A força do gigante

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Vivendo cautelosa saída das restrições à abertura da economia, industrial, serviços, turismo e comércio, o Brasil revela ser um país diferente pelas suas características, na dimensão territorial, na diversificação de sua economia, na imensa população que o faz ter um formidável mercado interno, apesar da má distribuição da riqueza. Tem a maior renda per capita da América Latina – 11 mil dólares –, sendo que Portugal tem o dobro desta renda.

Por essa série de particularidades, estima-se que as perdas no PIB deste ano de pandemia fiquem entre 5% e 6%, quando a União Europeia deve ficar entre cerca de 9% a10%. O programa de amparo à população mais pobre foi o maior do mundo e ainda não terminou. As contas públicas vão sofrer muito este ano, pois o auxílio conhecido como “coronavoucher” atingiu a mais de 50 milhões de pessoas, com a entrega por cinco meses, até agora, de cheques entre 100 a 200 euros mensais. O governo já identificou mais de 600 mil pessoas que pediram e receberam, fora do que foi acordado por lei. Inacreditável, mas, entre os 600 mil, quase a metade é de funcionários públicos, sujeitos agora a punições. Mas, pela sua dimensão, o programa foi um sucesso. Assim como medidas legais para a garantia de empregos, como a suspensão provisória de contratos, sem ónus para o empregador, mas com o compromisso de retomar os contratos em breve.

Alguns indicadores são animadores, como o consumo de combustíveis automotivos, que caiu pouco para as restrições de mobilidade da pandemia. E as vendas no comércio alimentar se mantiveram estáveis em todo o país, sem faltar nada nas prateleiras dos supermercados.

As próximas semanas devem ser decisivas no que toca às reformas que possam facilitar a geração de empregos e o investimento privado. A equipe económica luta para conter despesas públicas, pois o governo, nos seus diferentes níveis, custa ao país 40% do seu PIB, o que é um absurdo. Com a pandemia, todos perderam, menos a máquina dos governos, com altos salários garantidos. O ganho dos governos, todos endividados, ficou por conta da baixa nos juros, os menores da história.

Contas a serem corrigidas são muitas e grandes. Só para segurar as empresas distribuidoras de energia eléctrica, o governo aportou mais de dois mil milhões e meio de euros. O mesmo valor foi repassado às administrações regionais e municipais para compensar a perda de receita até 30 de julho. Um monumental esforço para que a crise não gerasse problemas sociais graves. E mesmo assim, com a popularidade recuperada, os ‘Media’ batem implacavelmente no Presidente e no governo.

Agora o debate é a execução do programa económico pós-pandemia. O ministro da Economia, Paulo Guedes, acredita que, conseguindo atrair investimentos privados, internos e internacionais, o ano que vem já será animador. Pretende deixar para o investimento público apenas um mil milhões de euros, o que a ala “desenvolvimentista” do governo acha muito pouco. Mas, fora deste realismo, os riscos serão imensos. Inclusive políticos.

Existe musculatura para reagir bem, mas talvez falte o senso de responsabilidade aos políticos, no Parlamento, no sentido de aprovar e rapidamente as alterações que tornam o Brasil um país com ambiente perigoso para negócios pela insegurança jurídica, leis laborais, impostos que precisam ser simplificados desde logo, para depois ampliar a base para não aumentar a carga que já é grande, na casa dos 37%.

Tudo pode acontecer, mas as chances de melhorar estão colocadas e o aumento da popularidade do governo e do presidente mostram isso. ■