Entreposto brasileiro em Portugal

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Um antigo projecto dos anos 1970 volta a ser cogitado no Brasil para uma parceria com Portugal na criação de armazéns brasileiros, inclusive frigorificados, próximo a um porto português, para estoque de produtos brasileiros a serem vendidas com entrega no curto prazo na União Europeia. 

A ideia nasceu de Delfim Netto, então Czar da economia brasileira. O homem esteve à frente dos setores económico, financeiro e do planejamento nos governos Costa e Silva, Médici e João Figueiredo. Sob seu comando, o Brasil passou a dar atenção às exportações, que até então estavam limitadas ao café, milho, algodão, minério de ferro e quase nada de manufaturados. 

Deve-se à política económica desenvolvimentista, que incrementou no governo Costa e Silva, a explosão no mandato do presidente Médici, nos anos conhecidos como “milagre brasileiro”, em que as taxas de crescimento ficaram entre os nove e os 12%. Infelizmente, os rumos da política levaram à eleição do presidente Geisel, que era centralizador, estatizante e colocou a perder todos os esforços anteriores. 

Agora, com a pauta de exportações altamente diversificada e o Brasil tendo um superavit na casa dos 20 mil milhões de euros, o projecto poderia ser muito mais amplo e beneficiar também Portugal, uma vez que os produtos seriam entregues por transportadoras portuguesas e teriam algum tipo de tributação que atendesse aos dois países. Além da geração de empregos.

O desdobramento do projecto seria a montagem, em Portugal, de bens de consumo brasileiros, incluindo a indústria automotiva, que o Brasil tende a ter certa capacidade ociosa com a diminuição do mercado argentino – até aqui o principal destino das exportações do sector. E o polo da Zona Franca de Manaus possui, nos veículos de duas rodas, uma produção entre as cinco maiores do mundo. 

Na esteira deste projecto, estaria a volta da presença de bancos brasileiros, hoje limitadas a pequenas operações de câmbio pelo Banco do Brasil e Itaú, que fecharam agências. O Bradesco, o segundo maior brasileiro, deve abrir, este ano, seu escritório ou agência em Portugal, assim como o controvertido BTG. 

Em havendo interesse dos governos, a integração poderá se dar a nível comercial e empresarial, pois, até aqui, prevalecem as identidades dos dois povos. Aliás, os brasileiros já fazem de Portugal o segundo destino turístico e da TAP uma verdadeira empresa brasileira, na medida em que são mais de 70 os voos semanais, sendo 15 do Rio de Janeiro. 

As duas economias e posições estratégicas podem fazer florescer um instrumento de geração de riqueza e de bons empregos a ambos os países. Na contrapartida, o Brasil pode ser a ponta de lança de produtos portugueses na América do Sul. ■