Ser português em 2022

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Portugal é um povo feito de outro povos, que há muitos séculos viajaram do Leste e aqui chegaram, tendo sido impedidos pelo mar de continuarem a sua caminhada, mas apenas o tempo necessário, até que as tecnologias permitiram continuar a viagem pelo mundo. Talvez por isso, alguém disse que haveria aqui na ponta da Europa um povo estranho que não se governava e nem se deixava governar. Pessoalmente, prefiro pensar que somos apenas um povo com grandes qualidades que espalhamos pelo planeta, mas cujo maior defeito será a imensa capacidade para se deixar enganar e foi exactamente isso que aconteceu nas últimas eleições ao dar a maioria absoluta ao Partido Socialista.

Como resultado, há já longos sete anos que uma grande parte dos portugueses têm empobrecido e de alguma forma contente, dominada pelas mais diversas formas de propaganda feita através dos mais diversos meios de comunicação, além da máquina partidária e do Estado, contra toda a evidência objectiva. Estamos mais pobres do que há sete anos, fomos ultrapassados economicamente por países que partiram muito atrás de nós, temos sido incapazes de prever e de combater as diferentes crises que outros povos vão vencendo antes e melhor do que nós, mas temos esta imensa capacidade de acreditar nas manhãs que cantam. Sendo que, modernamente, essas manhãs sugerem que podemos todos viver à conta do Estado, a exemplo da grande família socialista.

Presentemente, temos o Qatar e o campeonato mundial de futebol para nos encher o peito de glória, por força do uso das qualidades que transportamos connosco desde há séculos, capazes de ganhar muito por inspiração e muito pouco pela organização. O mesmo acontece no Serviço Nacional de Saúde, na economia, na Justiça, ou na gestão dos rios de dinheiro que outros povos europeus, mais organizados do que nós, nos enviam na expectativa de nos ajudarem. Infelizmente, apenas caímos no logro de acreditar que podemos ser ajudados sem o nosso esforço e sem o uso das nossas competências de trabalho, de sacrifício e com a mesma criatividade que usamos no futebol. Pior, somos vítimas contentes da manipulação e da desinformação aceites contra todas as evidências.

Esta semana tivemos mais uma desgraça que chegou dos céus e o bom povo lisboeta, que ficou mais pobre sem as suas lojas, os seus mercados, as suas casas e os seus carros, acredita que se tratou de um desígnio dos deuses sob a forma das modernas transformações climáticas, apesar da evidência de que o mesmo aconteceu no passado vezes sem conta e que o problema resulta do urbanismo caótico permitido pela corrupção autárquica e governamental e pela ausência das soluções já previstas pelos técnicos há mais de trinta anos e nunca concretizadas. Sobre este tema recomendo a leitura da última página do “Público”, onde uma senhora, de seu nome Carmo Afonso, engana semanalmente os leitores daquele diário com doses massivas de ideologia, além de inverdades óbvias. Por exemplo, esta semana conseguiu transformar em heróis António Costa e Fernando Medina que, ao longo dos anos, apenas fizeram anúncios de soluções gloriosas contra as cheias, como aliás é o seu hábito, ao mesmo tempo que menoriza a acção do actual Presidente da autarquia Carlos Moedas, cuja gestão, finalmente, colocou o plano no terreno. Trata-se do modelo habitual do uso de diversas crenças ideológicas na criação das mais diversas falsidades e de falsos heróis, a fim de melhorar a vidinha da grande família socialista e dos bem pagos cronistas que a mantêm no poder.

Para resolver na opinião pública o escândalo das cheias, já estão a ser anunciadas as habituais ajudas do Estado, apesar de todos termos a obrigação de saber que em função da enormidade dos prejuízos se trata apenas de mais uma campanha de enganos do mais pesaroso governo da história de Portugal. Trata-se da mera repetição dos prometidos apoios do Estado aquando dos fogos de 2017, que, sabemos hoje, acabaram em tribunal na tentativa, certamente falhada, de condenar o roubo dos dinheiros de tão voluntariosos apoios. Agora, mais uma vez, o bom povo espera o milagre de que desta vez é que vai ser.

