Se todos querem cá estar, porque é que não estão?

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Agosto é normalmente a altura em que a maioria dos emigrantes portugueses vem ao nosso amado país. No entanto, este ano muitos emigrantes, tal como os turistas, não podem vir devido a Portugal ter sido colocado nas listas negras da Covid-19 que exigem quarentena de duas semanas, sem poder ir ao trabalho, após o regresso aos países do Norte da Europa. A dor da separação forçada da pátria amada é ainda maior desta vez, não só devido aos motivos económicos habituais, mas também devido à saúde pública. O facto de tantos Portugueses estarmos fora de Portugal, agora até em Agosto, convida à reflexão sobre uma parte tão grande da população estar a viver fora do país de origem, caso raro na Europa. 

Portugal tem inúmeros profissionais portugueses qualificados e trabalhadores, incluindo milhões emigrados e validados internacionalmente nas suas profissões e áreas técnicas. Temos dos melhores profissionais, do mundo do futebol à indústria alimentar, passando pela saúde e tantas outras áreas.  

O país tem indubitavelmente muitos recursos de topo mundial: clima soberbo, energia solar abundante, praias e mar imenso, muitos rios límpidos, baixa densidade populacional fora dos grandes centros urbanos, hospitalidade inegável, paz, segurança e harmonia em sociedade raras no mundo, gastronomia e vinicultura de topo, arquitetura tradicional e contemporânea impressionante, Língua bastante universal, familiaridade com outras Línguas universais, história milenar, um caleidoscópico único de legado de vários povos, cultura viva com muitas tradições ainda preservadas, grande diversidade de gentes e regiões, antepassados como modelos inspiradores que deram novos mundos ao mundo. Temos ainda uma localização geográfica fenomenal no centro do mundo ocidental, quer entre o resto da Europa e os Estados Unidos, quer entre a Europa e África.  

Portanto, somos realmente um dos melhores países do mundo. No entanto, poucos trabalhadores bem pagos e poucas sedes mundiais ou europeias de grandes empresas cá estão. Por exemplo, vários CEOs das 500 maiores companhias do mundo nas listas da Forbes e Fortune são portugueses, mas nenhuma das companhias nessa lista está sediada em Portugal. Isto ao contrário da Irlanda ou da Holanda, por exemplo, que têm muito menos vantagens inatas que nós, mas onde muitos trabalhadores bem pagos e sedes de grandes empresas multinacionais estão. Por contraste, em Portugal muitos milhões dos cá nascidos vão para fora e poucos milhares para cá emigram, sendo esta diferença uma das maiores da Europa, só batida pela Eslováquia. Segundo o Eurostat, somos o 2º pior país da UE para onde menos vão trabalhar. Se todos querem estar no nosso maravilhoso e amado Portugal, porque é que não estão?

Por exemplo, porque é que o enfermeiro que salvou a vida ao primeiro-ministro britânico Boris Johnson, milhares de outros enfermeiros e milhões de outros profissionais portugueses estão fora de Portugal? Será porque simplesmente não querem cá estar ou nem gostam do país e preferem maldizer, ou porque, mesmo amando Portugal mais do que tudo na vida e não gostando de estar longe da família, outros factores mais complexos e dolorosos os impossibilitam de cá estar?  

Porque é que as longínquas Letónia, Estónia ou Eslovénia cresceram múltiplas vezes mais que nós e ultrapassaram-nos no poder de compra recentemente? Porque é que estão na periférica Irlanda as sedes europeias da Google, Facebook, Microsoft, LinkedIn, Twitter ou da Allergan do Botox?  Porque é que a sede da Budweiser está na Bélgica? Porque é que a sede da Airbus está na Holanda? Porque é que a Agência Europeia do Medicamento foi para a Holanda? Porque é que até as sedes de empresas portuguesas estão na Holanda? Excetuando a Irlanda, porque é que os países de dimensão semelhante à nossa, mas com Línguas piores, são mais bem sucedidos a atrair empresas globais?  

