António Telmo, uma década depois (II)

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Nunca fui muito próximo de António Telmo – falei apenas algumas vezes com ele, em encontros públicos e por telefone. Numa dessas vezes, lembro-me de ele ter dito: “Eu gosto profundamente de Portugal e quero poder dizê-lo”. 

Sem o saber – ou melhor: sabendo-o perfeitamente – foi nesses momentos que António Telmo foi mais universal: nos momentos em que mais se assumiu como português, nos momentos em que mais se assumiu – usemos o termo maldito – como “patriota”.

Apesar de “patriota”, nunca António Telmo se coibiu de denunciar – com aquele seu característico sentido de humor, simultaneamente terno e sarcástico – os males da Pátria. Corrijo: precisamente por ser “patriota”, nunca António Telmo se coibiu de denunciar – com aquele seu característico sentido de humor, simultaneamente terno e sarcástico – os males da Pátria.

Com efeito, só os patriotas têm o direito – direi até: o dever – de denunciar esses males. Dos não patriotas, ou dos patriotas que, por qualquer complexo, antepõem sempre um qualquer prefixo, podemos ouvir as mesmas denúncias dos males da Pátria – por vezes, por acaso, com as mesmas palavras, mas nunca, nunca mesmo, com o mesmo sentido.

É que um patriota, sem complexos ou prefixos, quando denuncia os males da Pátria, fá-lo de forma amorosa, construtiva. Ao invés, os outros denunciam para mais rapidamente poderem destruir. As palavras, como disse, podem até ser, circunstancialmente, por coincidência literária, as mesmas, exactamente as mesmas. Mas o sentido não poderia ser mais diverso. Na verdade, se humanamente se pode falar de verdade, têm um sentido oposto.

Poucas pessoas conheci que fossem tão simultaneamente amantes da nossa Pátria e tão cáusticas quanto aos seus males – aos nossos males. Sim, porque António Telmo nunca se punha de fora quando falava de nós – por mais cáustico que fosse. Talvez por isso fosse – mesmo quando era cáustico; corrijo: sobretudo quando era cáustico, tão cáustico como só ele sabia ser – tão terno, tão Telmo. Daí, de resto, a ideia de Pátria em António Telmo. ■

* Para a Revista NOVA ÁGUIA nº 26, que irá evocar António Telmo, dez anos após o seu falecimento. Caso queira participar, deverá enviar-nos o seu texto até final de Junho.