Portugueses exemplares

Rui Nabeiro, Belmiro de Azevedo e Alexandre Soares dos Santos foram casos excepcionais de criação de riqueza e contributo para a sociedade. Em Portugal, a esquerda habitualmente demoniza os empresários e os lucros que as suas empresas geram. Mas sem lucros não há crescimento económico, nem melhores salários, nem justiça social

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Rui Nabeiro, o empresário humanista que nos deixou recentemente, recebeu com toda a justiça os mais variados elogios de todos os sectores da sociedade portuguesa pela sua obra, num exemplo raro de reconhecimento pela sua contribuição para melhorar a vida de muitos portugueses e a economia do país. Elogios também de sectores da esquerda, que normalmente se afadigam a demonizar os empresários e os lucros que eles originam nas sua empresas, como está a acontecer actualmente com os herdeiros de Belmiro de Azevedo e de Soares dos Santos, que também nos deixaram não há muito tempo.

Rui Nabeiro teve um início de vida muito difícil e foi através de uma actividade ao tempo ilegal que obteve os lucros suficientes para criar a sua primeira empresa. Não é caso único, na história da economia existem muitos exemplos de empresários que tiveram a sua origem em actividades de legalidade duvidosa e que criaram impérios. Sendo que toda a obra que Rui Nabeiro deixou ao país, empresarial e social, não teria sido possível sem os lucros das suas empresas e da sua qualidade empresarial.

Felizmente que hoje, em todo o mundo, nomeadamente nos Estados Unidos, existem empresários que, tendo criado grandes empresas e obtido lucros de enorme dimensão, se dedicam a investir as suas enormes fortunas nos mais variados objectivos sociais, como é o caso, por exemplo, de Bill Gates. Outros empresários não o fazem e investem o seu tempo e o seu dinheiro em objectivos diferentes, como seja criar novas ideias, novos produtos e novas tecnologias, que tornam possível que hoje vivamos mais tempo e em melhores condições. Todos o fazem com os lucros originados nas suas empresas.

Tive durante muitos anos um patrão chamado Aníbal Henriques Abrantes, que deixou Lisboa, onde nasceu, para ir viver na Marinha Grande. Era jogador de futebol e gostava de viajar, o que fazia frequentemente antes e depois da guerra de 1939. Em Paris e Londres tomou contacto com os primeiros produtos feitos de plástico e aproveitou uma empresa existente do irmão, que produzia moldes para vidro, para fazer os seus primeiros moldes para comprimir e injectar esse novo material, mas não só. Nas suas muitas viagens, passou a trazer para Portugal os primeiros produtos feitos de plástico que surgiam em Paris e em Londres, para convencer os empresários portugueses que fabricavam esses mesmos produtos noutros materiais a mudar. Foi a Guimarães à empresa “Ribeirinhos”, que produzia pentes em osso, e a Aveiro à empresa “Luso Celulóide”, que produzia brinquedos, como a muitos outros empresários que não viajavam, convidando-os a entrar no novo mundo dos plásticos com grande antecedência e a comprarem os seus moldes.

Felizmente fez ainda mais, transformou em indústria o que no mundo inteiro era um artesanato que produzia ferramentas de estampar metal através de artistas artesãos, que, com a ajuda de um aprendiz/ajudante, realizavam sozinhos todas as operações necessárias. Como não havia em Portugal tais artesãos, Aníbal Abrantes iniciou no sector a divisão do trabalho através da criação de operários especialistas, no que foi no mundo a primeira empresa industrial dedicada a produzir moldes. Mais, iniciou a exportação desses moldes através do que já era a maior empresa produtora de moldes do mundo com 350 especialistas, quando nos Estados Unidos e na Alemanha essas empresas não tinham mais de trinta artesãos, cuja formação levava vinte anos. Na sua vida, através do seu gosto pelas viagens, Aníbal Abrantes deu origem a duas verdadeiras indústrias portuguesas, a dos plásticos e a dos moldes. Nesse processo transformou a economia da Marinha Grande e contribuiu para elevar o nível de vida de toda a região através da concorrência criada pela nova indústria e pelo crescimento dos salários.

Talvez por nunca ter tido outros interesses e ser apenas um inovador, Aníbal Abrantes morreu sem o merecido reconhecimento público, nem sequer na terra que adoptou como sua. Foi meu patrão durante vinte e cinco anos e recordo-o com uma saudade agradecida por aquilo que nos deixou. Como recordarei as instrutivas conversas que tive com Rui Nabeiro em viagens de promoção dos nossos negócios pelo mundo fora. Felizmente que ele teve o justo reconhecimento.

Este texto é também sobre o lucro, sem o qual não há crescimento económico, nem melhores salários e nem justiça social. Foram os lucros que permitiram a Rui Nabeiro realizar a sua notável obra social e a Aníbal Abrantes adquirir as máquinas e as tecnologias que contribuíram para mudar a indústria portuguesa. A demonização do lucro que hoje é feita em Portugal representa, para além de todas as considerações, um passaporte certo para a pobreza. Com a ironia de que mais de 90% das empresas portuguesas são muito pequenas e a maioria não gera lucros ou exporta e os salários são naturalmente baixos, mesmo para a grande maioria dos seus empresários. Trata-se do modelo económico errado, porque o objectivo natural das empresas é crescerem e gerarem lucros, como fez Rui Nabeiro.

Como também é evidente, o problema principal da nossa economia é hoje o excesso de pequenas empresas que não crescem e não geram lucros, pelo menos não tantos como os criados pela corrupção e pelos amiguismos partidários. Trata-se do modelo económico errado, que sobrevive através de uma Justiça que dorme e da protecção política que é dada aos empresários amigos do regime e dos partidos políticos, além de sustentar comentadores políticos em exercício.

Acontece que as empresas “Sonae” e “Jerónimo Martins” deveriam orgulhar todos os portugueses e receber os maiores elogios do poder político por terem lucros, crescerem, diversificarem e usarem as mais modernas tecnologias para concorrerem no mundo com sucesso. Infelizmente, o poder político prefere proteger os oligopólios de algumas empresas, como é o caso das telecomunicações, empresas que podem impunemente aumentar os preços, que já são muito superiores aos preços médios praticados na União Europeia. É o habitual amiguismo que nos governa.

Os lucros são o sangue da economia, lucros que permitem que as empresas que nasceram pequenas gerem lucros e cresçam. Infelizmente, em Portugal, sabemos por experiência que a generalidade das empresas são demasiado pequenas, não geram lucros e não crescem, além das empresas geridas pelo Estado que também não produzem lucros e não crescem, mas isso é outra história.

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