Vera Lagoa, um Diabo de saias

O DIABO nasceu em pleno período de convulsão que se seguiu à revolução do 25 de Abril. No dia em que foi publicado o primeiro número, 10 de Fevereiro de 1976, preparava-se a aprovação da primeira Constituição do novo regime e Francisco Costa Gomes era Presidente da República, por nomeação da Junta de Salvação Nacional. O general Ramalho Eanes seria eleito em Junho desse ano. Comemorar os 45 anos d’O DIABO é também evocar a sua criadora. Fundado por Vera Lagoa, o jornal é desde a sua fundação a voz da Direita, um resistente na imprensa nacional, polémico, defensor intrépido da liberdade de imprensa, sem filtro censório nos artigos e na opinião.

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Maria Armanda Pires Falcão, mais conhecida pelo pseudónimo Vera Lagoa, foi uma das mulheres mais carismáticas e influentes da sua geração. Nascida na Ilha de Moçambique, a 25 de Dezembro de 1917, foi pioneira em muitas áreas, cumprindo carreira como cronista, jornalista e empresária. Quando fundou o jornal O DIABO, em 1976, era já uma figura nacional, conhecida da imprensa e do meio político e social. 

Em 1954 tornou-se a primeira locutora de televisão do país, ao apresentar a transmissão experimental da RTP. Finda a sua breve carreira enquanto locutora, ingressou no jornal vespertino ‘Diário Popular’, onde manteve a famosa crónica social “Bisbilhotices”, que oferecia um retrato mordaz da sociedade portuguesa. Para o seu sucesso muito contribuíram as suas relações com a elite cultural e política nacional, que então atravessava todos os quadrantes ideológicos.

Durante o Estado Novo foi marcadamente de esquerda, ajudando presos políticos com dinheiro e víveres, acolhendo-os em sua casa quando eram libertados, e apoiando, em 1958, a candidatura presidencial de Humberto Delgado, chegando a ser a sua secretária. Chocou o Estado Novo ao apoiar abertamente o “General sem medo” e, após o 25 de Abril, chocou o novo regime ao combater os militares revolucionários. 

Muitos dissabores

A situação familiar em que cresceu foi fundamental para a sua formação política. Seu pai, Armando Augusto Pires Falcão, oficial do Exército proeminente na I República e depois forte opositor do regime de Salazar, foi preso diversas vezes e deportado. Acabou por ser expulso do Exército, ocupava na altura o posto de major, e só foi reintegrado postumamente no posto de coronel depois da revolução do 25 de Abril. Entre as prisões e a deportação, a família vivia com muitas dificuldades económicas, o que levou Maria Armanda a iniciar muito jovem a sua vida profissional como secretária. Foi prejudicada nos estudos também devido à precária situação familiar, apenas cumprindo a escolaridade até à 4ª classe da instrução primária. Era uma menina nascida numa família privilegiada da I República, que as vicissitudes da política haviam privado de uma educação formal completa. Com a sua carismática determinação, superou tudo isso estudando por si e, com a ajuda do seu cada vez mais vasto círculo de amigos, tornou-se uma autodidacta de rara cultura. 

Após o 25 de Abril, apegada a uma velha amizade com Maria Barroso e Mário Soares, militou fugazmente no Partido Socialista, no período em que este se fez campeão da luta contra as ambições tentaculares do radicalismo esquerdista. Mas os excessos, as perseguições e o que observava de hipocrisia na metamorfose de antigos apoiantes do Estado Novo em fervorosos extremistas de esquerda levaram-na a travar um combate sem tréguas e a encabeçar as primeiras reacções públicas contra os comunistas. 

Vera Lagoa foi também a promotora das manifestações anuais patrióticas do feriado de 1 de Dezembro, evocativo da Restauração de 1640. Todos os anos, nessa data, organizava uma manifestação na Avenida da Liberdade, feito que era atacado violentamente por toda a esquerda. A manifestação do 1º de Dezembro de1977 juntou 150 mil pessoas na capital, número extraordinário numa época em que a esquerda se considerava “dona da rua”.

A sua coragem e a sua frontalidade tornaram-se lendárias. A antiga amizade não a impediu de enfrentar Mário Soares e o vergonhoso processo da descolonização. O seu respeito pela economia de mercado e pelos empresários não a inibiu de denunciar Américo Amorim e os seus negócios de cortiça com os comunistas que tinham ocupado as herdades no Alentejo. A sua admiração de família pelos militares não a tolheu quando foi preciso atacar Ramalho Eanes pelas suas atitudes políticas ambíguas, por ser apoiado pelos comunistas e por desejar perpetuar o poder do Conselho da Revolução. Tomadas de posição que lhe trouxeram muitos dissabores.

