É tudo uma questão de seriedade e competência

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HENRIQUE NETO

Já aqui escrevi não estar certo de o Partido Socialista ganhar as próximas eleições legislativas, dizendo que o resultado dependerá, em grande parte, do PSD. Pensei então que os mesmos sectores da sociedade que deram a vitória a Pedro Passos Coelho, apesar dos sacrifícios impostos pelo seu Governo, não se deixariam iludir com a barragem de propaganda de António Costa e do seu Governo.

Acrescento agora, para evitar equívocos, que concordo com a política de Rui Rio de não ser sistematicamente contra o Governo, dando aos portugueses uma nova ideia de seriedade, de racionalidade e de defesa permanente do interesse nacional. Mas, para isso, é também preciso mostrar de forma pedagógica, caso a caso, os grandes erros do Governo, sejam os resultantes das características negativas inerentes à geringonça, sejam os que resultam das diferenças abismais entre a realidade e a propaganda.

Ora, é neste último caso que começo a duvidar do PSD, porque apesar de os erros e das fraquezas do Governo me parecerem evidentes, a nova direcção de Rui Rio não tem conseguido colocar na agenda política grandes causas que possam ser alternativas credíveis aos erros e insuficiências do Governo, com a nota de que, infelizmente, razões não faltam.

Na economia, uma dessas causas é a defesa de uma nova política económica, essencialmente virada para a exportação, que mostre aos portugueses que somos o único país europeu que exporta apenas 40% do PIB, quando os outros países da nossa dimensão exportam entre 60% e 105% e mostrando a relação deste facto com os vinte anos de estagnação económica em que vivemos. Com a nota de que o actual crescimento, sendo superior ao do passado recente, se deve principalmente à conjuntura internacional e é dos mais baixos em comparação com a generalidade dos outros países europeus, os quais nos estão a passar à frente. O professor Nuno Garoupa ainda recentemente demonstrou de forma clara e com números que Portugal está a perder a batalha do desenvolvimento.

Uma segunda causa são as obras públicas propostas pelo Governo que, na linha dos governos de José Sócrates, representam um enorme desperdício de dinheiros públicos para servir interesses conhecidos. O porto do Barreiro, a linha circular do Metro de Lisboa e a renovação de parte da ferrovia portuguesa em bitola ibérica, são erros óbvios.

Na ferrovia, a bitola ibérica transformará Portugal numa ilha ferroviária, dependente da Espanha para fazer a exportação das nossas mercadorias para os outros países europeus.

Ao mesmo tempo, o Governo entrega o transporte interno de mercadorias a uma empresa monopolista, a MEDWAY, que tem 90% do mercado interno e 20% em Espanha, nas regiões que restam de bitola ibérica. Empresa que fica assim livre para fixar os preços que quiser, como já está a acontecer e tem sido denunciado pelas empresas clientes. Como se compreende, a manutenção da bitola ibérica elimina ainda a possibilidade de comboios de outros países europeus, que utilizam a bitola europeia, entrarem em Portugal e beneficiarem as exportações e as importações nacionais com os melhores preços, que são o resultado da existência de concorrência.
Acresce que a construção de uma nova linha em bitola europeia, de Aveiro à fronteira, ligada à rede espanhola em direcção ao centro da Europa, é financiada pela União Europeia a fundo perdido no valor de 85% dos custos e integra-se no corredor Atlântico planeado por Bruxelas.
O Governo, ao não explicar, ou debater, as razões das suas opções, contrárias aos objectivos da União Europeia, demonstra ter alguma consciência de não conseguir defender racionalmente as suas opções, mas não resiste aos interesses envolvidos, seja os da MEDWAY, seja os do sector rodoviário, que, aparentemente, não vê a inevitabilidade de as opções europeias passarem por energias menos poluentes, o que torna a ferrovia o meio privilegiado para o transporte de mercadorias com menor custo.

Uma terceira causa é a defesa intransigente da transparência dos actos públicos, a batalha consequente contra os contratos por ajuste directo e a denúncia sistemática dos casos de corrupção e dos corruptos, para o que não faltam exemplos quase diários. O que é indissociável da defesa da Justiça, nomeadamente da Procuradoria-Geral da República e da exigência a fazer ao Governo dos meios necessários para que o combate à corrupção seja uma verdadeira causa nacional.

Acresce que o papel do PSD na Assembleia da República deveria ser essencialmente o de fazer perguntas ao Governo sobre tudo aquilo que o Governo mantém escondido, ou faz de errado. Questões como as 35 horas da função pública, a obsessão em mudar as leis do trabalho, as causas da estagnação económica, que já leva vinte anos, bem como a comparação com os progressos da generalidade dos outros países europeus, deveriam ser missões do PSD no Parlamento. Igualmente, a desorganização do sector da saúde e o aventureiríssimo ignorante na educação, são outros exemplos de causas que mostram a incompetência do Governo na gestão dos serviços prestados pelo Estado aos cidadãos, com a consciência de que lançar dinheiro sobre os problemas não é a solução.

Por razões que desconheço, não é isto que tem sido feito pelo PSD, que deixou criar na opinião pública a ideia de uma relação privilegiada entre António Costa e Rui Rio, a qual só poderá ser fatal para Rui Rio. Além de que, não concordando com algumas opiniões expressas no PSD de bota abaixo e de ódio de estimação em relação ao PS, o principal objectivo do PSD, nas actuais circunstâncias, é ser sério, falar verdade e introduzir um banho de inteligência e de honradez na actividade política, com gente disposta a servir o interesse nacional. Condições necessárias para ganhar a confiança de largos sectores da sociedade portuguesa que apoiam o Governo por desconhecimento da verdade e do que verdadeiramente está em causa.
A propósito, não serão as clássicas diferenças entre esquerda e direita que convencerão os eleitores, porque, como já alguém disse, a alternativa é entre a promiscuidade da política e os negócios e a corrupção de um lado e a honradez, a verdade e a competência nas decisões políticas, do outro. Em resumo, trata-se de construir uma alternativa, com novas ideias, novas políticas, não apenas à geringonça mas também ao PS.