Português faz férias com salário mínimo

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Todos os anos, quando chega o Verão, e sobretudo em Agosto, os portugueses rumam às praias do Litoral, com destaque para as do Sul do País. A tradição manteve-se mesmo nos piores períodos de crise económica, mas agora, que os tempos são apesar de tudo diferentes e que o desemprego todos os meses regista uma nova queda, são os nacionais, mais do que os estrangeiros, que literalmente invadem o Algarve para mais uma temporada de veraneio.

Se nos anos da crise o Sul de Portugal beneficiou da incerteza e insegurança em países como a Tunísia e a Turquia, agora os ingleses e franceses estão já a regressar a esses destinos, que oferecem preços muito mais convidativos do que o Algarve. Mas os agentes turísticos não se queixam, uma vez que este ano continuam a ter portugueses e várias outras nacionalidades de turistas que estão em peso no Algarve.

Segundo um estudo do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM), a praia continua a ser o principal destino dos portugueses para férias. E sem surpresas 87% dos inquiridos referem ter férias entre Julho, Agosto e Setembro. Dos inquiridos, 78% disseram que vão sair de casa durante as férias, e os que ficam na residência explicam que é por “constrangimentos financeiros” que não podem debandar para uns dias de descanso.

O inquérito revelou, no entanto, uma novidade: os portugueses começam a colocar na agenda, além do Algarve, a costa Alentejana. Foi Mafalda Ferreira, coordenadora do estudo, que detectou que entre 2017 e 2018 houve uma ‘migração’ do Algarve para o litoral alentejano. A investigadora apurou, também, o valor que os portugueses pensam gastar este ano nas suas férias: em média, 700 euros, ou seja, pouco mais do que o Salário Mínimo Nacional.

Na comparação com o estudo de 2017, a coordenadora referiu o “ligeiríssimo decréscimo, absolutamente residual, do valor gasto, contrariamente às expectativas, nas férias de Verão: passou de 708 euros do ano passado para 702 este ano”. Um dado dissonante com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), pois de forma empírica tudo levaria a crer que a devolução de rendimentos feita nos últimos dois anos, tivesse repercussão nos gastos de férias. Mas os portugueses ainda não podem desapertar o cinto, em grande medida porque se encontram muito endividados. E o desentendimento comercial com os EUA promete ter um reflexo muito negativo nas economias europeias, o que leva muita gente a restringir o consumo, temendo dias ainda piores.

Meses de Verão

Sem alterações está o número de pessoas a fazer férias nos meses de Verão, “o período privilegiado” pelos portugueses, para quem, como se sabe, a “praia é o atributo mais valorizado” (61% das respostas). A registar mudanças está a escolha do Algarve, já que o “valor diminuiu face aos dados do ano passado (52% em 2017 para 47% em 2018), tendo aumentado o Alentejo litoral (23% para 32%)”.

“Eu diria que nas pessoas que ficam em Portugal, há uma transferência de valores, e na nossa amostra 54,8% das pessoas irão ficar em Portugal, os outros distribuem-se pela Europa (quase 26%), África (5%) e América do Sul (3%)”, acrescentou a docente. Dentro da Europa, “o país claramente preferido é Espanha”, disse.

A professora referiu ainda que, cruzando com outras informações, se concluiu que “a situação de crise económica e financeira provocou algumas alterações dos padrões de pesquisa e de compra”. E o que se nota, em diferentes áreas, é que “apesar de repostas algumas das restrições financeiras e de existir um maior orçamento disponível, o português mantém algum tipo de padrões, e são mais focados na questão do preço e em encontrar a melhor relação preço-qualidade”, assegurou.
A coordenadora do estudo indicou ainda a utilização “em grande parte” do subsídio de férias nesta altura, pelo que a “reposição dos subsídios teve impacto no padrão de comportamento, já que 49% das pessoas o utiliza parcialmente, e 15% utilizam-no totalmente”. “Este subsídio de férias é efectivamente um motor da dinâmica económica que se coloca nas férias”, afirmou.
Os portugueses procuram cada vez mais marcar o alojamento online fazendo buscas na internet. Por outro lado, entre hotéis e outro tipo de alojamento, começa a ganhar terreno a procura pelo agora tão badalado alojamento local. O estudo revela, ainda assim, que o hotel continua a ser o preferido dos portugueses com 31 % das escolhas, enquanto o alojamento local, apesar de crescer, corresponde a 22 %. A opção pela casa de férias é tradicional e tem ainda um peso muito elevado, quer se trate de aluguer, ou de casa própria ou de familiares.

Turismo de natureza

Para os portugueses que não vão para a praia, mas fazem férias no País, muitos escolhem a opção mais em conta de regressarem à “terra” ocupando as casas abandonadas na maior parte do ano, tal como o fazem os emigrantes que regressam a Portugal.

Mas coexistem já muitas opções para férias. Há quem, com poder de compra, tenha outras preferências e escolha o turismo de natureza. A este nível, o País tem ganho cada vez mais infra-estruturas, com uma rede de praias fluviais a crescer de ano para ano.

As ciclovias e os passadiços são duas das opções que mais sucesso estão a ter no Interior de Portugal, com procura por muitos estrangeiros mas também por portugueses. De destacar a Rota Vicentina e a Via Algarviana, casos em que se regressa ao Alentejo e ao Algarve, mas estes fruídos de outra forma, em caminhadas ou de bicicleta.

Foi pioneiro e teve um sucesso imenso, levando a que muitos outros municípios copiassem o modelo. Os Passadiços do Paiva marcaram o arranque para uma receita de dinamização do Interior do País. O último passadiço a avançar tem uma rede de miradouros sobre o rio Douro e abriu no passado fim-de-semana. É só mais um exemplo do modelo. Nestes passadiços os visitantes podem esperar uma paisagem dominada pelo Douro que desce em direcção ao Porto, não muito longe da barragem de Crestuma. As caminhadas das primeiras centenas de metros serão sobre um passadiço em madeira, ainda com cheiro a novo, que contorna as formas do rio, por entre a vegetação da margem esquerda, com muros em xisto, e na qual também não faltam as sombras proporcionadas por alguns sobreiros propositadamente mantidos no percurso.

Os Açores são outro destino nacional em plena expansão para quem gosta de férias na Natureza. Este Verão é mais fácil levar os equipamentos desportivos até ao arquipélago. A SATA Azores Airlines transporta, a custo zero, pranchas de surf e equipamentos de golfe, entre muitos outros, em qualquer voo entre Portugal Continental e as ilhas. O surf é uma das modalidades abrangidas, com oferta de 10kg para o transporte de vários tipos de pranchas, desde que dentro das medidas convencionadas. Estão também incluídas as de body board, wakeboard, skimboard, kite surf, windsurf e stand up paddle. Também os praticantes de golfe têm direito a 15 kg adicionais para o transporte de saco, tacos e bolas apropriadas.