A culpa morre solteira

“Os lares portugueses, de Norte a Sul do País, transformaram-se na sala de espera da morgue. A indiferença do Governo, fria e chocante, é a razão para que centenas de idosos tenham morrido e estejam a morrer antes de tempo, longe das famílias e sem os cuidados necessários, vítimas indefesas de uma doença terrível e de um Governo enorme, mas incapaz”

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A polémica sobre as mortes e a desorganização no lar de Reguengos de Monsaraz tem provocado a indignação de muita boa gente, mas também muita hipocrisia, não apenas do Governo mas também de alguns partidos e de alguns meios de comunicação. Como habitualmente, esconde-se o essencial para tentar enterrar o assunto num jardim repleto de virgens, cada uma empunhando a sua razão primeiro e a sua justificação depois. Uma das virgens é obviamente o Primeiro-Ministro.

Infelizmente, o essencial é que os idosos são as vítimas, carne para canhão do sistema de lares públicos, instituições sociais e privados. Segundo parece, só nestes últimos haverá mil ilegais. Trata-se de uma selva, que há muito vive graças à indiferença dos governos, incapazes de colocar alguma ordem no sistema e, já agora, alguma decência. 

Recordo a notícia que já leva alguns meses em que a proprietária de um lar privado, onde os utentes dormiam amontoados no chão, era avisada da data prevista para a fiscalização da Segurança Social, levando nesses dias alguns doentes para casa. Esta notícia desapareceu rapidamente de circulação, mas não me espantaria que seja um modelo de corrupção devidamente organizado. Se existe tanta corrupção um pouco por todo o lado, se nada acontece na esmagadora maioria dos casos, se o Primeiro-Ministro e o Governo convivem tão bem com os corruptos, porque não na Segurança Social onde, aliás, são conhecidos outros casos?

Neste lar de Reguengos, como em todos os outros casos semelhantes, a estratégia do Governo é procurar controlar a informação, lançar dúvidas sobre o que realmente se passou, não responder, ou lateralizar a resposta a perguntas feitas de forma directa e, se tudo falhar, mentir. Neste caso de Reguengos, o Governo e o Primeiro Ministro já fizeram tudo isso. 

Não por acaso, António Costa já tem oficialmente a trabalhar consigo, no seu gabinete, o ‘spin doctor’ favorito de José Sócrates, o plantador de notícias nos jornais e nas redes sociais. Vítor Escária, aliás, andou sempre próximo do Primeiro-Ministro, oficiosamente; a relação foi oficializada agora apenas porque o Primeiro-Ministro deixou de se preocupar com as relações pouco edificantes de Vítor Escária com a Justiça, nomeadamente no processo Marquês. Para quê esconder? O PCP e o Bloco já não se preocupam com estas minudências, estão no papo, a Assembleia da República faz parte desse tipo de esquemas e o senhor Presidente da República anda ocupado em fazer de conta que não é candidato na próxima eleição presidencial, em desmobilizar os potenciais opositores e em ir à final da Liga dos Campeões, onde pode ser vista pelo mundo inteiro. Aliás, o senhor Presidente da República ainda nem se deu conta de que em Portugal existe corrupção e que o nosso regime político há muito deixou de ser uma verdadeira democracia.

Rui Rio acaba de acusar o Governo de “coarctar a liberdade de imprensa”. Aparentemente, também só agora se deu conta de que o Governo financia os órgãos de comunicação amigos e que limita o acesso às conferências de imprensa, nomeadamente do Conselho de Ministros e da Direcção-Geral de Saúde. Pudera, nada de perguntas difíceis, como, por exemplo, porque morreram 18 pessoas em Reguengos de Monsaraz? Qual a razão por que não havia assistência médica? Porque não estavam a tomar os seus remédios habituais? Porque é que os lares portugueses, de Norte a Sul do País, se transformaram na sala de espera da morgue? 

