Tiago Mayan Gonçalves (IL): “Marcelo foi um instrumento ao serviço de Costa”

“Sempre que vimos Marcelo Rebelo de Sousa mexer-se muito activamente ou a produzir declarações, foram constantemente no sentido de gerar desculpas para a acção ou inacção do Governo, dizendo que ‘nada mais poderia ser feito’, ‘vai ficar tudo bem’, que tínhamos ‘um milagre português’, ou a anunciar jogos de futebol com pompa e circunstância enquanto nos fechavam corredores aéreos – refere a O DIABO Tiago Mayan, advogado de 43 anos, candidato a Belém com o apoio expresso do Iniciativa Liberal.

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Referiu recentemente que “os portugueses tiveram um Presidente empenhado em disfarçar os piores momentos da governação socialista”. Quer dar exemplos?

Exemplos não faltam. Desde os incêndios em Pedrógão, e em geral todas as épocas de incêndios; a novela político-militar de Tancos; a degradação geral dos serviços públicos por efeito das cativações, com listas de espera e cancelamentos na saúde já antes da pandemia; tribunais entupidos; repartições e escolas sem condições mínimas; a gestão em contexto de pandemia, nomeadamente quanto ao desconfinamento; a tragédia do lar em Reguengos de Monsaraz e outros lares. O que não falta mesmo são exemplos. Em todos esses momentos Marcelo Rebelo de Sousa, por acção ou omissão, foi claramente um instrumento ao serviço de António Costa para desculpabilizar, distrair, ou ser o núncio das narrativas do Governo.

Acusa Marcelo Rebelo de Sousa de ser o “carro-vassoura” dos erros do Governo. Não é uma afirmação demasiado dura?

Dura ou não, penso que é uma afirmação precisa. No meu discurso ouvirão sempre as palavras certas, não as palavras confortáveis. Como referi, sempre que vimos Marcelo Rebelo de Sousa mexer-se muito activamente ou a produzir declarações, foram constantemente no sentido de gerar desculpas para a acção ou inacção do Governo, dizendo que “nada mais poderia ser feito”, “vai ficar tudo bem”, que tínhamos “um milagre português”, ou a anunciar jogos de futebol com pompa e circunstância enquanto nos fechavam corredores aéreos.

Chama ao actual Presidente “Marcelo, o apurador”. A que se refere?

À total inconsequência das palavras de Marcelo Rebelo de Sousa. Em todos os casos que criam momentos mediáticos, como Pedrógão, Tancos, BES/Novo Banco, Galpgate, CGD, lar de Reguengos de Monsaraz, lá vem o Presidente dizer que “é importante apurar tudo até ao fim”. Mas mal se desligam as câmaras, essas palavras esfumam-se. Marcelo Rebelo de Sousa vai a banhos e deixa tudo para trás, até ao próximo momento mediático.

Chamou PSb ao PSD, pela não oposição e até negociação de algumas medidas controversas. Promete mais liberdade para os portugueses, no caso de ser eleito. Como se insere essa promessa nos poderes constitucionais do PR?

Um presidente deve assumir a defesa da soberania e liberdade do cidadão como o foco constante de toda a sua acção. Isso reflectir-se-á no exercício dos poderes presidenciais, seja os de veto, seja o de nomeação de titulares de órgãos de soberania ou outras entidades, como no Governo ou na Procuradoria-Geral da República, seja o chamado “magistério de influência”. Aliás, o Primeiro-Ministro, António Costa, reconhece o poder da palavra do Presidente, já que está sempre a usá-la em seu benefício próprio. Um Presidente deve usar esse poder em benefício do cidadão. É o que pretendo fazer.

Já tem o número mínimo de 7.500 assinaturas para se candidatar?

O processo está bem encaminhado. Desde o anúncio da candidatura que decorrem vários eventos e acções, muitas onde estive ou estarei presente, por todo o País com o objectivo de recolha de assinaturas e proximidade, dentro das limitações que existem devido à pandemia, com a população. Para além das assinaturas recolhidas pelos Núcleos e membros da Iniciativa Liberal, chegam todos os dias por e-mail ou por correio assinaturas de cidadãos.

No início de Agosto, uma sondagem da Universidade Católica mostrava que a Iniciativa Liberal e o Chega vieram para ficar. Acredita que a IL está a capitalizar votos no eleitorado tradicionalmente do PSD e CDS, mas também nos votos em branco e na abstenção?