Finalmente, um jornal seu

No editorial na primeira edição do jornal O DIABO, já consagrada como Vera Lagoa, Maria Armanda Falcão escrevia: “Assim começou ‘O Diabo’, no Porto, em 1895. Assim começo eu, em Lisboa, em 1976. Muita água correu sob as pontes até que fosse permitido a uma mulher dirigir ‘O Diabo’. Até que fosse permitido a uma mulher como eu, sem passado literário (apenas com um passado de luta), dirigir um jornal de combate e de cultura. Para o combate, aqui estou eu. Para a cultura (além do combate, também, evidentemente) aqui está quem neste jornal escreve”.

Nunca se calando sobre o que observava e o que defendia, e, acima de tudo, com uma coragem invulgar naqueles tempos conturbados, antes e após a revolução, entrou em choque também muitas vezes na vida profissional. Na RTP, fora dispensada da função de locutora por “excesso de personalidade”. Sendo agnóstica, no final das emissões, recusava-se a finalizar a transmissão com a frase “Até amanhã, se Deus quiser”. No ‘Diário Popular’ foi vítima constante de censura por parte da administração e bateu com a porta de relações cortadas com Francisco Pinto Balsemão. Passou pelo jornal ‘O País’, dirigido por José Vacondeus, e colaborou na fundação do semanário ‘Tempo’, de Nuno Rocha. Mas faltava-lhe o ar da liberdade: os seus artigos, tal como os de Manuel de Portugal, Carlos Viveiros ou Fernanda Leitão, avidamente lidos por todos os que se opunham à revolução comunista, eram muitas vezes incómodos para os jornais que os acolhiam. Surgiam pressões para que Vera Lagoa “moderasse” os “excessos” contra o PREC. Chegaram a censurar-lhe parágrafos. Decididamente, Maria Armanda ansiava por ter um jornal onde pudesse escrever sem limitações. O seu jornal.

O actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, declarou ao jornal ‘Público’ em 2006, quando O DIABO completou 30 anos, que o projecto foi marcado, mais do que por uma orientação política, pela “personalidade ímpar de Vera Lagoa, uma mulher vinda da esquerda e que se tornou uma das referências da direita, nomeadamente aquela mais combativa, num tempo em que não havia direita em Portugal”.

“O senhor é muito feio!”

O semanário O DIABO, fundado originalmente em 1895, tivera uma famosa segunda série entre 1934 e 1940 como jornal profundamente anti-salazarista, em que haviam colaborado figuras da oposição como Ferreira de Castro, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys ou João de Barros, e até comunistas assumidos como Bento de Jesus Caraça, Fernando Lopes Graça e Álvaro Cunhal. Em Fevereiro de 1976, o título renascia (com um inconfundível toque de provocação aos comunistas), agora sob a orientação de Maria Armanda. 

Com o editorial “O senhor Gomes de Chaves”, publicado logo no segundo número do jornal, Vera Lagoa tornou-se a primeira jornalista processada por um Presidente da República, o general Costa Gomes. A frase “Não gosto de si. O senhor é muito feio!” rematava o editorial. Com assinalável falta de encaixe democrático, tão típica daqueles tempos revolucionários, o visado queixou-se do ataque e O DIABO foi suspenso pelo Conselho da Revolução duas semanas depois de ter chegado às bancas.

Inconformada e indomada, Vera Lagoa contorna o percalço criando um novo semanário. Nascia assim ‘O Sol’, mantendo a mesma linha editorial. Em Setembro de 1976, com o artigo de opinião “Sr. Presidente, perdi-lhe o respeito”, em que chama “rolha” a Costa Gomes, o Conselho de Revolução volta à carga e aprova por unanimidade a sua detenção por “acção ofensiva e contra-revolucionária na pessoa do Presidente da República”. Acaba por ser graças a Otelo Saraiva de Carvalho, que intervém no processo, que a decisão do Conselho da Revolução não foi cumprida. 

Atentado à bomba

Após uma primeira edição de 130 mil exemplares, que esgotou numa manhã nas bancas, o jornal ‘O Sol’ sofreu um atentado: no dia 8 de Março de 1976, uma bomba rebentava na Redacção do mais incómodo dos jornais portugueses. O petardo foi detonado às 13h10, quando ali se encontravam a directora, o sub-chefe de redacção e duas secretárias. Felizmente sem nenhuma vítima mortal, não restou dúvida de que o engenho tinha sido colocado para matar. Ao lado da porta de entrada na Redacção, onde a bomba rebentou, estava a mesa do paquete do jornal, um rapaz de apenas 14 anos que não morreu porque tinha saído para almoçar uns minutos antes da explosão. O atentado deixou, no entanto, graves sequelas: Maria Armanda sofreu, desde então, de insuficiência cardíaca – da qual haveria de falecer, vinte anos mais tarde.

