A guerra do Hidrogénio

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A guerra está lançada. João Galamba, Secretário de Estado Adjunto e da Energia, diz que até 2030 o sector vai contar com 400 milhões de euros de financiamento, muito dele com apoio comunitário.

O manifesto “Tertúlia Energia”, assinado por diversas personalidades, reagiu de imediato e defende que a aposta do Governo no Hidrogénio Verde é um “erro” e que “aumenta os custos de produção”.

João Galamba respondeu no twitter de forma incisiva: “quando se perceber que só os fundos europeus e o BEI financiam aquilo que trinta personalidades consideram um erro e um delírio, e que haverá fortes penalizações para quem não cumprir essa agenda, gostaria imenso de perceber que novo manifesto vão escrever essas personalidades”.

Mas as coisas não são tão simples quanto o Secretário de Estado as pinta.

Plano de Energia

Na resolução, já publicada, que aprova o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC), o Governo enaltece as variáveis a ter em consideração na construção do modelo energético do futuro: redes inteligentes, sistemas de apoio à gestão, agregadores de produtores e/ou consumidores, contadores inteligentes bi-direccionais, sistemas de armazenamento, produção local de energia, consumidores activos, flexibilidade oferta/procura, veículo eléctrico, entre outros.
O Plano refere ainda que, no sector residencial (que é o que mais interessa às famílias), pretende “reforçar o conforto térmico” das habitações, tanto no aquecimento como no arrefecimento, privilegiando as soluções de isolamento e prosseguindo a tendência de electrificação do sector.

“Uma aposta continuada na reabilitação urbana conferirá a oportunidade para a incorporação de melhorias na eficiência energética e hídrica, para a incorporação de materiais de baixo carbono e fontes de energia renovável, contribuindo para o combate à pobreza energética”, defende o Executivo.

No sector dos serviços, refere que deve ser explorado “algum potencial que ainda existe” para aumentar a electrificação dos consumos, considerando “primordial” aumentar a eficiência energética dos equipamentos instalados e a utilização de fontes de energia renovável.

“Ainda ao nível das infra-estruturas, as interligações energéticas são essenciais para o desenvolvimento do mercado interno da energia, garantindo a segurança de abastecimento, melhorando o funcionamento dos sistemas energéticos, aumentando a concorrência e a estabilidade nos mercados da energia, promovendo a integração de mercados, maior justiça e equilíbrio na definição de custos e preços de energia e contribuindo para o cumprimento das metas energéticas, climáticas e concorrenciais a nível da União Europeia”, refere o diploma.

Do Gás ao Hidrogénio

Numa óptica de transição do sector energético, o Executivo considera que são as actuais infra-estruturas de recepção, armazenamento, transporte e distribuição de gás natural que vão desempenhar um importante papel ao permitir a introdução, distribuição e consumo de gases renováveis, em particular o Biometano e o Hidrogénio, nos vários sectores da economia, permitindo alcançar níveis mais elevados de incorporação de fontes renováveis no consumo final de energia.

E destaca a aposta, na próxima década, na produção e incorporação de gases renováveis, como os referidos Hidrogénio e Biometano, que promova uma substituição dos combustíveis fósseis “mais intensa” e reduza a dependência energética do país.

O Governo defende, no documento, a crescente importância dos gases renováveis, em particular do Hidrogénio, por permitir o armazenamento de energia e a preparação de outros combustíveis de base renovável, potenciando o cumprimento dos objectivos nacionais de incorporação de fontes renováveis no consumo final de energia e de descarbonização dos consumos, sobretudo mercadorias e ferrovia.

“Com este enquadramento, o Governo está a promover uma política industrial em torno do Hidrogénio e dos gases renováveis”, afirma, definindo assim as políticas públicas que orientam investimento público e privado em projectos de produção, armazenamento, transporte e consumo de gases renováveis em Portugal.

Por fim, enaltece as “condições muito favoráveis” do país para a instalação de uma indústria de produção de Hidrogénio Verde com potencial exportador, “sendo a principal vantagem os baixos custos” de produção de eletricidade de fonte renovável.

“O desenvolvimento de uma indústria de produção de Hidrogénio verde em Portugal tem potencial para dinamizar toda uma nova economia, aliada ao enorme potencial para a descarbonização de vários sectores”, conclui o documento.

“Graves
consequências”

O manifesto “Tertúlia Energia”, assinado por diversas personalidades, defende que a aposta do Governo no Hidrogénio é um “erro” e que “aumenta os custos de produção”, lê-se no documento divulgado aos Media.

“A eficiência energética da cascata do Hidrogénio é muito baixa, o seu manuseamento reveste-se de alta perigosidade, e a dependência destas tecnologias de metais preciosos (platina) torna problemática a sua massificação”, defendem os signatários do manifesto.