As respostas podem ajudar a reformar e elevar os padrões da governação portuguesa para o topo europeu. No entanto, poucos em posições mediáticas confortáveis se atrevem a fazer esta pergunta, quanto mais a começar a responder. As mentes submissas a políticos ficam encandeadas com as maravilhas inatas de Portugal. São incapazes de ser flamejantes flechas questionadoras Nietzschianas para a outra margem de um país ainda melhor que alavancasse todas as potencialidades inegáveis que tem para subir ao cume económico da Europa em vez de estar nos humilhantes últimos lugares.  

Os serventes do ‘status quo’ fogem de questionar profundamente tantos de nós estarmos fora, sendo o país tão excelente como realmente é. Parece-lhes que não há relações de causa e efeito na economia ou numa sociedade. Preferem acreditar ignorantemente que só por mero acaso ou um infortúnio divino inexplicável e insolúvel é que estamos nos últimos lugares económicos da Europa em quase todos os índices do Eurostat, com mais de 30% da população emigrada e economicamente abaixo de tantos países com tão menos potencialidades que nós.   

Para mentes simples que substituíram o culto divino dos nossos  antepassados pelo culto e fé cega fundamentalista e atemorizada perante políticos que tenham poder, até devem ter sido os nossos governantes que em vez de desbaratarem o muito de bom que temos, inventaram as praias do Algarve, o sol esplendoroso sobre o país todo, a sopa alentejana, os Jerónimos, a biblioteca Joanina ou o vinho do Porto e as cascatas do Gerês! 

Os jornais e canais de TV tradicionais ‘mainstream’ nada questionam do poder actual e dos seus resultados, têm também os mesmos comentadores medrosos e pouco ambiciosos, com vícios gerados durante décadas de conforto e convívio com políticos poderosos, logo pouco factuais e objetivos sobre os resultados reais da classe política portuguesa em todas as áreas, da economia à saúde pública. 

Ora, em vez de alavancar estas potencialidades para nos pôr no topo, Costa e seus ministros e deputados que nos governam há mais de três décadas, muitos desde que foram “educados” e  “predestinados” a líderes de Portugal aos 20 anos nas jotas partidárias, mantêm-nos em último lugar económico-financeiro da UE.  Invariavelmente, tendo tantas potencialidades cá dentro e cobrando-nos tantos impostos, esta gente ligada à actual direcção do PS anda sempre de mão humilhantemente estendida lá para fora.  Estarão à altura das potencialidades do País? São mesmo os melhores que temos para nos governarem e aproveitarem as nossas vantagens para benefício da população toda? Ou será que, uma vez que já os avaliámos durante 30 anos, já podemos concluir que não estão à altura da grandeza do país que deveriam servir?  

Quando alguém que ama Portugal mais que tudo, mas vivendo fora do país, financeira e intelectualmente independente do regime político com tão maus resultados na Europa, questiona a falta de desempenho dos governantes com verdadeiras pedradas no charco, os silenciados perante o poder falam finalmente grosso, por não gostarem do estilo. Confundem o bom Portugal que amamos mais que tudo com os maus governantes de Portugal que suspeitamos não estarem à altura de nos liderarem. Aparecem falsos patriotas ridiculamente dizendo que não é bom patriota quem puser estas questões e fizer estas reflexões, quem não gostar dos resultados dos nossos políticos nem de nos ver no fundo da Europa perante tantas potencialidades fantásticas a mais que nos outros países. 

Não será mais do que altura de questionarmos um tão fraco modelo de liderança portuguesa que parece, há demasiadas décadas seguidas, não conseguir tirar qualquer partido das muitas potencialidades da nossa pátria amada e única? Vamos continuar a acreditar que é só por triste fado sem solução que todas as nossas potencialidades têm ficado desaproveitadas e mal geridas durante tantas décadas seguidas com tantos de nós fora, sem querer estar fora, agora até em Agosto? Esta reflexão do exílio político no Verão só pode ajudar a nação. Convido todos os leitores que amam Portugal a fazerem-na também, e sobretudo a exigirem que seja feita em mais jornais e canais televisivos portugueses. Em toda a sociedade civil. ■