Amizade com categoria

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Um olhar sobre as relações do Brasil com Portugal no século passado mostra a força da união dos dois povos e a qualidade de seus homens públicos e dos seus contemporâneos que passaram pelo poder. Estadistas de qualidade e uma elite que não se aproveitava da proximidade com o poder. 

Os anos Vargas, no Brasil, coincidiram com os de Salazar, em Portugal. Nunca se falaram, mas respeitavam-se e admiravam-se. E, nos dois países, os embaixadores eram a nata da diplomacia. Quando Plínio Salgado, líder integralista e intelectual brasileiro viveu em Portugal, exilado, de 1938 a 1945, apesar das afinidades ideológicas e até religiosas – é o autor da mais editada “Vida de Cristo” em português –, nunca foi recebido por Salazar, que não queria eventualmente contrariar Getúlio Vargas. Este, por sua vez, fez o Brasil presente com grande pompa na Exposição do Mundo Português, em 1940.  

No governo de Juscelino Kubitscheck, deu-se a maior recepção popular da história a um governante estrangeiro, na visita do Presidente General Craveiro Lopes ao Brasil, com mais de cem mil pessoas para o saudar na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. E visitar Portugal tornou-se uma rotina dos presidentes, desde  Café Filho. 

Em 1972, foi o presidente Américo Tomás quem levou, num barco da Marinha de Portugal, os restos mortais de D. Pedro I do Brasil, por ocasião dos 150 anos da Independência. Foi recebido pelo presidente Emílio Médici, o mais popular da República, quando fez o Brasil crescer a mais de 10% ao ano. 

Marcelo Caetano, que desde sempre teve amigos e admiradores no Brasil, onde já havia feito mais de uma viagem de carácter particular, quando primeiro-ministro, em 1969, foi ao Rio de Janeiro receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em solenidade que contou com a presença do ministro da Justiça e eminente jurista professor Gama e Silva, que mais tarde veio a ser embaixador em Lisboa. Marcelo estava acompanhado do ministro Franco Nogueira e foi recebido ainda pelo governador do Rio, Negrão de Lima, antigo embaixador em Lisboa e que, anos depois, o acolheu quando do exílio. O embaixador de Portugal era José Manuel Fragoso que, depois do 25 de Abril, veio morar no Rio. E houve um grande almoço no Iate Clube do Rio de Janeiro. 

Na ocasião, ocorreu uma regata no âmbito dos jogos luso-brasileiros, em que estavam presentes, entre os velejadores portugueses, Mário Quina, José Quina e Borges Costa. Foi lançada a ideia de uma regata Lisboa-Rio, que infelizmente não prosperou. 

Com o 25 de Abril, os governantes depostos pelo movimento de inspiração comunista, o presidente Américo Tomás e o primeiro-ministro Marcelo Caetano, vieram morar no Rio. E portugueses notáveis escolheram o Brasil, como o professor Baltazar Rebelo de Sousa, os ex-ministros Rui Patrício e Almirante Henrique Tenreiro, Maria Teresa Lago, secretária de saúde  e depois Juíza Federal no Brasil, empresários como Alfredo e Carlos Alves, Manuel e Mário Vinhas, António Champalimaud, Adriano Moreira, ex-ministro, Rui Patrício, juristas como Inocêncio Galvão Teles, Alberto Xavier, Assis de Almeida. Todos os homens públicos precisaram trabalhar para viver, excepto o presidente Tomás que, por causa da idade, foi ajudado por ilustres membros da comunidade portuguesa. Logo depois, foi o presidente General António de Spínola que veio viver no Rio. 

Vale recordar esses factos e personagens com o sentido de mostrar que as duas sociedades precisam voltar aquela qualidade de homens, de mãos limpas, calejadas pelo trabalho, com nível cultural para que possamos construir uma comunidade como a que nossos antepassados sonharam nos legar.

A integração na economia depende da vontade política dos governos, pois o resto virá por si. ■