de desfiliações, desde logo a do eurodeputado André Guerreiro, que deixou o PAN sem representação em Bruxelas, mas também na ‹baixa› da sua bancada parlamentar que viu Cristina Rodrigues sair para deputada não inscrita.

Curiosamente, os dois novos líderes partidários com assento na Assembleia da República depois das últimas legislativas, André Ventura e Cotrim de Figueiredo, vão ter férias intercaladas com a actividade política.

André Ventura, deputado único e líder do Chega, assume que terá este ano férias “muito diferentes do que é habitual”, quer pelos compromissos partidários quer pela sua anunciada candidatura a Belém.

“Em Agosto realizar-se-ão, em várias zonas do país, comícios de apoio à candidatura do presidente do Chega à Presidência da República, nomeadamente em Aveiro, Leiria e Setúbal, contando-se ainda diversas reuniões semanais”, informou a sua assessoria, dizendo que os “poucos dias de descanso” que André Ventura terá serão intercalados com esta actividade política, passados “na companhia da família e, sempre que possível, a ler um livro”.

Já a assessoria do presidente da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, indicou que “num ano atípico, as férias do deputado serão típicas”, passadas em Portugal. Decidiu, no entanto, não revelar o local escolhido para as suas férias. Avançou que estas serão dedicadas ao que “sente mais falta” no resto do ano: “família, amigos, desporto e leituras”.

“Mas, como deputado e presidente da IL, irá manter actividade política, estando previstas algumas acções pelo país, como a presença no Porto a 24 de Agosto para celebrar os 200 anos da Revolução Liberal”, acrescenta.

Nas férias de Verão de 2020 mudam pouco os planos da maioria dos líderes partidários. Não se verificam grandes alterações, apesar da pandemia. O mesmo não se pode dizer das ‘rentrées’ partidárias, que habitualmente se realizam entre final de Agosto e início de Setembro.

Como se sabe, apenas o PCP mantém a habitual Festa do ‘Avante!’.

O PSD e o BE já cancelaram as iniciativas que realizam há vários anos – Universidade de Verão e Fórum Socialismo, respectivamente -, com o BE a adaptar o seu acampamento para jovens ao formato ‘online’, uma iniciativa que decorre até domingo, com a participação de Marisa Matias, Francisco Louçã e Catarina Martins, entre outros.

Outra iniciativa cancelada pelo PSD foi a tradicional Festa do Pontal, que costuma decorrer em Agosto, no Algarve, reunindo parte dos sociais-democratas em férias.

Já o PS adiantou que nada está ainda definitivamente decidido quanto a ‘rentrées’, mas recorda que o partido tem os congressos federativos previstos para o fim de semana de 12 e 13 de Setembro. ■