A matriarca brasileira e amiga de Eça e Ortigão

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Símbolo do que se convencionou no Brasil a chamar de família “quatrocentona”, quando do IV Centenário de São Paulo, D. Veridiana Prado marcou seu tempo como uma mulher que comandou uma importante família e seus negócios, com muita personalidade e talento.

Filha, neta, sobrinha de titulados do Império, casou-se com um tio, dentro da política da família de incentivar casamentos que não dividissem os interesses económicos que formavam a maior fortuna brasileira da época. Foram os maiores cafeicultores, accionistas de caminhos de ferro, da primeira grande indústria de vidros e cristais do país – hoje da Saint Gobain – e banco. No último quartel do século IXX, usou de seu poder de mando na família para deter a concentração no café, nos seus anos áureos, prevendo que a lavoura tinha seus ciclos e que dependiam muito de Deus dar mais ou menos chuvas, mais ou menos calor ou frio.

Na ocasião, as mulheres da elite eram chamadas de “Madame”, pela influência de Paris nos paulistas, mas ela fazia questão de ser chamada de Dona Veridiana. Foi a primeira mulher a comandar negócios e a ir ao teatro e ao comércio sozinha. As mulheres vivam recolhidas em suas casas e saíam em público com “damas de companhia” ou com os maridos. Construiu o primeiro palacete estilo francês do bairro Higienópolis, na rua que hoje leva seu nome e sedia o Iate Clube de Santos, em sua sede paulistana. A Princesa Isabel esteve mais de uma vez na casa, onde eram frequentes intelectuais, amigos do filho Eduardo, como o Barão do Rio Branco, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e Ramalho Ortigão, numa de suas viagens ao Brasil.

Criou os filhos em convívio estreito, e teve no genro (e primo) Elias Pacheco e Chaves um braço direito nos negócios da família. A filha Ana Blandina, casada com o diplomata Antônio Pereira Pinto Filho, de ilustre família nobre, morava em Paris, cuidando dos negócios da família na Europa, enquanto o marido servia na representação brasileira, onde era mantido pela influência política dela. Antônio dedicou-se à política, e foi senador e presidente da Câmara de São Paulo por dez anos, tendo criado as bases da São Paulo moderna. 

A visão do filho Antônio Prado o fez prever a Abolição e lançar o movimento pela atracção da mão de obra paga da Europa, e criou uma sociedade que trouxe ao Brasil, especialmente a São Paulo, cerca de cem mil  imigrantes, principalmente  italianos, que deram maior produtividade à lavoura cafeeira e se espalharam em inúmeros negócios na fase inicial da industrialização. Caio, o filho marxista, morreu cedo, de febre amarela, e Fábio foi presidente da Câmara de São Paulo, casado com Condessa Renata Crespi – título obtido pelo Duce junto ao Rei Vitorio Emanuelle. Eles doaram à cidade sua casa na hoje Avenida Faria Lima, denominada Museu da Casa Brasileira. Prado Júnior, seu neto, foi Presidente da Câmara do Rio de Janeiro.

Mas o filho predileto e especial foi Eduardo, fundador da Academia Brasileira de Letras e que viveu dez anos em Paris, num imóvel de três andares, nas arcadas da Rue de Rivoli, onde recebia o que havia de melhor no Brasil, como em Portugal. Ali ficava, em suas viagens a Paris, com o amigo, desde Lisboa, Ramalho Ortigão e, principalmente, com o quase irmão Eça de Queiroz. Sua maneira de ser,  muito parecida com Jacintho de Thormes, personagem de A Cidade e as Serras, durante muito tempo foi tida como a inspiração, até que se concluiu que seria uma mistura do próprio Eça e de seu amigo a quem chamava de “o bom Prado”, 15 anos mais moço. Veridiana, em suas viagens a Paris, conviveu bem com Eça e sua família, assim como com Ortigão.

Não se fazem mais mulheres assim!!! ■