MARIA D’ALJUBARROTA

Tu lembras-te, com certeza: o que diziam de ti, as calúnias que inventavam, os boatos que punham a circular. As tentativas desesperadas para desacreditar o teu trabalho e para dividir a tua equipa. Usaram tudo. Num dia eras drogada. Noutro, bêbada. Noutro, tinhas embarcado numa campanha pessoal e vendias a alma ao diabo só para teres audiências. Tu lembras-te, Manuela. E eu também. No clima de carneirismo que se vivia há menos de uma década, o teu Jornal de sexta-feira, na TVI, era a pedrada no charco. A denúncia sem máscara. Era preciso calar-te. Tirar-te do ar. Eliminar-te.

O teu pecado era só um: teres decidido que a verdade sobre José Sócrates tinha de ser contada. Algo impensável num País de cabeça enterrada na areia, para não ver. Algo impossível no Portugal encarneirado de então, todo vénias para o “menino de ouro”. E tu enfrentaste-o, em directo. Olhos nos olhos. Perguntaste directamente o que ninguém se atrevia a murmurar. Desafiaste o “animal feroz”. Foste jornalista.

O preço a pagar tinha de ser alto. Acabaram com o teu Jornal das sextas-feiras. Desmantelaram a tua equipa de investigadores, neutralizando-os um a um. Destruíram-te a carreira. Enxotaram-te da hora nobre, depois da televisão, finalmente do jornalismo. Para que ele, o “menino de ouro”, continuasse a enganar um País encarneirado.

E hoje, Manuela?

Oito anos depois, o “animal feroz” transformou-se na vergonha nacional. Trinta milhões de euros depois, acusado de trinta crimes graves, o “menino de ouro” é, afinal, aquilo mesmo que tu denunciaste há oito anos. Ou é pior ainda. Para trás deixaste uma carreira brilhante. Foste sacrificada a interesses inconfessáveis. Perdeste tudo – menos a amizade e o amor dos (poucos) amigos sinceros, menos a tua dignidade, menos o teu profissionalismo.

E agora, Manuela, quem te pede desculpa? Quem te paga oito anos de lágrimas? Quem tem coragem de vir dizer-te que tinhas razão e que era o país da carneirada que estava errado?

Ai, meu Portugal, que não tens emenda – nem vergonha na cara!

Menino dos telejornais, pára um pouco

E, já que falo de televisão, de jornais televisivos, deixem-me dar uma palavra de conselho às meninas e aos meninos dos telejornais de hoje em dia, aos estagiários mal pagos que nos entram em casa às oito da noite lendo baboseiras que lhes puseram à frente, às cabeças tontas que tantas vezes não pensam nos porquês.

Menino dos telejornais, pára um pouco para pensar. O teu instrumento de trabalho não é o microfone, é o cérebro. A tua enxada é o raciocínio. O jornalista não é aquele que regista o que os outros dizem (para isso servem as caixas de correio): é aquele que explica o que os outros disseram. O bom repórter não é o mais penteadinho: é aquele que mais pensa. O jornalista que “faz história” (como vocês agora gostam de dizer) não é o mais obediente, é o mais sério.

Não te vendas pelo ordenado mínimo nacional: num País onde os corruptos se medem aos milhões, faz com que o teu preço seja tão alto que ninguém consiga pagá-lo. Não queiras ser mais uma nulidade no rebanho, mais um verbo de encher na fábrica de salsichas. Usa a inteligência. Impõe a inteligência. Anda de cabeça levantada. E então serás respeitado. ■

Lisboa e a paisagem

Uma das parvoíces que os meninos e meninas dos grandes órgãos de comunicação social nacionais são levados a interiorizar no dia-a-dia é a ideia de que o mundo gira à sua volta. Lamento informar, mas de facto não gira. Essa parvoíce não seria importante se não tivesse consequências funestas. Tenho um exemplo aqui à mão da actualidade.

Todos sabemos da falta de água que está a afectar Portugal e grande parte do Sul da Europa. Quando se sintoniza uma estação espanhola ou francesa, por exemplo, os noticiários sobre este tema relatam-nos o que está a acontecer às vinhas, às oliveiras, aos castanheiros; os repórteres ouvem os agricultores sobre as contas das suas explorações, os especialistas da Agricultura sobre acções de emergência, os cientistas da Meteorologia sobre o tempo que fará; surgem imagens explicativas das regiões mais afectadas; há debates sobre o resultado das medidas cautelares adoptadas; e tem-se uma noção da verdadeira dimensão do problema.

Em Portugal, pelo contrário, os meninos dos telejornais limitam-se a falar da água que falta “nas torneiras”, isto é, nas cidades. O mais que nos mostram da “realidade real” é uma imagem desfocada de um solo gretado, tipo pintura impressionista a dar o “toque artístico” a uma pseudo-notícia que nos faz logo bocejar.

Que uma área de 80 por cento do território agrícola nacional esteja há meses em seca severa, que a agricultura portuguesa esteja a viver uma das piores calamidades das últimas décadas, que se preveja uma redução de 20 por cento na produção de cereais, que haja ganadeiros desesperados por falta de pastos, que estejam em crise (e em causa) milhares de empresas agrícolas e muitos milhares de empregos – isso nada diz aos meninos e meninas preocupados com a água “nas torneiras” de Campo de Ourique ou da Brandoa.

Esse soberano desprezo pelo verdadeiro Portugal resume a vida à Área Metropolitana de Lisboa e, na melhor das hipóteses, inclui ainda o trânsito no Grande Porto. O resto é paisagem. Uma paisagem do tamanho do País.

Depressão

Entre 2013 a 2016, dez por cento dos portugueses foram aos Centros de Saúde receber tratamento contra a depressão e a ansiedade. O consumo de químicos anti-depressivos e tranquilizantes duplicou no mesmo período no nosso País – e entre os principais consumidores estão as crianças.

Estes números assustam. Não vi explicadas as causas, mas entre estas não deve estar andarmos todos felizes e satisfeitos. Uma leitura política do caso permitiria, em todo o caso, dividir o mal pelas aldeias: dois anos de depressão (2013 e 2014) poderiam atribuir-se às duras medidas de austeridade do Governo PSD-CDS; mas os dois anos seguintes correspondem já ao período de felicidade perpétua que nos foi proporcionada pelo mantra do querido líder António Harekrishna Costa. ■

Obrigado, patrão!

Aquele rapazinho de óculos e barba por fazer do Partido Comunista, chamado João Oliveira, concedeu-me um aumento de dez euros por mês na pensão. Obrigado, patrão! Sem querer parecer ingrata perante tamanha generosidade, apeteceu-me perguntar aquilo que ele próprio perguntaria se o aumento tivesse sido concedido por Pedro Mota Soares: e se fosse meter o aumento num sítio que eu cá sei?

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