O Governo não gosta de perguntas difíceis, seja qual for a razão. Podem as razões ser os lares, a ferrovia, a TAP, a SATA, o Novo Banco, o lítio, o hidrogénio, os contratos por ajuste directo, as rendas pagas à EDP, o excesso de energia eólica, o mais caro custo da energia da Europa, ou porque estamos no fim da lista dos países mais pobres da União Europeia. Pessoalmente, já tenho uma já longa experiência de escrever a governantes sem obter resposta. Exemplo: o ministro Pedro Nuno Santos sobre a questão da ferrovia, sem que ele, que se diz cansado de debater a questão da bitola, responda como pensa fazer a ligação à Europa com a bitola ibérica. Este é, aliás, um sintoma do autoritarismo que, pouco a pouco, vai subvertendo o regime democrático. 

Em Reguengos de Monsaraz também ninguém gosta de perguntas difíceis. Neste concelho alentejano, tudo que tem cargo político ou administrativo é do PS, onde o Presidente da Câmara também é o responsável pelo lar da Fundação Maria Inácia Nogado Perdigão Silva, mas também os vereadores e demais serviços. O culpado deve ser Darwin e a lei de selecção natural.

Aparentemente, não passa pela cabeça de António Costa, dos ministros, secretários de Estado e directores-gerais que a questão dos lares é um enorme problema nacional há muitos anos. Um problema que não se resolve com mais quinze mil funcionários, nem com mais dinheiro, nem com mais remendos. Precisa-se de uma reforma total do sistema dos lares, mas também dos serviços de cuidados paliativos entregues, estupidamente, aos hospitais do SNS. 

Que tal formar verdadeiros profissionais em vez de pessoal amador ou boys do partido? Que tal fazer cumprir as leis e acabar com a ilegalidade? Que tal terminar com a promiscuidade de cargos públicos com funções empresariais e todo o tipo de cargos que criam cadeias de interesses partidários? Que tal dar liberdade às instituições da sociedade, com regras claras sempre que haja financiamentos do Estado e um controlo efectivo da qualidade dos serviços prestados? Que tal separar o trigo do joio e reconhecer o mérito das instituições de qualidade e das pessoas que dedicam aos idosos o melhor das suas vidas? Que tal acabar com a corrupção?

O Primeiro-Ministro ainda se não deu conta de que, apesar dos seus esforços para defender o princípio nacional de que a culpa morre solteira, a Justiça não tem mãos a medir e há cada vez mais gente com cargos públicos a contas com a Justiça, em que a maioria são socialistas. Não admira, estão há mais tempo no poder.

No início da pandemia, quando começou a ser visível que os lares constituíam o maior foco de infecção, escrevi que a solução seria colocar em hotéis e pousadas, em quartos individuais com casa de banho, com condições de isolamento, os idosos que nos lares dormiam em camaratas e sem condições mínimas de higiene. Era a solução óbvia, dado o desaparecimento dos turistas e os hotéis fecharem ou entrarem em regime de receber subsídios do Estado para manterem os empregos. Logo, mais do que indicados para fornecerem esse serviço, com a colaboração do seu próprio pessoal e do pessoal saudável existente nos lares. A indiferença do Governo, fria e chocante, é a razão para que centenas de idosos tenham morrido e estejam a morrer antes de tempo, longe das famílias e sem os cuidados necessários, vítimas indefesas de uma doença terrível e de um Governo enorme, mas incapaz.

Infelizmente, em Portugal tudo é caracterizado como erros de gestão e crime é apenas quando alguém mata a tiro um seu semelhante. Nos governos, nos lares, na administração pública, nas empresas públicas e nos bancos, são cometidos crimes contra a vida e o bem-estar dos cidadãos e, não poucas vezes, contra a economia nacional, caracterizados, falsamente, como erros de gestão. Trata-se de um forte incentivo à corrupção e à incompetência de governantes, dirigentes e gestores. Uma primeira razão para a culpa, entre nós, morrer solteira. ■