A alegre inconsciência

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Portugal vive um estranho período de inconsciência colectiva relativamente aos graves problemas do País e às suas consequências futuras.

Infelizmente, não é a primeira vez que, por alguma razão, já tivemos de pedir a ajuda externa (três vezes nos últimos trinta anos) e todos os indicadores mostram que estamos no fundo da tabela de quase todos os países da União Europeia. Contamos apenas com os apoios de Bruxelas para continuar a viver da propaganda e das mentiras oficiais, daqueles que se aproveitam das crises sucessivas para governarem a sua vidinha à custa de Bruxelas. Vejamos como:

O hidrogénio

Como já aqui expliquei a semana passada, nada justifica este projecto do Governo, capital intensivo, fraco criador de empregos e mentiroso quanto baste, que o secretário de Estado João Galamba aproveita para insultar todos aqueles que discordam dele, mas sem nunca debater cada uma das razões invocadas para se discordar de mais esta negociata. 

Igualmente, João Galamba também não explica qual foi a sua posição relativamente a todos os negócios ruinosos dos governos de José Sócrates e do Novo Banco, este último já deste Governo de que faz parte, negócios falidos e entregues aos bancos sobreviventes, que os portugueses estão agora a pagar nos impostos mais elevados de sempre.

João Galamba, por ignorância e por espírito trauliteiro, será uma das ruínas deste Governo e do PS, como José Sócrates o foi na fase anterior, dois animais ferozes, dizem, mas os governos vão e vêm e apenas Portugal e os portugueses ficam, mais pobres, mais endividados e com uma pior herança para deixar aos filhos e netos.

Ferrovia

Enquanto o Governo se delicia em estar na linha da frente das novas tecnologias e em ser um governo modernaço quanto baste, investindo tanto ou mais do que a Alemanha o dinheiro que nos dão (a Alemanha ganha-o), os comboios, cuja manutenção é a glória do ministro Pedro Nuno Santos, andam a bater uns contra os outros e a matar pessoas. 

O ministro que fala grosso sempre que abre a boca, passou agora a falar fininho, o que todos lamentamos, mas não devemos perdoar as políticas erradas que estão na sua origem. 

Eu não perdoo, porque estive contra o excesso de autoestradas, defendi os transportes públicos contra o transporte individual, defendo há trinta anos a modernização e a internacionalização da ferrovia portuguesa, a produção nacional nestas diferentes tecnologias e até contribui para a criação de uma empresa de engenharia que desenha comboios e aviões. Não, eu não perdoo.

Mas o mais espantoso, para alguém que use a cabeça para pensar, é como se pode defender um projecto megalómano para a energia, obviamente antes do tempo certo, para conviver bem com uma ferrovia do século XIX a cair aos bocados, cuja modernização é feita com os comboios que estamos a comprar na sucata espanhola. 

Nem de propósito, algumas das carruagens destinadas a Portugal acabam de descarrilar próximo de Madrid. Esperemos que ainda não estejam pagas. 

Modelo de desenvolvimento

Estas discordâncias sobre o hidrogénio, o transporte de pessoas e de mercadorias, a questão energética e até o tão esquecido sistema de ensino, são discordâncias que têm a ver com o modelo de desenvolvimento de Portugal, tema em que tanto tenho escrito. Infelizmente, sem resultado, seja porque a ignorância estratégica é uma constante dos governos, seja porque os governantes estão apenas a pensar em negócios que os possam ajudar a sair da cepa torta, seja porque não têm a formação e a experiência necessárias. 

De facto, a base do desenvolvimento do nosso País reside na realidade de sermos dois países, um normal, europeu, e outro o Portugal histórico da ignorância e da pobreza, que constitui um enorme custo social, que os governos preferem pagar em vez de educar, de forma a incentivar a libertação da pobreza em vez da dependência do Estado. 

Como tenho escrito, a pobreza e a ignorância reproduzem-se na família e apenas as creches e o ensino pré-escolar de qualidade, com alimentação e transporte, dez horas por dia, podem interromper, no início da vida das nossas crianças, o círculo vicioso em que vive metade da nossa sociedade e da nossa economia. Porque nenhum país pode sobreviver e desenvolver-se apenas com metade da sua economia e, já agora, com metade das exportações, isto no caso dos pequenos países. Razão por que o melhor sistema educativo dos países do Leste está a fazer a diferença no seu processo de desenvolvimento, países que, um a um, nos estão a passar à frente.

Esta é uma das razões para combater a tolice do hidrogénio, porque mesmo se feito no tempo certo, o que não é o caso, iria no sentido de aprofundar o abismo entre as duas economias. Seja porque faz pagar aos mais pobres a mais cara energia da União Europeia, seja porque não cria os empregos necessários para o sector mais pobre e ignorante da sociedade portuguesa, mantendo-o na dependência do Estado, em vez de os colocar a trabalhar em sectores onde possam ser úteis e produtivos.

Esta é a razão por que o Manifesto recente, de que também fui subscritor, coloca na linha da frente a industrialização do País. Porque se é verdade que a indústria moderna precisa de quadros e técnicos altamente qualificados, é o único sector da economia que treina trabalhadores para as montagens, embalagens, armazéns, transportes, limpezas, e mantém vivas outras empresas a quem subcontracta produtos e serviços. Outros sectores, como o turismo, empregam muitas pessoas, mas sem hipótese de grande promoção e contribuírem para a perda da produtividade.

Se os nossos governantes estudassem o que aconteceu no período de grande crescimento da EFTA, bem como o caso da AutoEuropa, saberiam que foi o investimento industrial estrangeiro e as exportações que criaram milhares de empregos e retiraram milhares de trabalhadores da economia pobre para os colocar na economia desenvolvida. 

Infelizmente, os nossos governantes não estudam, não sabem, e limitam-se a procurar soluções milagrosas, um fixe para todos os nossos problemas, seja no hidrogénio, seja em qualquer outra coisa que lhes cheire a um bom negócio. Em tudo isto, o que mais me dói é que a universidade portuguesa seja parte do problema em vez de ser parte da solução. ■