O coronacaos argentino

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A Argentina está de novo diante de uma crise gravíssima, sem pagar as dívidas renegociadas pelo governo anterior e sem diálogo com os credores. Depois de anos sem pagar nada, o país volta a pedir moratória de três anos, juros de 0,5% ao ano e extensão de prazo. Inacreditável por se tratar de país rico, diferente do panorama latino-americano em todos os sentidos.

A população tem o perfil europeu, majoritariamente de procedência espanhola, italiana e alguma coisa do Leste, especialmente de origem israelita. A presença indígena não passa de 15% e a africana é insignificante. Poucos analfabetos, e a pobreza só bateu às portas de parte da população, que foi de classe média. Nos últimos 20 anos, quase todos sob o domínio peronista, em sua versão moderna, com o casal Kirchner, cercado de denúncias de corrupção, e ela agora vice-presidente, o quadro foi se agravando. O peronismo é uma força política populista, com viés esquerdista, que vem corroendo o potencial do país.

Perón foi um militar que governou durante nove anos, foi deposto, em 1955, e voltou, em 1974, eleito e tendo como vice a sua terceira mulher, Isabelita, que era panamenha e assumiu a Presidência com sua morte, em 1976. Perón não era de esquerda, foi o grande amigo de Franco na crise alimentar vivida pela Espanha no pós-guerra, fornecendo navios de cereais “para acerto futuro”. A visita de Evita Perón a Madrid, em 1947, foi a maior manifestação popular da história da Espanha. Boa parte dos anos de exílio foram passados no país. Quando da criação da ONU, e a Espanha foi vetada pela Rússia, a Argentina e o Brasil foram os dois votos favoráveis ao governo de Franco.

O peronismo se manteve por décadas, interrompido por um governo conservador e pelos anos da ditadura militar, que, ao enfrentar grupos revolucionários treinados em Cuba, foi levada a cometer violências. Um dos membros da Junta Militar foi assassinado em sua casa, o Almirante Aramburu, mas a história vem registrando mais as reações dos militares do que os actos de violência da oposição revolucionária. O que sustentou anos de despesas sociais e ganhos salariais dos trabalhadores foi a produtividade de sua agricultura e pecuária. A carne argentina era a mais valorizada dos mercados; a fruticultura, de qualidade; os vinhos, em alta no mercado americano e brasileiro; a soja ocupava o terceiro lugar, embora distante do Brasil e EUA. No sector de energia, o país chegou a ser auto-suficiente em petróleo e gás, o que já é, mais ou menos, no modelo venezuelano, em que a empresa petrolífera estatal, sempre com má gestão, e as estrangeiras deixaram o país com o sucessivo congelamento de preços, independente das cotações do Peso e do próprio petróleo. Agora pode ter um pequeno superávit, pois está explorando gás extraído do xisto, como fazem os norte-americanos. 

Com o crescimento e a qualidade de outras economias da região, com os mesmos produtos, como Brasil, Chile e Colômbia, a Argentina foi perdendo terreno. Mesmo assim, é a terceira economia latino-americana, depois de Brasil e México, mas com maior renda ‘per capita’. Não fosse a política de forte influência sindical-peronista, seria uma das maiores, melhores e mais justas entre as economias ocidentais. Se este tipo de política de gastos e dívidas não pagas é grave em um país rico, imagine em outras nações, que tendem a esta opção política. A crise agora é global. 

A crise argentina afecta o Brasil na medida em que o país está entre os seus três maiores parceiros comerciais, especialmente no acordo automotivo em que os veículos circulam nos dois países sem taxação. É preocupante a evolução da crise, com a indústria sem investimento em tecnologia há muitos anos e uma carga fiscal pesada para a agricultura. Com isso, “curiosamente”, a exportação de soja paraguaia aumentou no primeiro semestre do ano. ■