Quem não tem cão…

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Dos gatos, reza a lenda, sabemos terem sete vidas. Coisa um bocado injusta no meio animal, já que o normal é ter-se uma. Deus não foi, por isso, equitativo na distribuição da graça, por isso o resto da fauna lá tem que se amanhar com a única que tem. Conheço alguns gatos que discordam já que ao segundo ou terceiro “flick-flack” parecem ter gastado os créditos todos e, vai daí, foram pedir meças ao Criador – no sentido literal do termo. Assim, convém que a malta lhe dê bom uso, porque a vida é coisa séria e, por norma, acaba com a morte, o que é uma coisa chata. Primeiro, porque, às vezes, ela é dolorosa, o que é sempre aborrecido, convenhamos. Depois, porque acontece sempre em alturas que não dava jeitinho nenhum. Se alguém pudesse escolher, estou certo que nunca escolheria o momento em que morreu.
É quase como os cônjuges, mas em versão mais “light”. Por último, traz aquela chatice das partilhas em que os irmãos, mal sabem a notícia do falecimento correm para casa dos pais a abotoar-se às pratas, ainda antes de ligarem para a funerária.

A regra é, portanto, um homem, uma vida, que é um “slogan” porreiro e até dava para mandar “t-shirts”! Há, porém, excepções. Rio, não sendo gato, colecciona vidas como o Cabrita colecciona trapalhadas. E não é fácil!

No passado fim-de-semana, estava meio Portugal a repousar os ossos no sofá a fazer “zapping” entre a novela e a “CNN”, sem os distinguir, e leva na tromba com a vitória de Rio. Assim, pumba, um gancho sem anestesia que se tornou mais viral que o pontapé do Marco no “Big Brother”. Soam as campainhas, as operadoras móveis começam a engasgar com a quantidade de mensagens debitadas que mais parecia o fim de ano de década passada, em que a malta só conseguia ligar para os pais lá prá meia noite e meia… As empresas de sondagens começam a ter o mesmo grau de certeza que tinha a minha avó relativamente à chuva para o dia seguinte, baseada nos joanetes. E a verdade é que, ou chovia, ou não chovia! Dava-se, por isso, Rio como morto, encomendando-se as exéquias nas mesmas mesas que se faziam as listas de deputados.

É que, na senda de proto-projecções e de contabilidades de merceeiro de lápis atrás da orelha, não faltou quem encarnasse Judas e vendesse a alma, renegando quem antes houvera louvado. Pior, fê-lo, não por convicção política, por crença no projecto, antes por puro calculismo, interesse pessoal e, em “ultima ratio”, pela própria sobrevivência. Caso paradigmático foi a Distrital do Porto. Os dirigentes locais, julgando que iriam ser favas contadas, colocaram as fichas todas do lado de Rangel. Pensaram poder condicionar os votos dos militantes, como há muito têm feito, contando as carrinhas necessárias e gizando voltas com uma frequência e regularidade que os STCP não conhecem há muito. Nesse “all-in”, confiando no ganho certo, nem sequer se abstiveram de tomar posição institucional, pouco abonatória para Rio, já que consideravam Rangel “o único” capaz de disputar as legislativas contra o PS. A “boutade” desta gente não conhecia limites. Mas à “boutade”, não é à “boutadinha”, como se diz no Norte. E Rio, já no caixão, levantou-se, não ao terceiro dia, mas pela terceira vez. Com ele trouxe uma data de mortos, não do aparelho, mas anónimos, que há muito não davam sinal de vida nos cadernos eleitorais. Os tais que não andam em carrinhas, mas em carros próprios ou se deslocam a pé, que pagam as suas quotas, que não votam em quem lhes mandam e que só aparecem quando verdadeiramente acreditam. Fosse por confiarem no líder, fosse por não estarem preparados para aquilo que Rangel representava, certo é que, na contabilidade final, Rio lá venceu. À tangente, é certo, mas como adepto do Boavista vai tempo em que não conhece goleadas. Não precisa, como não precisou das outras vezes. Venceu, ponto! O brilharete extramuros estava guardado para Rangel, numa população eventualmente mais cosmopolita e menos tradicional, pelo que por lá continuará, em Bruxelas, como eurodeputado. Por cá continuará a mandar um Rio, pouco empático, pouco flexível, avesso a debates e às luzes da ribalta, mas é para o lado que dorme melhor, já que não concorre a “Miss”. Apresenta-se como candidato a primeiro-ministro, numa alternativa ao PS de Costa. Como timoneiro de uma direita que cresce e de um centro até então sem líder.

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