A fraude na narrativa dos criptocomunistas

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Um olhar sobre os acontecimentos políticos da segunda metade do século passado para cá, e das suas personagens mais relevantes, vai encontrar graves distorções quanto ao real posicionamento político-ideológico, sempre de inspiração comunista ou criptocomunista ou, na melhor das hipóteses, um equivocado esquerdista.

Nos regimes autoritários de direita do século passado, em todo mundo, procura-se vender a ideia de que os ideais do liberalismo democrático eram defendidos por marxistas. Ocorre que estes queriam substituir o autoritarismo na Península Ibérica, no Brasil de Vargas e depois dos militares, pelo totalitarismo comunista, pela ditadura do proletariado. Excluem aqueles que efectivamente foram oposição e acabaram por chegar ao poder, em Portugal, com o Movimento do 25 de Abril, e na Espanha, com a morte de Franco.

No caso português, os comunistas mais organizados chegaram a assumir o poder, praticando as conhecidas arbitrariedades, prendendo, confiscando e “saneando”, eufemismo criado para a perseguição torpe e covarde aos “acusados” de cumplicidade com o regime. Mas a maioria de democratas – entre os que deram apoio ao movimento, estavam nomes consagrados como Sá Carneiro, Galvão de Melo, Francisco Balsemão, António de Spínola e até grandes empresários, como Manuel Vinhas – que nada tinham de esquerdistas. Eles eram democratas e queriam a abertura do regime, para que Portugal pudesse participar de um momento de progresso no mundo, em especial na Europa. E, na economia, receber investimentos das multinacionais em fase de consolidação dos mercados. Nada parecido com o Estado desapropriar empresas, nacionalizar bancos, aceitar a ocupação criminosa de terras agrícolas e muito menos prender e perseguir portugueses que empreendiam. 

Os ingénuos sociais-democratas, que fizeram face ao regime, chegaram a acreditar nas boas intenções dos liderados por Álvaro Cunhal, formado no estalinismo que o fez mais comunista do que português. Mas reagiram a tempo, Mário Soares à frente, com sua inquestionável autoridade, salvando o país da aventura. Com o tempo, Soares ainda teve a decepção de receber a ingratidão dos esquerdistas quando amargou três por cento dos votos na última corrida presidencial que participou. 

Na Espanha, os liberais também saudaram a abertura democrática e a restauração monárquica em aliança com os comunistas e criptocomunistas, do PSOE. O Pacto de Moncloa, avalizado pelos militares, deu bons anos de paz e progresso à Espanha. Mas os experientes e pacientes comunistas foram tecendo a construção da tomada do poder a que assistimos hoje. 

A Espanha vem sendo desfigurada, mas parece que as suas classes médias, a forte burguesia, que a torna num país sólido, começam a acordar para os perigos económicos, sociais e institucionais que correm com a aliança que mantém Sanches no governo. Transitam no poder, de exótica presença, herdeiros de Santiago Carrillo, o herói de Paracuellos e do Cerro de Los Angeles. Refiro-me ao cemitério onde estão os moradores do bairro de Salamanca que Carrillo condenou à morte pelo código postal e ao convento em que se metralhou a cabeça de Cristo, que lá está como testemunha da barbaridade. No Brasil, a queda de João Goulart começa a ser reescrita pelas esquerdas. Procuram mostrar que o perigo comunista foi uma invenção das direitas. Colocam no mesmo saco o grupo sindicalista de apoio a Goulart, de dominação comunista, com seus aliados tradicionais ao centro, oriundos da era Vargas, como o embaixador e banqueiro Walther Moreira Salles, o político Tancredo Neves, o empresário e senador Ermírio de Moraes – rei do cimento e da siderurgia. Estes sempre foram combatidos e o maior expoente intelectual, Santiago Dantas, foi da direita para a esquerda, mas sempre recebido com preconceito por não ser um irresponsável militante. Jango só caiu pela presença na sua intimidade de indiscretos “revolucionários”, apesar de advertido por leais amigos como o jornalista Samuel Wainer.

Agora mesmo está para ser lançado mais um livro sobre a jornalista e personalidade marcante nos anos 1950 e 1960 no Brasil que foi Niomar Muniz Sodré. Mulher adiante de seu tempo, nascida em família de intelectuais e políticos, da Bahia, vem para o Rio, trabalha no “Correio da Manhã” e acaba casada com seu dono, Paulo Bittencourt. Influi nas promoções da carreira diplomática com que gostava de conviver, como o marido, e a arte levou-a a ser a grande mentora do Museu de Arte Moderna do Rio, construindo a sua sede, que é referência na cidade, ao lado do Aeroporto Santos Dumont, cercado por jardins de Burle Max. Mulher de sociedade, amiga da fina-flor do conservadorismo empresarial, de temperamento forte. Na queda de Goulart, os seus dois editoriais no jornal que herdara do marido morto um ano antes, o “Basta” e o “Fora”, nos dias 31 de Março e 1 de Abril, foram decisivos no movimento que, em 48 horas, derrubou Goulart sem nenhuma contestação. A biografia, que virá assinada pelo jornalista e escritor Ricardo Cota, um homem de centro, jovem, vai mostrar a grande brasileira como ela era. Ao romper com os militares, e ser até presa, não foi para implantar a ditadura do proletariado, mas sim reagir ao regime, à censura, aos actos que fugiam às normas da Constituição que vigia no dia 31 de Março. Mas os registros exaltam a guerreira, que enfrentou os militares na ocasião, que chegou a ser presa o que veio a custar-lhe, anos depois, o próprio jornal, como se sua vida se limitasse aqueles anos. Passou uma década em Paris, mas não como exilada sofredora, mas sim morando nas imediações do Trocadero, em apartamento próprio.

A Revolução no Brasil foi quase que uma unanimidade, mas, no seu transcorrer e levado a medidas duras para combater a onda de sequestros e atentados, foi ganhando oposição entre os democratas. Os militares erraram na censura e na eliminação dos direitos políticos, como fizeram com JK, que nada tinha de corrupto nem de esquerdista. Mas as listas sofreram forte influência do “democrata” Carlos Lacerda, que queria eliminar o concorrente, que, anos depois, foi buscar a Lisboa para formar um movimento fracassado, denominado de Frente Ampla.

Todo cuidado é pouco, portanto, no exame do quem era quem na história. ■