Vacina portuguesa parada por falta de 20 milhões

Há muito dinheiro, proveniente dos contribuintes, canalizado para cobrirmos tanta cleptomania política e corporativa, mas não o há para investir no que nos promove e aumenta em prestígio, qualidade de vida e rendimentos. A inércia deste Governo é esclarecedora.

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É do conhecimento geral a existência de uma empresa portuguesa de biotecnologia, a Immunethep, empenhada na investigação de imunoterapias, sendo o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a covid-19 a sua faceta mais divulgada.

Em traços gerais, já em meados de 2021 a biotecnológica nacional terminara os ensaios não clínicos da vacina, declarando resultados de “elevada segurança e eficácia” em ratos transgénicos infectados com dose letal de SARS-CoV-2, com uma taxa de sobrevivência de 100% e sem efeitos adversos.

No comunicado enviado à agência Lusa, Bruno Santos, co-fundador e director executivo da empresa, salientava: “A realização deste projeto em Portugal permite o desenvolvimento de competências únicas à escala global no desenvolvimento de vacinas e outros produtos biológicos”.

Após o sucesso desta fase de desenvolvimento da vacina, Bruno Santos apelou ao apoio das entidades governamentais portuguesas para que fosse possível avançar para os ensaios clínicos, a tempo de obtermos uma vacina concorrente (e provavelmente mais eficaz) com as que já estavam a ser aplicadas, contribuindo assim para pôr fim à pandemia.

Mais de seis meses passados da conclusão dos ensaios não clínicos, a falta de financiamento impede a empresa de desenvolver os ensaios clínicos (a sua disponibilidade para os iniciar é total desde Setembro de 2021). Para Bruno Santos, a “compra antecipada de vacinas, tal como foi feito nos Estados Unidos e na Alemanha”, seria a forma mais expedita de financiamento, podendo assim avançar com o correspondente pedido de autorização ao Infarmed. Saliente-se que todas as vacinas existentes no mercado beneficiaram de apoio estatal.

Os atrasos conduzem frequentemente à perda de oportunidade. No entanto, apesar da alta taxa de vacinação nos países ocidentais, a vacina portuguesa, com as características que possui, pode ser ainda muito válida. Se não, vejamos: não precisa de uma cadeia de frio para a sua conservação e transporte; tomada por inalação, não carece de pessoal especializado para administrá-la; utilizando o vírus inactivado, responde melhor às variantes, mantendo-se por isso útil quer para os países desenvolvidos quer para os menos desenvolvidos.

A Immunethep é uma empresa muitíssimo credível _ tem parceria com a gigante farmacêutica Merck Sharp & Dohme (MSD) desde 2015, obteve financiamento da Portugal Ventures, ainda que insuficiente para o que se propõe alcançar _ e com provas dadas: “O seu primeiro produto, a vacina PNV1 – Paragong Novel Vaccine, é uma estratégia preventiva que irá proporcionar uma proteção robusta contra as principais infeções bacterianas fatais. A PNV1 será a primeira vacina capaz de prevenir infeções multi-bacterianas de todos os seus sorotipos, desde o ventre à terceira idade”, pode ler-se na página electrónica da Portugal Ventures sobre a Immunethep, empresa do seu portefólio de investimentos.

Para continuar o propósito de criar uma vacina para a covid-19, a Immunethep necessita de, pelo menos, 20 milhões de euros. A biotecnológica candidatou-se a fundos europeus, por sugestão do Governo português (Portugal 2020 e Plano de Recuperação e Resiliência), que “são bastante burocráticos, com um processo de aprovação bastante demorado e que acaba por não ser compatível com uma resposta necessária a uma pandemia”, declarou o seu responsável à Lusa. Caso obtenha financiamento a 80%, possui investidores interessados em suprir os restantes 20%, segundo Bruno Santos, que não disfarça a decepção de ver um projecto tão válido suspenso por insuficiência de financiamento.

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Esperemos que o chamado “mundo ocidental”, com suas redes de interesses e de obstáculos, não venha a arrepender-se amargamente se surgirem novas e mais letais variantes em zonas geográficas com menor taxa de vacinação, nomeadamente na África ou na Ásia, e se se espalharem pelos países desenvolvidos, com consequências terríveis para todos.

Nesta “geopolítica vacinal”, países com potencial, mas com dificuldade de adquirirem doses de vacinas em número suficiente num mercado fortemente concorrencial, especulativo, distópico e geopoliticamente comprometido, estão a ser “ajudados” pela China e pela Rússia na obtenção de uma eficaz cobertura vacinal das suas populações. Marrocos, com a instalação de uma fábrica chinesa de produção de vacinas, ou a Argentina, com a vacinação assegurada pela distribuição da russa Sputnik V, muito eficaz segundo declarações de responsáveis argentinos, são exemplos de nada desinteressadas movimentações políticas dos países fornecedores.

A desigual distribuição de vacinas patente na relação Norte/Sul significa também o descomprometimento moral dos ricos para com os pobres (vd. www.spncultura.org> Vacina anti-Covid…, L. Grzybowski. Consult. 10 Fev. 2022): “Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mateus 25,29).

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O que se salientou relativamente à Immunethep e ao ponto da situação do desenvolvimento da sua vacina é factual, tem vindo a ser divulgado pela comunicação social e é do conhecimento directo do Governo português. Não se tratou de redigir um panegírico a esta empresa portuguesa, pois outras há na mesma área de actividade merecedoras de crédito (polissémica palavra!), ainda que desconhecidas e tantas vezes com o seu mérito pouco reconhecido. Foi, sim, um acto de elementar agradecimento pelo seu esforço e pelos resultados já conseguidos, seguido do desencanto pesaroso por não haver a vontade política de abraçar um projecto que deveria ser um desígnio nacional, considerada a desgraça imposta pela pandemia.

Há muito dinheiro, proveniente dos contribuintes, canalizado para cobrirmos tanta cleptomania política e corporativa, como os desmandos criminosos de banqueiros que agora padecem de súbitos lapsos de memória, quando não de doença de Alzheimer (certo banqueiro não saberá do que sofre…porque não se lembra!), e que não se envergonham de viver em modo de continuadas férias principescas, em Portugal e no estrangeiro, mas não o há para investir, porque é disso que se trata, no que nos promove e aumenta em prestígio, qualidade de vida e certamente em rendimentos provenientes da comercialização dessa vacina.

A inércia deste Governo, aparentemente comprometida, que lhe devia causar embaraço, é esclarecedora. ■