Talvez seja bom aprender com os erros

“Que muitos portugueses ainda acreditem em ‘donas brancas’ é que me faz alguma confusão. Deixo uma previsão: quando os projectos da TAP, do lítio e do hidrogénio verde acabarem, façam as contas e não digam que a culpa é apenas dos governos”

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Sempre acreditei que na gestão de uma família, de uma empresa ou de uma nação, não se devem deixar acumular demasiados problemas. Quando isso acontece, a primeira coisa a fazer é evitar adicionar mais problemas aos já existentes, nomeadamente problemas que se possam adiar ou matar à nascença. 

Portugal tem neste momento demasiados problemas por resolver, uns mais antigos e outros mais recentes, mas todos a complicar as decisões e a aumentar a probabilidade de erro. Como se isso não bastasse, temos o Covid-19 a dominar a atenção do Governo e a assustar a sociedade. 

Em tais circunstâncias, a existência de uma estratégia para o futuro torna-se uma bênção, porque se sabe para onde se pretende ir, o que facilita e apressa a tomada de decisões, não deixando os problemas apodrecerem. O inverso é verdadeiro, porque quando não há estratégia, como acontece no nosso caso português, todos pretendem arranjar diferentes soluções, quase sempre contraditórias. 

Neste momento, e infelizmente, abundam os planos para sair da crise, o que faz que, não havendo uma direcção estratégica prévia, o risco da invencionice seja enorme. Já escrevi que o plano do Governo de superação da actual crise é uma inutilidade, porque atira em todas as direcções. Agora, estamos ansiosamente à espera do plano do dr. António Costa Silva que, com toda a probabilidade, vai tentar resolver todos os problemas que enfrentamos de uma penada, o que é meio caminho andado para não resolver problema nenhum. É cedo para o dizer e, por isso, esperemos com atenção redobrada. Porque pode sempre acontecer que o convidado a pensar por conta do Governo tenha o bom senso de apresentar uma página com as duas ou três coisas a fazer estrategicamente relevantes. Duvido, mas, como diz o povo, a esperança é sempre a última coisa a morrer.

Pessoalmente, escreveria que o mundo não vai mudar à conta do Covid-19, como por aí dizem, e a probabilidade é que os problemas do País, pós pandemia, sejam os mesmos que existiam antes, apenas um pouco mais agravados. A dívida pública aumenta mas não desaparece, as empresas que mais contam na economia portuguesa irão sobreviver e as que desaparecerem serão provavelmente as que já estavam a mais na parte pobre da economia dual. São uma preocupação para a economia? Claro que sim, mas trata-se de um bom problema que só ganha em ser enfrentado. 

Se alguém me pedisse a minha opinião, algo pouco provável nas actuais circunstâncias, escreveria: duplicar as exportações nos próximos oito anos, para ficarmos ao mesmo nível dos outros países europeus da nossa dimensão. Rui Rio falou em três AutoEuropas, não necessariamente do sector automóvel, mas empresas que, tal como aconteceu na AutoEuropa, criem uma mancha de fornecedores nacionais, ou aumentem o mercado dos já existentes. Não vou aqui repetir as vantagens competitivas que Portugal tem neste domínio. Se neste momento ainda as não conhecem, não adianta falar delas. 

Mas peço que ouçam o que vos digo: a duplicação das exportações é a única solução para a nossa economia e não há outra, acreditem, porque não há nenhuma economia da dimensão da nossa que possa desenvolver-se com 40/45% de exportações sobre o PIB. Isso não existe. Já perdemos trinta anos no nosso processo de desenvolvimento por este simples facto.

Se o Dr. António Costa Silva escrevesse isto em letras gordas numa folha de papel para entregar ao Governo, teria prestado um notável serviço a Portugal.

Disse antes que, nas actuais circunstâncias, não devemos introduzir mais problemas aos já existentes e devemos fugir, principalmente, a apresentar novos problemas que nos possam fazer perder tempo a debater novas soluções. Claro que o senhor ministro Pedro Nuno Santos e o secretário de Estado João Galamba não conhecerem Michael Porter e, assim sendo, resolveram acrescentar alguns problemas insolúveis aos já existentes. 

O senhor ministro acrescentou um enorme problema que se chama TAP, tão grande que, infelizmente, nem ele sonha. Ao mesmo tempo, não resolveu o problema que existe e de fácil solução, que é uma via férrea em bitola europeia para a exportação dos produtos portugueses, quando, brevemente, a União Europeia e o bom senso matarem o transporte por camião para grandes distâncias. Cuidado, que só escrevi uma via e não a mudança de toda a rede ferroviária portuguesa para a bitola UIC.

O senhor secretário de Estado João Galamba, esse, não o faz por menos: Portugal vai ser líder na produção de hidrogénio verde através de um investimento de seis mil milhões de euros. Trocos para João Galamba, que não precisa mesmo de acrescentar como isso se faz, basta fugir à verdade, dizendo que se trata de investimento privado. Holandeses e alemães, segundo parece, mas como o segredo é a alma do negócio, não sabemos se existem, ou qual o seu nome. Ou, já agora, o que é que nós temos que os alemães e os holandeses não têm? Eu explico: dinheiro fácil da União Europeia e dos contribuintes portugueses.

O mais espantoso não é que o senhor ministro e o senhor secretário de Estado digam tudo o que dizem, o espantoso é que depois de todas as experiências anteriores haja ainda portugueses que acreditem. Isto é ter fé na senhora de Fátima, até porque o currículo dos dois senhores, a que acrescento o do ministro do Ambiente, não nos dá quaisquer garantias, bem pelo contrário.

Para que mais tarde não digam que ninguém avisou, recordo apenas alguns casos exemplares. No caso do porto do Barreiro, quando um outro secretário de Estado garantia a existência de investidores privados e quando eu, como outros, lhe dissemos que não haveria nenhum investidor com dinheiro e juízo para investir no século XXI num novo porto no fundo de um grande estuário, para mais com dragagens absurdas. Nada feito, o governo gastou uns milhões de euros em estudos, mas investidores nem vê-los.

Fui recentemente rever o processo Quimonda, quando a Siemens resolveu que não estava disposta a investir mais naquele mercado maduro e passou o negócio a uma empresa chamada Infinium, empresa essa que a seguir foi vendida a uma outra chamada Quimonda, já então em dificuldades, que trouxe o negócio para Portugal dados os apoios generosos do governo de José Sócrates. Claro que a Quimonda faliu na Alemanha e não faliu em Portugal, porque o ICEP, o BCP e o Novo Banco ficaram com os prejuízos. Pouco tempo depois estas entidades nacionais voltaram a vender a empresa ao desbarato a uma sociedade norte-americana. Fim da história e do nosso dinheiro.

Não conheço tão bem o caso da Seda em Sines, empresa apoiada pela Caixa Geral de Depósitos a mando do Governo de José Sócrates, projecto que deixou uma enorme cratera no banco público. Ou o projecto do Vale do Lobo, agora em tribunal. Ou da compra da OI no Brasil. Os exemplos não faltam, nem faltam investidores secretos destinados a usar os governos de Portugal como os tansos convenientes. 

Que muitos portugueses ainda acreditem em ‘donas brancas’ é que me faz alguma confusão. Deixo uma previsão: quando os projectos da TAP, do lítio e do hidrogénio verde acabarem, façam as contas e não digam que a culpa é apenas dos governos. ■