Governo: mais do mesmo

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No último texto que publiquei nesta coluna escrevi que em breve teríamos um novo Governo, mas sem a esperança de que isso possa ter alguma influência na qualidade da nossa democracia e possa constituir uma mudança positiva na economia e na sociedade portuguesas. Agora, que já temos um Governo, depois dos atrasos e das habituais incompetências governativas, a minha desesperança não se alterou, pelo contrário, apenas posso confirmar o que escrevi antes, se os portugueses esperam grandes mudanças na qualidade da governação com um novo Governo liberto da “geringonça”, desenganem-se.

A constituição do novo Governo prova-o de forma clara, porque temos a obrigação de saber que as mesmas causas provocam os mesmos efeitos e, neste caso, as causas são muitas, mas em particular a causa de que a grande família socialista dos interesses domina o aparelho do Estado e as condições que lhe foram oferecidas pela maioria absoluta reforçam essa posição.

Coerentemente, a escolha dos membros do novo Governo, ou se os leitores preferirem a remodelação do anterior, teve como objectivo reforçar a unidade do partido e a fidelidade ao chefe, facto não desconhecido de todos os escolhidos, o que mostra, desde logo, a pouca relevância individual de cada ministro, das ideias que possam ter e do seu eventual desejo de afirmação. Penso que cada um dos escolhidos sabe ao que é chamado e no caso de haver, como admito, um ou dois ministros menos conscientes da realidade, esses não chegarão ao fim da legislatura.

O novo Governo não comportará grandes alterações nas políticas, nem evitará que pessoalmente continue a dedicar algumas destas crónicas a enumerar os erros socialistas. A razão reside na falta de qualidade política e técnica de quase todos, associada ao facto do PS, António Costa e, sem dúvida, os recém-chegados à governação, mostrarem grande contentamento com os êxitos obtidos. O que associo à falta de independência de cada um em relação ao PS e ao primeiro-ministro, dependência agora reforçada através de uma ministra fiscalizadora-geral dos bons comportamentos. Aliás, todos sabem que o perfil de um bom ministro para António Costa ficou consagrado na pessoa do ex-ministro Eduardo Cabrita.

Alguns leitores poderão perguntar-se se não seria de bom tom dar algum mérito da dúvida em relação aos novos ministros. Na minha opinião não, porque os erros das políticas governamentais dos últimos anos são conhecidos, os atrasos de Portugal em relação aos outros países europeus estão bem documentados e a ideia de que cada novo governante possa contribuir para a mudança é claramente utópica e só será compreensível através de uma enorme distracção colectiva. Será que alguém pensa voltar atrás com a nacionalização da TAP, dotar a ferrovia portuguesa com a bitola UIC, reduzir os impostos e a dívida, travar as nomeações dos “boys” socialistas, mudar a direcção da economia e reduzir o poder do Estado na sociedade, dotar a educação de exigência, ou combater a corrupção? Pois se alguém pensa isso possível, desiluda-se.

Como tenho dito e escrito, a verdade é o que sobrevive ao tempo, ou seja, aquilo que deixo neste texto aos leitores são apenas convicções, ainda que baseadas em alguma experiência da vida e em algum conhecimento do Partido Socialista. Posso, naturalmente, estar enganado, mas é pouco provável, sendo que ainda espero poder dentro de quatro anos fazer essa verificação.

Para me enganar seria preciso, no plano do PS, que Francisco Assis tivesse sido deputado, que Paulo Trigo Pereira não tivesse sido marginalizado no partido, que para o Governo tivessem sido escolhidos portugueses com provas dadas de conhecimento e de experiência de gestão, nacional ou internacional e, principalmente, que o mérito passasse a ser o critério geral das escolhas e das políticas. No plano mais geral da governação, seria necessária a existência de uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento escrita numa página, em vez das cento e sessenta páginas do novo ministro da Economia, ou seja, uma estratégia clara que os empresários compreendessem.

Acresce o facto de o primeiro-ministro ter como estratégia conhecida para o país o seu sucesso pessoal e o reforço do poder do PS no Estado e na sociedade. Recordo que António Costa defendeu a abertura à esquerda em 2014 com a mesma convicção com que agora deitou pela borda fora o PCP e o Bloco de Esquerda, não para mudar as políticas, mas para aumentar o seu poder. Não contente, meteu no Governo todos os que se possam seguir na direcção do PS, sem nenhuma preocupação de que isso possa prejudicar a qualidade da governação. Por exemplo, há por aí alguém que tenha dúvidas sobre as aberrações ideológicas de Pedro Nuno Santos e dos custos resultantes para a economia portuguesa? O que pensam disso os novos ministros e, já agora, os portugueses?

Infelizmente, os próximos anos não serão de progresso e de desenvolvimento para Portugal. Desde o ano 2000, quando apresentei uma moção ao XII Congresso do PS que colocava a Irlanda como o exemplo a seguir, exemplo que sigo com interesse olhando os índices de desenvolvimento daquele país. Vou continuar a fazer a mesma comparação nos próximos quatro anos e, provavelmente, a ouvir os mesmos queixumes de que a Irlanda é um caso especial. Especial em quê? Em ser um país bem governado, com elevados níveis de exigência e elevado sentido democrático? O que é que nós, portugueses, temos de diferente dos irlandeses? E, já agora, dos países bálticos, dos checos, dos húngaros, dos polacos e dos eslovacos? Já não falo dos alemães, dos suecos, dos holandeses e dos belgas.

O Partido Socialista não responde a nenhuma destas questões, vive a sua própria bolha de protecção na comunicação social para o poder ou querer fazer. O novo Governo, pelas razões da sua própria existência, também não responderá a nenhuma destas interrogações, ou seja, ninguém responde pelo atraso português no contexto europeu, Presidente da República incluído, apesar das enormes somas de dinheiro recebidas de Bruxelas. Vamos continuar a viver da caridade europeia e até quando?

Como escrevi antes, a certeza é a de esperar que o tempo venha a melhorar a claridade da visão de muitos portugueses acerca do seu futuro. Não vejo alternativa possível. ■