Logo no editorial da segunda edição, Vera Lagoa contra-ataca com a arma que tem, a pena, declarando que “O Sol não se apaga com petardos”. E desafia: “Comecem a preparar mais bombas e comprem fita-cola para as fixar na nossa porta. Terça-feira sai o número dois de O Sol”. O recado à esquerda estava dado. 

Com o incidente, inicia-se uma guerra aberta entre Vera Lagoa e Álvaro Cunhal, a quem a jornalista acusa num editorial de ser o autor moral do atentado. Os ataques do dirigente do PCP ao jornal são também constantes. A comunicação social, capturada pelo extremistas da esquerda, tenta ignorar o crime bombista e mal o noticia. Mas o Portugal profundo vive com emoção a luta de Vera Lagoa e do seu indómito jornal.

Chegava, entretanto, o momento de a jornalista se sentar no banco dos réus. O tiro dos revolucionários, contudo, saiu-lhes pela culatra: julgada no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa, sob acusação de injúrias, acabou absolvida. Um ano após a suspensão, O DIABO voltava a ser publicado a 16 de Fevereiro de 1977, e com isso extinguia-se ‘O Sol’, que com coragem o substituíra.

A voz da Direita

Com a esquerda a dominar ainda a generalidade da imprensa e os meios culturais e educacionais, os ataques a Vera Lagoa eram constantes. Sentindo-se abafar na capital “vermelha”, a directora decide transferir a Redacção do jornal para o Porto, onde o apoio de vários empresários e comerciantes ajudaram, através de publicidade, a manter o jornal em funcionamento naqueles tempos difíceis: numa economia dependente do Estado, fazer publicidade no jornal de Vera Lagoa era sinónimo de represália. 

O DIABO manteve a sua sede no Porto durante alguns anos, até que o desanuviamento do ambiente político permitiu o seu regresso à capital. Mas Maria Armada ficaria para sempre grata às gentes do Norte pelo apoio dado numa hora ingrata. E sempre que voltava ao Porto era vitoriada nas ruas pelo povo simples, que não esquecia a directora d’O DIABO.

Apesar de ataques e contratempos, as edições esgotavam nas bancas e chegaram a rondar os 100 mil exemplares vendidos. Ao longo dos anos, O DIABO foi muitas vezes a única voz de Direita a defender algumas causas e a publicar sem medo de consequências. As vítimas da descolonização e os injustiçados do PREC, como a prisioneira Antónia Ramalho, mãe de António Ramalho Fialho, o homem assassinado a tiros de G3 por militares comunistas às portas do RALIS, em 1975, e a defesa da tese de atentado na queda do Cessna que vitimou Francisco Sá Carneiro, foram alguns dos temas polémicos com que O DIABO marcou a agenda política nacional. 

A lista de jornalistas e articulistas que passaram por esta casa é infindável: Natália Correia, José Miguel Júdice, Nuno Rogeiro, Alberto João Jardim, entre dezenas e dezenas de outros. Sob o pseudónimo de Agapito Pinto, Marcelo Rebelo de Sousa assinou ao longo de vários anos uma das mais polémicas colunas políticas no jornal.

Mulher sem medo, Vera Lagoa conseguiu, contra obstáculos, ataques e muitos julgamentos, conduzir sempre o barco a bom porto e manter a publicação ininterrupta – uma autêntica proeza numa conjuntura extremamente hostil a tudo o que surgia da Direita. Para que alguns dos seus combates não se limitassem ao papel amarelecido dos jornais, reuniu-os em livros: para além do célebre “Bisbilhotices” (1968), Vera Lagoa deu ainda à estampa “Crónicas do Tempo” (1975), “Revolucionários que eu conheci” (1977), “A cambada” (1978) e “Eanes nunca mais!” (1980), hoje raridades de alfarrabista. 

Mais recentemente, Vera Lagoa foi retratada na série “3 Mulheres”, do realizador português Fernando Vendrell, pela actriz Maria João Bastos. A série, estreada na RTP em 2018, retrata também Snu Abecassis, editora e companheira de Francisco Sá Carneiro, e a poeta Natália Correia, contemporâneas e amigas próximas de Vera Lagoa. 

João Soares, na altura presidente da Câmara Municipal de Lisboa, decidiu postumamente dar o nome de Vera Lagoa a uma rua da freguesia de Benfica, em sua homenagem. A corajosa decisão foi muito contestada, demonstrando que a reacção da esquerda ao seu nome continuava viva.

Casou três vezes, deixou descendência: um filho e quatro netos. Vera Lagoa viria a falecer aos 78 anos, a 19 de Agosto de 1996 em Lisboa, de ataque cardíaco. Sem ela e a sua voz de contestação e coragem, Portugal seria muito mais cinzento. ■