Um zero à esquerda

O ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, e o seu colega Eduardo Cabrita, da Administração Interna, conseguiram ficar (por enquanto) no Governo. Mas foram humilhados por António Costa e perderam toda a autoridade. Uma vergonha.

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O caso do arrogante e impetuoso Pedro Nuno Santos não era difícil de prever. Desde que António Costa o promoveu a ministro das Infraestruturas, com poder sobre um número considerável de ‘dossiers’ quentes e de grande relevância nacional, tornara-se claro que a intenção era anular ou refrear as suas ambições políticas: os ‘dossiers’ quentes haveriam de queimá-lo a fogo lento – e o golpe fatal seria auto-infligido pela sua conhecida vaidade, parente próxima da imprudência. Com Pedro Nuno Santos ferido na sua corrida precipitada à liderança do PS, o caminho ficaria mais livre para o verdadeiro protegido de Costa: o dócil e maleável Fernando Medina, um verdadeiro ‘yes man’ para todo o serviço.

Como se esperava, foi no ‘dossier TAP’ que Pedro Nuno Santos se estendeu ao comprido. Primeiro, incompatibilizou-se com a gestão privada da empresa, pensando que com isso ficaria no retrato como grande homem de esquerda – uma megalomania suicidária que o acompanha desde capataz da Juventude Socialista. Entendeu depois que o melhor, mesmo, era estatizar a TAP, à maneira colectivista do PREC. A extrema-esquerda parecia apoiá-lo e Costa deu-lhe corda, para que melhor pudesse estatelar-se. 

Finalmente patrão da companhia aérea portuguesa, Pedro Nuno Santos descobriu então que acabara de adquirir um pesadelo. O “buraco” financeiro da empresa requeria medidas extremas e estas só poderiam ser aplicadas com o aval da Comissão Europeia. O “plano de reestruturação” da TAP gizado no gabinete do azougado ministro é, como não podia deixar de ser, um tratado de frieza capitalista, uma negação gritante do seu apregoado “socialismo de esquerda”: redução implacável de benefícios sociais, despedimento de duas a três mil pessoas, vacas magras voando nos paraísos artificiais do extremismo. No Parlamento, o ministro teve mesmo de engolir em seco quando lhe chamaram “neoliberal”. Só faltou apodarem-no de fascista.

Foi então que Pedro Nuno Santos deu o passo em falso que Costa aguardava: sem consultar o chefe, congeminou levar o “plano de reestruturação” à Assembleia da República e obrigar os partidos a aprová-lo ou a chumbá-lo – comprometendo-os dessa forma na sua política desastrosa e fazendo deles cúmplices de medidas draconianas ou da falência da empresa. Finório, fez chegar a sua intenção ao alcoviteiro-mor do reino, Luís Marques Mendes, que logo se desbocou do “segredo” no seu comentário televisivo de Domingo. E foi assim que tudo começou a desabar à volta do homem que anda há anos a sonhar com a liderança do PS.

A extrema-esquerda, que ele supunha embeiçada pelo seu esquerdismo de trazer por casa, descartou imediatamente a loucura de ficar com as culpas de uma política tão mal enjorcada. E António Costa, depois de o ver estatelado no chão do hemiciclo e acossado de todos os lados, veio lavar as mãos de qualquer responsabilidade no caso afirmando que não fazia o menor sentido levar à aprovação do Parlamento um plano que era da exclusiva responsabilidade “do Governo”. Quer dizer, de Pedro Nuno Santos. E o mesmo disseram a número dois de Costa no PS, Ana Catarina Mendes, e o próprio arauto do plano falhado, Luís Marques Mendes.

Isolado, desamparado, desautorizado e humilhado pela corporação política (e, acima de tudo, pelo líder socialista) na praça pública, o ambicioso aprendiz de político de São João da Madeira teve de enfiar a viola no saco e admitir a derrota. Terá agora de carregar sozinho a cruz que ele, numa bravata tola, tinha reclamado como troféu. ■