Esta semana trago um desabafo sincero e sentido sobre tudo aquilo que vemos e ouvimos por aí no tocante aos processos e interrogações que surgem por parte de decisores políticos.
Não é uma análise às consequências e aos efeitos que são visíveis por todos nós, mas sim às causas, tentando assim fazer lógica e entender tudo aquilo que tenho visto cada vez mais a degradar-se, com muita preocupação.
Antes de mais quero confessar que a minha estranheza advêm do facto de não saber se sempre assim foi, se fui eu que acordei só agora literalmente para a vida, ou se a política, e mais concretamente a acção governativa, tem vindo paulatinamente a corromper-se, ao ponto de hoje já só ser um logro de mentiras e falsidades, ou, como alguém diz, de inverdades e pessoas desonestas ou de má índole, que apenas pretendem aproveitar-se dos mais incautos para assim retirarem os seus dividendos políticos, num teatro degradante a que todos chamamos de democracia.
Talvez, como disse, tenha sido sempre essa a regra e não a excepção e agora esteja a haver mais escrutínio, ou as pessoas tenham uma análise crítica mais acutilante que não permita mais que os vícios e estratagemas do passado perdurem, e que, inclusive no presente, já não os toleram (assim o espero), ou talvez tenha sido eu que fui ficando mais velho e desiludido à medida que vi que toda a cartilha socialista, que conheci bem de perto, ou qualquer outra mais ideo-
lógica ou programática arvorada numa tecnocracia, ser cada vez mais esquecida e remetida para segundo plano por parte de quem a esgrima e exprime em comícios estéreis e, o que é pior, histéricos, fazendo com que o pensamento teórico e filosófico que deveria preceder a acção esteja, também ele, refém de um curto prazismo e de um oportunismo eleitoral premeditados, sendo cada problema resolvido – ou não – com base na potencial vantagem que é dada para este ou para aquele fim, tendo cada acção ou omissão feita um só intuito de facto – o de assumir poder e depois de o almejar, tudo fazer para mantê-lo, não importa os métodos que se usem.
Talvez a definição de política de uma perspectiva teórica/científica ou ainda sociológica seja isso mesmo, e talvez seja eu que sou idealista demais, o que é facto é que sempre considerei e considero que não vale tudo, na vida e muito menos na política, e que muito daquilo que este grande instrumento da acção humana deveria ser, o serviço ao outro e ao bem comum, está hoje esquecido. Ao invés disso é um lodo de mentiras, falsidades, hedonismo e culto de personalidades, tão fracas e frágeis que precisam constantemente de um séquito de bajuladores bem pagos para lhes massajarem o frágil ego, pois sem esses lá estarem não aguentariam a sua própria existência, dado o ínfimo que são e que o sabem.
Salvo claras e raríssimas excepções, hoje a política está pejada destes espécimes, os quais nem vale a pena particularizar.
Todos sabemos quem são, entram-nos pela casa adentro todos os dias sem nos pedirem por vezes permissão, a alarvar disparates uns atrás de outros e dão continuidade à sua ostensiva presença no espaço público, convencidos que são omnipresentes e amparados por um mediatismo proveniente dos órgãos de comunicação social, com um espírito crítico e questionador abaixo de zero, bem como uma subserviência que, embora compreensível (dado os parcos recursos e a excessiva dependência que têm dos primeiros), dá dó para quem está a observar.
A quem serviu o chapéu que se acuse, pois eu não estou para lhes dar mais palco ou importância para além daquela que infelizmente já granjearam, para desgraça de todos os cidadãos que tiveram e continuam a ter que depender destes.
Os exemplos são demasiados e nem 20 edições de um jornal como este poderiam porventura referir todos os casos que parecem surgir numa cadência vertiginosa, encurtando a periodicidade com que escandalosamente são noticiados de ano para ano e envergonhando aqueles que pretendiam outra escolha.
Senão, vejamos. Há para todos os gostos secretários de Estado e assessores arguidos em processos de favorecimento; ex-ministros que assumem posições de regulação de órgãos sem o mínimo de isenção para o cargo que estão a assumir e carregados de conflitos de interesse; troca de favores entre políticos e empresas; pessoas que assumem cargos da Secretaria de Estado que não têm o mínimo de habilitações literárias para lá estarem; ministras que chegam ao lugar não por mérito, mas por serem aparentadas de aposentados ministros. Falando disso, ainda políticos que nem acabaram o curso e inventam teses; favorecimentos ilícitos em concursos; negócios e recebimento de comissões onde os mesmos estão a representar o Estado, empresas familiares com acesso a fundos públicos usando a informação privilegiada que por vezes detém; absolvição ou arquivamento de processos; promessas nunca cumpridas e sempre adiadas de construção de aeroportos e outras infra-estruturas, tais como hospitais; gafes monumentais e atestados de incompetência; anúncios de ajudas que nunca chegam; escolas que não abrem com as vagas todas, dizendo-se, e passo a citar o eufemismo, não há horários atribuídos. Suspeitas de abuso de poder em vários ministérios; destruição de serviços públicos de qualidade; quadros e obras de arte que aparecem em casas de titulares de cargos públicos; intromissões em processos de índole económica por parte de chefes de Estado; favorecimentos em concursos públicos de várias ordens; colocação de pessoas da confiança política para controlo de funções vitais do Estado; contratações de pessoas para cargos fictícios; contratações de “especialistas” sem a mínima capacidade ou sequer experiência profissional com ordenados que rebentam a tabela remuneratória; maridos de ministras com consultorias milionárias ao Estado.
Incompetências crassas que inclusive originaram a morte de pessoas, favorecimentos e arranjos entre outros partidos para manutenção dos seus cargos e poder, ajustes directos em concursos públicos, aquisição de imóveis abaixo dos preços de mercado, e a lista, embora desmoralizadora e extensa para quem tem ainda alguma fé na humanidade, continuaria e para cada exemplo sucedem-se as instâncias e réplicas mudando apenas as personagens, como se de um “script” de um filme pré-formatado se tratasse, sendo que já são tantas que dei por mim no processo de elencagem a desvalorizar grande parte delas, até mesmo a pôr em causa o meu próprio juízo que faço das mesmas. Dito de outro modo, relativizar a sua gravidade, dado que já fazem parte da normalidade e do nosso quotidiano.
Ainda assim há que perguntar se queremos pautar e alicerçar o construto teórico da política nestes exemplos ou se, por outro lado, desejamos censurar estas práticas e reprimi-las ao máximo, para que definhem até desaparecerem por completo!
Por isso mesmo, urge criar um novo entendimento da política, que tenha em linha de conta não mais o que é dito e as bonitas palavras, mas sim o que é feito e que a acção ou inacção tenham as suas necessárias consequências, sendo igualmente as pessoas consequentes consigo mesmo e com as suas decisões. Sem isto damos por nós sempre a desculpar o indesculpável a defender o indefensável, sem que façamos um verdadeiro exame colectivo enquanto sociedade e perguntemos de uma vez por todas se é este o exemplo que queremos de pessoas a representar-nos, quer aqui, quer lá fora. É esta a imagem que temos de nós próprios e aquilo que queremos mostrar ao mundo?!
Fica a pergunta. ■




