A Maçonaria e outras incompreensões

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A decisão do PSD de apresentar uma proposta na Assembleia da República que conduza à obrigatoriedade de cidadãos com cargos públicos declararem a sua filiação em associações de caracter secreto, levantou as habituais objecções da Maçonaria. Como diz o povo “quem não deve não teme” e, neste caso, a Maçonaria teme, o que justifica enrolar a questão num conjunto de explicações mais ou menos aceitáveis, como a liberdade de consciência, o que não resolve o debate porque ignora a realidade.

A realidade é conhecida. Em Portugal os membros da Maçonaria utilizam o seu dever de solidariedade e de secretismo para actuarem de forma concertada no espaço público, a fim de favorecer os seus membros e viciar o processo democrático, nomeadamente quando se trata da obtenção de altos cargos em instituições políticas, jurídicas, financeiras, ou em quaisquer outros centros de poder.

Durante os quatro anos que passei no Parlamento assisti a várias tomadas de posição conjuntas de deputados membros da Maçonaria que, pelo meu conhecimento pessoal, eram posições difíceis de justificar por cada um, mas determinantes nas votações, nomeadamente quando feitas em pequenos grupos de votantes nas comissões, onde três ou quatro votos no mesmo sentido podem determinar o sentido da decisão.

Por outro lado, há um número anormal de membros conhecidos da Maçonaria em altos cargos do Estado e da economia, muito superior ao que o pequeno número de filiados na Maçonaria justificaria, frequentemente sem qualquer outra justificação para as escolhas além da sua actuação conjunta e secreta. Frequentemente, essa acção em combinação com a filiação partidária, dá aos potenciais candidatos a altos cargos um poder político determinante, o qual nada tem a ver com as qualificações pessoais ou profissionais dos nomeados. Nomeações, portanto, ilegítimas e que prejudicam os outros candidatos que não têm esse apoio e são frequentemente mais qualificados. 

Apesar do secretismo usado, há sempre casos de corrupção de membros da Maçonaria que chegam ao conhecimento público, o que já conduziu ao repúdio de alguns membros mais sensíveis da própria Maçonaria. O que não chega para impedir que todas estas questões sejam enroladas numa teia de justificações, mais ou menos compreensíveis à luz dos direitos democráticos dos cidadãos individualmente, mas longe de qualquer ética democrática originada na base do secretismo colectivo. Ou seja, a Maçonaria usa os direitos civilizacionais da democracia para viciar impunemente o próprio funcionamento democrático das instituições e quando são acusados de corrupção, o que raramente acontece, quase todos se juntam na defesa comum dos corruptos, porque são os seus.

Em resumo, Rui Rio tem toda a razão em tentar colocar alguma decência neste forte vício de funcionamento do nosso regime político. Todavia, duvido que o consiga, o que só demonstra o poder que a Maçonaria tem, nomeadamente no Partido Socialista e noutras instituições supostamente democráticas.

Entretanto, como há cerca de um ano escrevi neste jornal, Rui Rio continua a cometer um erro de que dificilmente escapará, o erro de pensar que consegue realizar algumas reformas a partir do PSD na oposição. Não pode, a família socialista nunca permitirá deixar os seus interesses por mãos alheias e a Maçonaria é um instrumento de poder poderoso. Aparentemente, Rui Rio ainda não compreendeu que tem primeiro de chegar a Primeiro-ministro e só depois fazer a limpeza democrática que pretende realizar. 

Ferrovia, TAP, Groundforce e SATA

Durante os últimos cinco anos, os dois ministros das Infraestruturas que nos calharam em sorte não se cansaram de afirmar que os espanhóis não estavam a fazer nada na ferrovia que nos devesse preocupar. O Primeiro-ministro chegou mesmo a dizer que a linha Poceirão-Caia, em bitola ibérica, nos ligaria à Europa desde Sines. Pois bem, agora os espanhóis fizeram e foi o óbvio: acabaram com o transporte ferroviário noturno de Lisboa para Madrid e Hendaia, a fim de impor as suas novas linhas de alta velocidade de ligação à Europa, dizendo, com razão, que com os comboios que andam a 320/350 quilómetros por hora, não se justificam as ligações noturnas. Assim, a pergunta que fazemos a Pedro Nuno Santos, de acordo com o que temos dito e escrito ao longo dos últimos cinco anos, é também óbvia: senhor ministro, afinal quem é que manda?

Em resposta a esta decisão espanhola, o ministro limitou-se a informar os portugueses que vai pensar na forma de fazer chegar à Europa os nossos comboios de bitola ibérica. Sendo o pensamento livre, pois que pense, ainda que até hoje o seu pensamento só tem dado asneira. No caso da TAP, da Groundforce, da localização do novo aeroporto e do Metro de Lisboa, se pensou, pensou mal e assim continuará a ser até que o pensamento dos portugueses o não deixe continuar a pensar como ministro.

Até esse dia, a nova linha de Lisboa ao Porto e daí a Vigo, continuará a ser pensada pelo ministro para ser construída em bitola ibérica. Como os espanhóis estão a construir as suas próprias linhas em bitola UIC, o ministro continuará a pensar sozinho, o que os espanhóis só podem agradecer e os portugueses lamentar. Nem todos. Há os mais distraídos e os mais amigos dos monopólios e inimigos da concorrência, que têm todo o interesse em acreditar no pensamento dos ministros do PS, a que alguns chamam a grande família socialista. 

Acresce que com este ministro, cada cavadela, cada minhoca. Para nosso mal, Pedro Nuno Santos não consegue estar quieto e, em vez de trabalhar no sentido do aumento do capital da empresa Groundforce em Assembleia Geral, que é a forma civilizada de resolver os problemas das empresas, tenta a rotura dos privados na empresa e dos privados com os trabalhadores, o que é um golpe baixo e pouco respeitável. Provavelmente o resultado será que, em vez dos lucros que a empresa gerou ao longo dos anos, dentro de algum tempo teremos mais prejuízos para os portugueses pagarem. É o que faz meter a ideologia nos negócios. 

Por falar em prejuízos para os portugueses pagarem, já temos a TAP e a SATA a acumular os prejuízos que a crise e a inacção dos dirigentes vão criando. Levaram um ano a escrever um projecto de restruturação da TAP e agora estão docilmente à espera que a União Europeia nos diga o que fazer. É neste contexto que me arrisco a pensar – por vezes também o faço – que a decisão de Bruxelas irá levantar muita poeira para o lado do Ministério das Infraestruturas, já que, infelizmente, também não é ainda possível nacionalizar a União Europeia. Mas veremos, a seu tempo não custa tentar e para quem pensou colocar as pernas dos investidores alemães a tremer, não há limite conhecido. ■