Tarrafal: uma história mal contada

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O PCP gosta de usar o Tarrafal como quem usa uma flor na lapela, fazendo crer aos mais distraídos e mal informados que os militantes comunistas teriam sido os únicos a ser encarcerados naquela colónia penal de Cabo Verde. Nada podia ser mais enganador: pelo Campo do Tarrafal passaram comunistas, sim, mas também anarquistas, anarco-sindicalistas, nacional-sindicalistas, integralistas e até condenados de delito comum. Recordemos aqueles que o PCP gostaria de esquecer.

A Colónia Penal do Tarrafal foi inaugurada em Outubro de 1936, com uma primeira leva de 152 presos. Três meses antes rebentara a Guerra Civil em Espanha, opondo os nacionalistas do General Francisco Franco às forças de esquerda fiéis ao Governo republicano-socialista de Manuel Azaña. Do lado de cá da fronteira, receoso de uma “contaminação esquerdista”, o Estado Novo reforçara as medidas de repressão política e exigia à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, antecessora da PIDE) uma atenção redobrada às actividades da oposição clandestina.

Grande parte dos presos da primeira leva do Tarrafal haviam sido condenados em dois processos históricos: o “soviete da Marinha Grande” e a “revolta dos marinheiros”. Recordar estes dois casos ajudará a reconstituir o ambiente político radicalizado que então se vivia em Portugal.

Em Janeiro de 1934, a rede clandestina anarco-sindicalista empreendeu uma revolta de grandes dimensões contra os “sindicatos verticais” instituídos pela Constituição de 1933: no regime teoricamente corporativo do Estado Novo, estas passavam a ser as únicas organizações sindicais autorizadas, extinguindo-se os velhos sindicatos “de classe” dominados pelos anarco-sindicalistas, que assim se viam privados do seu principal instrumento de acção. Não tinham ainda chegado os tempos em que os comunistas se haveriam de arrogar a “vanguarda” da classe operária…

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