Chantagem foi Avante!

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Chantagem, simples e descarada chantagem, feita à vista de todos nós sobre um Governo refém da extrema-esquerda: assim pode resumir-se a obstinação (vitoriosa) do Partido Comunista na realização do seu festival anual, a Festa do Avante, que deverá estar a abrir os seus portões hoje mesmo, sexta-feira, prolongando-se por Sábado e Domingo.

Até há uma semana, tudo apontava para teimosia comunista pura e simples: a Festa é uma inestimável fonte anual de receita para o PC (2 milhões de euros, segundo a SIC-Notícias) e um importante meio de captação de aderentes jovens, graças aos espectáculos musicais que têm lugar nos vários palcos instalados na Quinta da Atalaia, no concelho do Seixal, margem Sul do Tejo. Aquela teimosia parecia explicar que Jerónimo de Sousa menosprezasse o clamor que se ouviu por todo o país quando se concluiu que a Festa ia mesmo avante, desprezando tudo o que deveria ser acautelamento da saúde pública.

Reuniões com a Direcção-Geral da Saúde sobre as condições concretas em que o evento poderia ser realizado multiplicaram-se ao longo dos dias, enquanto na imprensa e nas redes sociais crescia a onda de indignação pela indiferença demonstrada pelo PC quanto aos enormes riscos de contágio na Quinta da Atalaia.

Nem a evidência de que se estava a dar aos comunistas um tratamento privilegiado face a muitos outros festivais e espectáculos de massas, nem o argumento de que todos os outros partidos haviam desistido das suas festas de ‘rentrée’ pareciam convencer o empedernido Jerónimo. Por seu lado, António Costa fugia como uma enguia a tomar uma posição sobre o assunto, o que no quadro de pandemia só podia significar apoio à iniciativa comunista. 

Só há uma semana se percebeu que, afinal, a obstinação na Festa do Avante tinha uma forte razão política subjacente: o Partido Comunista usava-a, descaradamente, como moeda de troca com o Governo socialista. As dúvidas foram dissipadas quando, respondendo ao convite do primeiro-ministro para iniciar negociações sobre o Orçamento do Estado para 2021, o secretário-geral do PC respondeu que só estaria disponível “depois da Festa do Avante”. Leia-se: ou havia luz verde para a Festa do Avante, ou Costa escusava de contar com os votos do PC na Assembleia da República.

Assim, à hora a que este jornal começa a chegar às bancas, os funcionários do partido deverão estar a abrir as cancelas e a picar os primeiros bilhetes. As normas inventadas pela Direcção-Geral da Saúde para fazer a vontade a Costa e a Jerónimo estipulam uma lotação máxima de 16.500 pessoas em simultâneo em todo o recinto da Festa, mas toda a gente sabe que este pseudo-rigor não passa de um pró-forma: aliás, a “fiscalização” das normas estará a cargo do próprio PC…

Os comunistas levaram a sua avante, sim, mas talvez venham a pagar um alto preço pela Festa do Avante. Se, como se receia, da Quinta da Atalaia saírem pessoas contagiadas pelo Covid-19, Jerónimo e o seu partido não deixarão de ser responsabilizados na praça pública. Mesmo que tal infelicidade não aconteça, o escândalo que todo o caso já provocou terá inevitavelmente consequências negativas nas urnas, em próximas eleições.

Onde o PC pagará por certo um elevado preço político será no próprio concelho onde a Festa se realiza. Na Amora, a localidade mais próxima da Quinta da Atalaia, circulou durante toda esta semana um abaixo-assinado de iniciativa popular contra a realização do festival. E mais de cem estabelecimentos comerciais da vila vão estar fechados até Domingo, em protesto e como medida de precaução contra a contaminação pelo vírus.

O PC tem a sua Festa e António Costa os votos do PC (se este não roer a corda, claro). Mas ficaram ambos muito mal no retrato. ■