Há um grande espaço eleitoral, de pessoas que não se revêem nas décadas de governação socialista e em quem foi colaboracionista com essa linha, como o actual PR, mas também não se revêem em propostas populistas de esquerda ou direita. A Iniciativa Liberal tem a alternativa para essas pessoas, e esta candidatura presidencial é também essa alternativa. É, portanto, natural que isso se reflicta em votos provindos de eleitorado tradicional do PSD, do CDS e também de quem já há muitos anos não via alternativas e por isso votava em branco ou não votava. E depois temos tido uma enorme adesão por parte dos mais jovens, um sinal de que a nossa mensagem apela especialmente àqueles que sentem na pele a falta de oportunidades que têm no País que é o seu.

O Porto quer ser a ‘capital’ dos liberais, mas acabou por ser Lisboa a eleger um deputado do IL nas legislativas. O que aconteceu?

A IL elegeu um deputado no maior aglomerado urbano do País, o que é coerente com o seu eleitorado, que é manifestamente mais urbano. E também a grande maioria dos votos na Iniciativa Liberal acabaram por ficar “desperdiçados” por efeito de um sistema eleitoral que está concebido para manter um oligopólio de partidos incumbentes. De qualquer forma, no Porto ficou-se muito perto de eleger, mais perto do que qualquer outro partido que não elegeu nesse círculo. Estou certo de que o Porto terá o seu deputado liberal, ou até mais do que um, nas próximas eleições.

Diz que “manifestamente o que move Marcelo Rebelo de Sousa é um interesse pessoal claro de ser reeleito e de ser reeleito com muitos votos. O sonho é ser o mais votado de sempre. Este é um interesse pessoal que, penso, Marcelo esconde mal”. E qual é o seu interesse pessoal em ser Presidente da República?

É contribuir para um Portugal mais liberal. O que seria bom para Portugal. Isto não é “achismo”. A prova de que a implementação de políticas mais liberais contribui para um País mais próspero, mais justo e mais livre está aqui ao lado, em todos os países europeus que saíram de ditaduras comunistas e em alguns anos nos ultrapassaram no desenvolvimento humano, social e económico.

No nosso quadro constitucional o que pode o PR fazer para exigir ética aos governos?

Ética significa três coisas: verdade no discurso, rectidão na decisão, coragem na acção. Tudo isto faltou em Marcelo Rebelo de Sousa. Um PR não pode ser o núncio das narrativas do Governo, nem proclamar que “ninguém vos vai mentir, isto o Presidente vos garante” e depois não ser consequente com essas palavras. Um PR tem de ser uma voz activa a falar a verdade, nem que seja como contraponto às versões oficiais do Governo. Um PR não pode compactuar com a criação de regras e imposições aos cidadãos, enquanto se criam excepções para o sistema político e para as suas clientelas. Não pode haver um país e dois sistemas. Marcelo criou a excepção para o 1.º de Maio, por exemplo, e depois veio dizer que não estava à espera de que aquilo acontecesse. As regras do jogo são para cumprir por todos; um Estado que cria regras para os cidadãos, mas não as cumpre, não tem autoridade, seja quanto a limpar terrenos ou a pagar as suas dívidas, por exemplo. Finalmente, um PR não pode desaparecer nos momentos difíceis. Com Marcelo, vimos isso acontecer em Tancos e no início da pandemia, por exemplo. Um PR tem de comparecer, assumir e exigir responsabilidades, ser decisivo na sua acção.

O que é um candidato que vai do Porto para o país?

Há 200 anos do Porto saiu para o País uma Revolução Liberal que criou as bases do nosso Estado moderno. Os princípios liberais que damos, agora, por garantidos foram finalmente postos em prática: soberania do cidadão, igualdade perante a lei, separação de poderes, pluralismo político, liberdade de expressão. Mas nada é garantido e, portanto, enquanto candidato e enquanto Presidente, caso os Portugueses me queiram eleger, irei manter a defesa intransigente desses princípios. E já vemos sinais preocupantes de ataques a esses princípios, com um Governo a limitar a capacidade de escrutínio da AR (fim dos debates quinzenais) ou a designar os seus homens de mão e a ter intervenções na actividade de entidades de supervisão e regulação, como no Banco de Portugal. Ou então, quando vemos tentativas de controlo do espaço mediático ou sugestões de “monitorização” de discurso.

Vai ser um Presidente regional?

Vou ser um Presidente de todos os Portugueses, dentro e fora de Portugal. Reconhecendo-os na sua individualidade e assegurando que a bolha do sistema político-partidário centralizada no Terreiro do Paço não lhes atrapalha a vida. Todos os cidadãos, morem no Porto, em Porto Côvo, Porto Salvo ou Porto Santo, são vítimas de más decisões e intervenções abusivas dessa bolha centralizada de incumbentes e das suas clientelas. ■