Rui Rio autárquicas: Mau feitio!

Rui Rio está a fazer uma gestão polémica do ‘dossier autárquicas’. Recusou conversar com a direita do Chega, desbaratou o apoio da Iniciativa Liberal por não ter feito um telefonema, agarrou-se a um CDS em crise e limita-se agora a contar com a cumplicidade passageira de um rancho de minúsculas siglas com fraca expressão eleitoral. Um mau resultado nas autárquicas do próximo Outono poderá ditar o fim de Rio à frente do PSD.

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Tudo estava discutido, as arestas tinham sido limadas, para haver acordo só faltava o protocolo de etiqueta habitual nestes casos. Na semana passada, à hora de fecho do nosso jornal, estava absolutamente dada como certa a adesão da Iniciativa Liberal à candidatura autárquica de Carlos Moedas, numa vasta AD “por Lisboa” – tanto que o próprio Moedas e o líder liberal, João Cotrim de Figueiredo,  já haviam selado entre si um pré-acordo. Mas entre o fecho da nossa edição e o dia seguinte algo de insólito aconteceu: o líder do PSD, Rui Rio, que parecia ter “abençoado” à distância o acordo entre o PSD e a IL, falhou o protocolo de etiqueta que faltava. E a combinação desfez-se.

Houve no PSD quem não quisesse acreditar que (palavras usadas por uma fonte ‘laranja’) “o orgulho mal colocado” de Rui Rio levasse a perder “um apoio politicamente tão significativo”. Fosse qual fosse o número de votos trazidos pela IL, acrescenta a nossa fonte, “esse apoio representava a adesão de um sector vital para que se constituísse uma AD [Aliança Democrática], com eventuais repetições noutras autarquias”.

O ‘filme’ dos acontecimentos tem sido relatado na imprensa, sem que Rui Rio esboce sequer a intenção de um esclarecimento ou uma desculpa. Moedas e Cotrim tinham-se “entendido às mil maravilhas” nas várias reuniões discretas que vinham mantendo desde Janeiro. Mas Cotrim desejava ouvir de viva voz, do presidente do PSD, que acolhia de bom grado (ou mesmo que agradecia) o apoio da IL – e fê-lo saber. Rio ficou de telefonar. Em Janeiro. Em Fevereiro. As conversas prosseguiram. E Rio, nada. Quarta-feira da semana passada, num último encontro com Moe-
das, Cotrim aguardava ainda o telefonema de Rio. No Sábado, a Direcção da Iniciativa Liberal percebeu que o presidente ‘laranja’ era orgulhoso demais para ligar. À noite, Cotrim informava o cabeça-de-lista do PSD: “Carlos, vamos apresentar um candidato próprio”. Assim se desfazia a AD autárquica, deixando o PSD agarrado a um CDS em crise e a um rancho de minúsculas siglas com fraca expressão eleitoral.

Dispersão à direita 

A Iniciativa Liberal não ficou em melhor posição: avançou com um candidato desconhecido, Miguel Quintas, cujo primeiro acto foi meter os pés pelas mãos ao sugerir uma “nacionalização da TAP”, absurda na boca de um liberal. “Rectificações” posteriores não o deixaram melhor colocado, acabando por ingloriamente desistir da corrida.

Também o Chega parece agora dependente de um fracasso da candidatura de Carlos Moedas para impor os seus trunfos (sejam eles quais forem) numa eventual negociação pós-eleitoral. “Não disputamos o mesmo eleitorado”, desvaloriza Nuno Afonso, vice-presidente e coordenador autárquico do partido, enquanto o líder André Ventura ataca a “falsa direita” de Moedas e vaticina que “virão, como sempre, implorar por acordos”.

E no próprio CDS o projecto de coligação com o PSD provocou ondas negativas: os críticos, com destaque para o eurodeputado Nuno Melo, acham que o CDS é “secundarizado” no apoio a Carlos Moedas. Também o líder da distrital de Lisboa dos centristas, João Gonçalves Pereira, acha que devia ser o CDS a “encabeçar” a lista conjunta com o PSD.

À direita, o único consolo reside na evidência de que a esquerda não está melhor. PCP, Bloco de Esquerda e PAN apresentarão candidatos próprios, pulverizando o voto. Faltam ainda sete meses, mas os estrategas das várias candidaturas já fazem contas. Sem um claro vencedor à partida, a governabilidade do Município de Lisboa parece depender cada vez mais de acordos pós-eleitorais. ■