De acordo com o documento, a política energética nacional nem sempre seguiu o melhor caminho. “O maior erro foi a introdução de tecnologias ainda imaturas, como as eólicas em grande escala e a solar em menor escala, de forma maciça, sem criação de valor acrescentado nacional e emprego”, lê-se no documento.

“Infelizmente, a Estratégia Nacional para o Hidrogénio (EN-H2) mantém as graves consequências do regime da Produção em Regime Especial que apoiou precocemente tecnologias renováveis intermitentes e imaturas, continuando a apostar em tecnologias emergentes e muito arriscadas para armazenar electricidade à custa dos consumidores”, lamentam os signatários.


Hidrogénio Verde abre guerra com peritos

O manifesto do Movimento “Tertúlia Energia”, taxativamente contrário à aposta no Hidrogénio Verde, recorda que o projecto, aprovado pelo Governo e em discussão pública, “pretende instalar, até 2030, 2 GW [gigawatts] em electrolisadores para produzir Hidrogénio, com um custo de 7 mil milhões de euros, destinados apenas ao consumo interno”. Um investimento a realizar pelo sector público, com apoio comunitário, mas também pelo privado.

Para estas personalidades, “a única justificação económica apontada é a substituição de importações de gás natural”, que “para um pequeno país de economia aberta não faz qualquer sentido” e “mesmo assim só teria mérito se reduzisse o custo para o utilizador final”.

No entanto, alertam, “não é isso que acontecerá; o custo do Hidrogénio injectado, apesar de utilizar a energia solar, custará entre o dobro e o triplo do gás, pelo que o consumidor final verá a sua factura do gás subir entre 15 e 30%”.

Por outro lado, “a utilização para abastecimento de automóveis movidos a Hidrogénio apontada na EN-H2 não tem base tecnológica”, indica o manifesto, salientando que “o grau de imaturidade tecnológica revelado é bem evidente na confusão entre a utilização do Hidrogénio misturado com metano na rede de gás natural, e a utilização do Hidrogénio em células de combustíveis de veículos rodoviários”.

O documenta alerta ainda para elevados custos e riscos de segurança na armazenagem e para o facto de a localização prevista em Sines não ser apropriada, porque o processo de produção exige muita água, que não existe no local.

“Para a produzir seria necessário instalar uma fábrica de dessalinização da água do mar, a um custo adicional de cerca de 20 euros por MWh [megawatts/hora], que acresceria ao preço final”, segundo os signatários. “A EN-H2 refere a utilização de águas residuais, que não só também não existem na região, como a sua destilação exigiria acrescidos custos”, segundo o documento.

“Não se compreende uma estratégia deste tipo num país com cerca de 20% de pobreza, e a necessitar de um forte investimento produtivo para poder aumentar o seu rendimento per capita”, lê-se no manifesto.

O documento é assinado por dezenas de personalidades como Abel Mateus, ex-presidente da Autoridade da Concorrência, o ex-ministro Mira Amaral, o gestor Alexandre Patrício Gouveia, e Ribeiro e Castro, antigo líder do CDS.

A EN-H2 contempla um grande projecto em Sines, que custará entre 4 a 4,5 mil milhões de euros dos 7.000 milhões, sendo o restante valor dividido por unidades mais pequenas.

CIP preocupada

“A CIP não está nada descansada quanto ao equilíbrio dos custos da estratégia nacional para o Hidrogénio”, disse Jaime Braga, assessor da direcção da Confederação patronal para as áreas de Ambiente e Energia, numa sessão de esclarecimento promovida pelo Governo, a propósito do Hidrogénio Verde.

“Não houve uma negação da estratégia, que foi apresentada, de reforço das energias limpas. Há é muitas interrogações sobre o impacto financeiro” dos projectos relacionados com o Hidrogénio, frisou Jaime Braga, sublinhando que “a proposta de estratégia nacional não deixa a CIP nada descansada”. Sobretudo porque a mesma será financiada maioritariamente pelo Fundo Ambiental, que por seu lado “é alimentado pela indústria” via pagamento das emissões de carbono. “Primeiro vamos dar com uma mão, para depois receber com a outra”, disse o responsável, lembrando que “o Hidrogénio é uma matéria-prima da indústria”. É preciso clarificar “o que são fundos europeus e o que são fundos nacionais”, disse Jaime Braga.

O Secretário de Estado da Energia, João Galamba, no encerramento da reunião, reconheceu que “sim, o preço do Hidrogénio é hoje muito maior do que o do gás natural”, mas lembrou outro custo importante na óptica do Governo: “O Hidrogénio pode ser caro, pode haver incertezas tecnológicas. Mas há um elemento que é o custo de não fazer nada” em prol da descarbonização da economia e suportar multas pesadas da União Europeia no futuro. “As metas existem, e a estratégia nacional de Hidrogénio existe para as fazer cumprir, com alternativa à electrificação para a descarbonização”, disse Galamba. ■