A vitória da democracia

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Nem nos meus melhores sonhos previ a semana passada o movimento mundial de solidariedade para com o povo ucraniano a que estamos a assistir, nem a resistência e a competência heroicas dos ucranianos na sua luta contra a barbárie de Putin. Como não podia prever a unidade gerada entre todas as democracias do globo e dos cidadãos individualmente, o que tornou mais evidente o isolamento dos poucos países de ditadura. Com a surpresa da Índia se ter deixado isolar com o seu voto de abstenção no Conselho de Segurança da ONU, um facto a ter em conta no futuro.

Também não podia prever que a Suíça, a Finlândia, a Suécia, a Polónia, a República Checa e a própria Alemanha saíssem com notável coragem das suas posições tradicionais para enfrentar corajosamente o inimigo comum. Não posso, contudo, deixar de assinalar que essas posições de unidade dos países e o comovente movimento de apoio popular à Ucrânia e ao seu Governo têm muito de emocional, o que, sem querer desvalorizar o valor das emoções na vida dos povos, obriga os dirigentes políticos das democracias mundiais a compreender os perigos de uma guerra nuclear e a terem a consciência que caminham sobre um terreno minado de racionalidade duvidosa.

É por isso essencial não penalizar o povo russo e evitar a pressa de adicionar sanções em cima de sanções, num movimento ascendente que resulta demasiado da emoção popular criada. Por exemplo, considero duvidosa a vantagem de nesta fase bloquear as reservas financeiras do estado russo localizadas no Ocidente, que é para todos os efeitos dinheiro de todos os cidadãos russos, ricos e pobres. Como não vejo vantagem em mexer imediatamente no sistema bancário “Swift” e de forma tão pouco pensada, no momento exacto em que é evidente o desconforto de milhões de russos com a guerra. Como escrevi antes, o grande objectivo das democracias para combater o perigo de uma guerra nuclear reside na democratização dos países e em particular da Rússia, só possível com a colaboração activa dos seus povos. Pelo contrário, as democracias dão um sinal de verdadeira superioridade democrática se prescindirem do petróleo e do gás russo.

Igualmente, não vejo nenhuma vantagem em censurar as redes de propaganda de Putin, ou de recear a sua divulgação, na medida em que não devemos duvidar da vitória da verdade sobre a mentira, da democracia sobre as ditaduras. Sabemos que o povo russo passou do grande engano do comunismo soviético para o não menor engano do nacionalismo imperial de Putin, mas o nosso objectivo, como sociedades democráticas, é fazer junto do povo russo a pedagogia dos valores democráticos.

Agora, apesar da heroicidade do povo e do Governo ucranianos e da surpresa do exército russo estar a ser contido próximo das suas fronteiras, não devemos ter ilusões sobre a determinação de Putin em prosseguir os seus objectivos, para o que tem a seu favor uma poderosa máquina de guerra. Sabemos também que a unidade dos povos e as emoções das gentes mudam com as derrotas, sendo provável que possamos assistir a uma longa luta de guerrilha na Ucrânia, mas a realidade mais imediata é um novo governo fantoche. Será o momento em que algumas vozes se voltarão, como já acontece por aí, contra os chamados erros e fraquezas da União Europeia e contra os chamados interesses do grande sistema imperialista e armamentista dos Estados Unidos. Na prática, são dúvidas sobre as qualidades da democracia e a justificação de Putin.

Por outro lado, as democracias não podem cometer o erro de pensar que a retórica nuclear de Putin é apenas propaganda, ou que aqueles que o rodeiam terão a sensatez necessária, havendo sempre a possibilidade de um erro de cálculo. Quando o que está em jogo é uma guerra nuclear, justifica-se usar a força que se tem de forma tão inteligente e razoável quanto necessário, sem vanguardismos perigosos e porventura apressados. A fase seguinte desta guerra precisa de inteligência, de unidade e de um enorme sangue-frio.

Mas não haja dúvida, Putin perdeu a batalha da opinião pública mundial e segue-se agora saber o que fará a China. Trata-se de um enorme capital acumulado em apenas uma semana pelas democracias nesta primeira fase da guerra, o que representa um valor incalculável a preservar. As manifestações no interior da Rússia contra a guerra e a coragem já demonstrada por muitos cidadãos russos, as decisões assumidas por praticamente todas as organizações desportivas e instituições políticas e culturais do globo, são o maior trunfo para a construção da paz. Façamos, pois, o possível para evitar o que possa comprometer esse grande movimento humano e ressuscite os fantasmas da dúvida, através de decisões apressadas, ou menos ponderadas, seja da União Europeia, seja dos Estados Unidos.

Finalmente, continuo a não compreender, nestes tempos de perigo real para a humanidade, a posição de muitos comentadores políticos, e até de amigos que muito estimo, na insistência sobre os erros cometidos pela União Europeia e pelos Estados Unidos no passado, erros em alguns dos casos incontroversos, mas quando a verdadeira questão é a de saber de que lado estamos, não pode haver dúvidas. Quando penso nisso, acredito que não podemos, nem devemos, assumir dúvidas sobre o que está em causa quando um ditador com uma prática sanguinária conhecida nos ameaça com o seu poderio nuclear. “First things first”, é o que nos pode orientar neste tempo de grandes perigos para prosseguir na defesa da paz com um mínimo de dúvidas existenciais e de desvios de pensamento imobilizantes. Aliás, não deveria haver razões para duvidar quando os povos do mundo, de todos os credos e ideologias, nos estão a indicar o caminho.        

Assim, não subestimemos os perigos que estão à nossa frente com qualquer especulação intelectual, as gerações futuras não nos perdoariam. Com cabeça fria, apoiemos os ucranianos em tudo o que for possível na sua previsível caminhada para os infernos, permitindo-nos ter sempre algum tempo para pensar ao longo do caminho.

No plano nacional, o PCP está a ser atacado nos meios de comunicação, porventura excessivamente, pela posição que assumiu nesta guerra, sabendo-se que a mesma posição existiu no passado, desde a invasão da Hungria à invasão da Checoslováquia, como relativamente às anteriores expansões da Rússia de Putin. Não há sobre isso nenhuma novidade. Já a posição oportunista assumida pelo Bloco de Esquerda, que sabemos não representa a sua ideologia e a sua prática política relativamente à União Europeia, à NATO e aos Estados Unidos, é apenas uma camuflagem pouco convincente e bem mais perigosa. Pessoalmente, prefiro a coerência do PCP, pelo menos sabemos com o que poderemos contar. ■