De facto, os casos de aproveitamento dos dinheiros públicos sugados por membros da grande família socialista não param de crescer. Esta semana foi o caso do actual
ministro dos Negócios Estrangeiros e anterior ministro da Defesa que deu cobertura a mais um negócio de contratos feitos por ajuste directo, que é a forma habitual de roubar o Estado, neste caso à custa de uma obra orçamentada em cerca de 750.000 euros e que afinal custou mais de três milhões. Previsivelmente, o ministro João Gomes Cravinho não viu nada de mal nos contratos feitos e, no fim, limitou-se, de acordo com a fórmula usada habitualmente, a entregar o assunto à justiça e de mudar de “job” o esforçado servidor, já que os normais serviços do ministério são, por definição, irresponsáveis para verificar as suas próprias contas.

Outro caso da semana, este a céu aberto, trata a vergonha das três mais importantes figuras do Estado, Presidente da República, primeiro-ministro e Presidente da Assembleia da República, que não tiveram o pudor mínimo de irem assistir aos jogos da equipa portuguesa no Qatar, usando para isso o “Falcon” da Força Aérea, que assim deixou de estar disponível para o seu verdadeiro serviço público. Algo que seria impensável em qualquer verdadeira democracia europeia, transforma-se em Portugal numa decisão habitual, dependente apenas dos humores de cada um dos membros da hierarquia política que transformam uma ida ao futebol numa função do Estado. De facto, comportam-se como os donos disto tudo, na certeza de que o bom povo que paga a conta é facilmente enganado com as diversas ladainhas do costume.

Neste contexto é bom não esquecer que todos os serviços do Estado são dominados pela família socialista, que ao longo dos últimos quase trinta anos foi colocando os seus membros em tudo que é serviço público, como na economia, ou em todas as instituições que dependam, directa ou indirectamente, do Estado. Mesmo os deputados supostamente eleitos para a Assembleia da República são escolhidos, um a um, para o serviço da família pelo chefe do partido. Sendo que alguém que tenha a veleidade de pensar pela sua cabeça sabe que não será reeleito.

De acordo com esta evolução do nosso regime político, a primeira vítima foi a própria democracia. Seja porque metade dos portugueses deixaram de votar ou emigram e a maioria dos que ficam aprendeu ao longo dos anos que a sua experiência de vida ou profissional nunca poderá ser colocada ao serviço do país. Por exemplo, tivemos recentemente o caso de alguns dos nossos melhores especialistas do sector energético e professores do IST a serem acusados de ignorância por um secretário de Estado que chegou ao Governo por berrar asneiras no Parlamento mais alto do que a maioria. Mas não só, dois secretários de Estado mais sérios, e que viram o filme dos interesses em presença no sector energético, foram rapidamente postos na rua. O Governo socialista não brinca em serviço quando se trata dos interesses dos seus membros, ou de alguns amigos agradecidos.

No Portugal de hoje, supostamente democrático, a grande e poderosa família socialista pode fazer quase tudo sem oposição, não tanto por força da maioria absoluta que serve de garantia para mais quatro anos no poder, mas devido à máquina do Estado dominada pelo partido. Ultimamente, chegou-se ao ponto de qualquer cidadão não poder entrar livremente em vários dos serviços do Estado, necessitando para isso de se inscrever. O ponto aqui é que os serviços do Estado já não podem ser incomodados, os cidadãos têm apenas de pagar a conta. O caso da ministra Vieira da Silva é exemplar: escolheu quem quis, paga-lhe o que quiser e fim da história, nada a fazer. Para o caso de ainda não saberem, isto é ser português em 2022 e previsivelmente, com a protecção do Presidente da República, até, pelo menos, 2026.