Afirmação pela positiva

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Nos anteriores artigos sobre a direita desmontámos as falácias da chamada “terceira república”, mais propriamente a república corrupta, e a difamação, feita por esta mesma república corrupta pós-25 de Abril, do anterior regime, o Estado Novo de Salazar. 

Percebemos que a educação, o crescimento económico e a luta contra a desigualdade económica foram tónicas do regime instituído e pensado por Salazar. Percebemos também as fraquezas do anterior regime, demasiado isolado na cena internacional, vítima de conflitos entre superpotências. 

O Portugal de Salazar foi um paladino da doutrina social da Igreja num mundo em que o capitalismo feroz americano pretendia um regime neo-colonial, em que apenas se exploram as matérias-primas sem meter as mãos na tarefa do desenvolvimento dos povos, explorando selvaticamente os povos africanos, sul-americanos e asiáticos sem nada dar em troca. Por outro lado, o regime soviético e os comunistas chineses de então lutavam desesperadamente para ocupar o espaço deixado pelas antigas potências coloniais europeias, abandonadas pelos americanos à sua sorte no pós-guerra. 

Este isolamento face ao mundo deixou o país vulnerável face aos movimentos pró-soviéticos que se impuseram no pós-25 de Abril. Pior, apesar da vitória militar obtida com o esforço e o sangue dos últimos heróis de Portugal nas províncias ultramarinas, os militares do quadro, sobretudo por razões corporativas, estavam cansados da guerra. Ainda faltariam alguns anos para a queda do muro de Berlim e não se vislumbrava uma solução para um problema militar de baixa intensidade em que os movimentos supostamente marxistas tinham perdido o gás para almejarem uma independência com acções globais, mas em que continuavam a importunar politicamente, a nível internacional, e com algumas acções localizadas de guerrilha que, apesar de reduzida e localizada, continuava a obrigar a manter um dispositivo no terreno que ia consumindo os militares em comissões de serviço sucessivas. 

Assim, o cansaço dos militares e a pressão política internacional, sem uma verdadeira solução para o problema do ponto de vista político, aliás muito difícil em virtude do conflito geoestratégico em desenvolvimento na altura, motivaram o golpe de Estado efectuado pelos capitães. Marcelo Caetano não conseguiu quebrar o isolamento do país, a sua posição era trágica, estava entalado, ele também, entre os ultras do regime, com Américo Thomaz, o então Presidente da República, e, sobretudo, Kaúlza de Arriaga, e os liberais, com Pinto Leite, Miller Guerra, Sá Carneiro, Magalhães Mota e João Bosco da Mota Amaral. 

Salazar não conseguia ter mão livre para modernizar e criar uma nova elite política que abrisse o país, nem capacidade para negociar com os movimentos subversivos nas províncias ultramarinas. Sem capacidade de mudança, isolado, sem elites governativas, o regime estava maduro para a queda, apesar dos sucessos no desenvolvimento, na progressiva redução das desigualdades, na educação, no bem-estar dos cidadãos. A liberdade de expressão e o possível voto democrático pesaram mais na balança. O Estado Novo caiu. 

Não há nada a fazer, nem havia à época. Apesar de alguns movimentos anti-revolucionários de então, o ELP e o MDLP, alguns movimentos nas ilhas, e posteriormente o MIRN de Kaúlza de Arriaga, nada podia ser feito contra a avalanche revolucionária que se seguiu ao 25 de Abril. O regime estivera fechado demasiado tempo sobre si próprio.

Cabe à direita de hoje, com o distanciamento próprio do tempo, e a análise fria dos números, recordar que a plutocracia de hoje, a “república corrupta”, conseguiu atrasar o país em relação a 1974. Conseguiu reduzir o PIB per capita relativamente à média dos vinte primeiros países da OCDE, manteve o mesmo coeficiente de desigualdade que existia em 1973, coeficiente de Gini, e reduziu o analfabetismo a uma taxa inferior à de Salazar. 

A direita de hoje não deve procurar recuperar o Estado Novo, não deve elogiar a censura e alguma repressão, muito mais moderada do que o que se propala, que existiam nesse tempo. A censura e a repressão eram desnecessárias e não são, hoje, louváveis. A manutenção de colónias não é louvável, ninguém quer o regresso de Angola, Moçambique ou outras antigas províncias ultramarinas a Portugal. 

O nosso país é viável, era-o em tempos anteriores a D. João II, quando estávamos reduzidos às nossas fronteiras originais. Os portugueses são extraordinários, provaram-no ao longo da história. O que falta a este país é um desígnio, uma teleologia, como a que existia em tempos de D. João II. A teleologia que Fernando Pessoa e, mais tarde, António Quadros, pensaram para Portugal. 

Não cabe à direita portuguesa de hoje exigir o regresso ao Estado Novo, cabe sim denunciar as falácias da república corrupta, apontando os seus monstruosos defeitos, a incapacidade de criar riqueza e felicidade aos portugueses, a incapacidade de criar oportunidades iguais, o sistema corrupto que beneficia os plutocratas dos amigos do regime, que enriquecem à custa do empobrecimento do país e da desigualdade. A direita tem de provar que este sistema é iníquo e que se o Estado Novo tivesse continuado o país seria mais democrático e melhor hoje. A Espanha avançou muito mais do que Portugal nestes últimos 45 anos e, apesar da corrupção gritante que inundou a esfera pública, tem muito melhores indicadores. Não passou por uma revolução que instituiu uma partidocracia intrinsecamente corrupta como Portugal passou. 

A direita deve afirmar-se positiva e não negativa. Pela tradição, pela honra, pela palavra, pelo castigo dos corruptos, pela limpeza do sistema. Sem medo de elogiar os grandes estadistas deste país, como Salazar ou Sidónio Paes, os grandes referenciais do povo português ainda hoje. Sem pretender restaurar os seus regimes, mas procurando sempre o bem comum. É, pois, necessário um grande projecto que salve Portugal. Falaremos disso no próximo número. ■