Pensar a mundialização (I)

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I. Blocos geopolíticos versus geolinguísticos/culturais – tese: historicamente, os blocos geolinguísticos/ culturais resistem mais à erosão do tempo do que os blocos estritamente geopolíticos, alicerçados em meras afinidades ideológicas circunstanciais.

II. A Lusofonia enquanto bloco geolinguístico/ cultural – autor de referência: Vamireh Chacon (O futuro político da lusofonia, Lisboa, Verbo, 2002). Nesta sua obra, o filósofo brasileiro Vamireh Chacon começa por salientar a importância da cultura – “a cultura é o que somos, a seiva do que fazemos” (p. 40) –, no âmbito de uma reflexão particularmente lúcida sobre o fenómeno, tão contemporâneo, do multiculturalismo: “Sem eixo integrador de rotação cultural centrípeta, denominador comum, dispersam-se as contribuições multiculturalistas e fragmentam-se” (p. 24). Aludindo, em contraponto, às “brechas da entropia produzida por excessivo fechamento” (p. 30), Vamireh Chacon afirma pois o primado do eixo cultural sobre os eixos político, económico e social, afirmação que não poderia ser, nos dias de hoje, mais pertinente. Daí, de resto, a sua caracterização dos grandes blocos transnacionais, que qualifica como “macroblocos geoculturais” (p. 41) e linguísticos, dado que, como expressamente defende: “mais que blocos religiosos, como pretende Samuel P. Huntington, preocupado como estado-unidense com o fundamentalismo islâmico, o mundo do século XXI tende a também, e ainda mais, a congregar-se em blocos linguísticos” (p. 133). Daí, em suma, todo o fundamento da Lusofonia enquanto macrobloco geocultural e linguístico – como escreveu, num outro texto: “A actual globalização tende ainda mais a girar em torno de blocos linguísticos (…). A resposta lusófona, ou seja, a nossa resposta, é a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.” (in Luso-tropicalismo: uma teoria social em questão, Lisboa, Vega, 2000, pp. 35-36).

III. A Lusofonia enquanto “pátria ecuménica da nossa língua” – autor de referência: Agostinho da Silva. Num texto publicado no jornal brasileiro O Estado de São Paulo, com a data de 27 de Outubro de 1957, o filósofo português Agostinho da Silva havia já proposto “uma Confederação dos povos de língua portuguesa”. Num texto posterior, de 1974, chegará a falar de um mesmo povo, de um “Povo não realizado que actualmente habita Portugal, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, o Brasil, Angola, Moçambique, Macau, Timor, e vive, como emigrante ou exilado, da Rússia ao Chile, do Canadá à Austrália” (“Proposição”, in Dispersos, Lisboa, ICALP, 1989, 2ª ed., p. 117]. Daí ainda o ter-se referido ao que “no tempo e no espaço, podemos chamar a área de Cultura Portuguesa, a pátria ecuménica da nossa língua” (“Presença de Portugal”, in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Âncora, 2000, vol. I, p. 139), daí, enfim, o ter falado de uma “placa linguística de povos de língua portuguesa — semelhante às placas que constituem o planeta e que jogam entre si” (in Dispersos, ed. cit., p. 171), base da criação de uma “comunidade” que expressamente antecipou: “Trata-se, actualmente, de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica” (ibidem). ■

Agenda MIL – 9 de Abril, 15h30m, na Biblioteca Municipal de Sintra: Encontro Literário Portugal-Brasil.