A capacidade de previsão

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Nas sociedades modernas, a aceleração dos factores de mudança torna essencial o desenvolvimento de uma educação e de uma cultura da previsão. De contrário, as decisões dos governantes, empresários e gestores correm o risco de estarem permanentemente afastadas da realidade futura. Podemos hoje dizer sem receio de desmentido que a capacidade de previsão é a qualidade central da gestão privada e pública.

Desde há meio século que, devido à leitura dos livros de Alvin Toffler, assumi como tarefa pessoal o estudo das questões do futuro. Como uma forma de treino pessoal escrevi durante anos umas “Crónicas do Futuro”, em que semanalmente me obrigava a prever o futuro dos mais variados acontecimentos políticos e empresariais. Hoje é com satisfação que posso afirmar que previ nos meus escritos muitos acontecimentos e movimentos da sociedade, o que muito me ajudou na vida empresarial e nas minhas intervenções políticas. Por exemplo, nas duas moções que apresentei a dois congressos do Partido Socialista, há quase meio século, previ que a Irlanda seria a mais avançada economia europeia, como previ as migrações de África para a Europa, tendo mesmo feito propostas para antecipar medidas que contrariassem essa evolução através do financiamento da saúde e da educação desses países, como o recurso idóneo para fixar as populações. Igualmente, práticas comerciais que favorecessem as exportações desses países.

Infelizmente, no último quarto de século sucessivos governos portugueses elegeram a navegação à vista e o país perdeu todo o sentido de orientação. Talvez valha a pena recordar alguns exemplos:

1.Mobilidade – A aposta única no transporte rodoviário privado, o abandono do transporte público em geral e do ferroviário em particular, foi um erro com enormes consequências económicas, sociais e ambientais que estamos agora a pagar.

2.Educação – O privilégio do financiamento público do ensino universitário e a menorização da importância das creches e do ensino pré-escolar com alimentação e transporte deu origem à permanência da pobreza e da ignorância em milhões de famílias portuguesas. Sem esquecer o efeito pernicioso da falta de exigência no ensino em geral e na desvalorização do critério de mérito na sociedade.

3.Economia – A preferência dada ao mercado interno e aos serviços, à custa do desenvolvimento industrial e do comércio externo, a obsessão com as pequenas e médias empresas, em grande parte de serviços, teve como resultado o crescimento de uma economia dual, em que mais de 90 por cento das empresas portuguesas são demasiado pequenas, que se esgotam numa concorrência feroz no mercado interno e tornam Portugal o país europeu que menos exporta em percentagem do PIB, entre os países da nossa dimensão. Grave incapacidade de previsão essa, apesar de se saber que os dois melhores períodos da economia portuguesa dos últimos oitenta anos foram os períodos da EFTA e do Pedip/AutoEuropa, cujo sucesso resultou dos mesmos três factores: indústria, investimento estrangeiro e exportações. Factores cuja importância não foi minimamente compreendida pelo poder político e a economia dual tornou-se a principal causa da estagnação da economia portuguesa, o que continuará se a presente dimensão da dualidade da economia não for ultrapassada através da criação de mais e de maiores empresas industriais exportadoras.

4.Ideologia – A gestão ideológica do Estado está a ter custos insuportáveis em termos de falta de organização e de ausência de hierarquias competentes e profissionais com objectivos claros e quantificados, além do necessário planeamento. O resultado é uma administração pública enorme, mal paga, sem suficientes quadros e serviços qualificados, sem um plano geral do que deve ser público e do que deve ser privado, em que se navega à vista. Por mais espantoso que seja, a tendência actual é a de privatizar o pensamento e a orientação estratégica do Estado, assim como a feitura das leis, para nacionalizar a execução. Na Saúde, na Educação e na Justiça, é crescente a influência de entidades privadas na definição estratégia e no estudo dos problemas existentes, até pelo definhamento, por vezes a ausência, de departamentos públicos com as qualificações necessárias. Ao mesmo tempo que toda a execução se pretende seja pública. A ideologia é ainda a causa de debates inconsequentes na sociedade, da permanente fuga à realidade e, não poucas vezes, da mentira.

5.Democracia – No caso português, o crescente poder dos partidos políticos e a perda de poder dos cidadãos individualmente, bem como a escolha dos deputados e demais representantes do povo pelos directórios partidários, teve como resultado afastar os cidadãos da actividade política e reduzir a legitimidade e a qualidade dos eleitos. Imprevisão com efeitos devastadores na qualidade, na respeitabilidade e na independência das instituições, o que, como nos foi ensinado e demonstrado no livro “Porque Falham as Nações”, compromete a sua qualidade e independência, reconhecidamente o factor cimeiro do desenvolvimento das nações.

6.Justiça e corrupção – A convivência com a corrupção e a incapacidade – ou a falta de vontade – de prever as consequências, tem minado a qualidade das instituições e da economia, em que o mau funcionamento da Justiça representa um incentivo claro dado ao crescimento e à sustentabilidade da corrupção, nomeadamente no aparelho do Estado. Os contratos do Estado por ajuste directo dão uma ajuda.

7.Energia e ambiente – A incapacidade dos governos em preverem a evolução energética e a sua relação com o ambiente, bem como a opção feita demasiado cedo no caso da energia de origem eólica, de acordo com a conhecida curva dos custos da inovação, bem como a decisão de tratar a questão da energia a nível ibérico em vez de europeu, teve duas consequências e ambas más: um certo vanguardismo ambientalista e custos energéticos mais elevados. Além, naturalmente, da dependência das importações, apesar da valiosa herança que tivemos no caso da energia hídrica.

Estas são algumas das áreas em que a incapacidade de prever o futuro e a cedência aos interesses instalados tiveram efeitos devastadores na modernização e no desenvolvimento da economia e da sociedade portuguesa, o que justifica o nosso atraso em relação aos restantes países da União Europeia, nomeadamente os países do nosso campeonato.

Claro que existem outras razões para o atraso português no contexto das nações europeias, mas a minha convicção é a do maior relevo da ausência de previsão no leque das qualidades necessárias aos dirigentes governativos. O caso dos dirigentes empresariais é diferente, a ausência de previsão paga-se rapidamente na vida das empresas. ■