Américo Tomás e outros acontecimentos

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Depois da indecorosa cena política da AutoEuropa, entre o Primeiro Ministro e o Presidente da República, tivemos agora a cena da festa do futebol, que reuniu as mais altas figuras do Estado para festejar a realização da final europeia de futebol em Lisboa. Com a nota igualmente indecorosa de o fazerem como uma homenagem aos profissionais da Saúde. 

Trata-se de um Presidente que só sonha com a sua reeleição, com ampla maioria, além de um Primeiro-Ministro que dorme na cama com um qualquer Presidente que o deixe à vontade para prosseguir os seus objectivos pessoais, extensivos à grande família socialista. Estão bem um para o outro, com a pequena consequência de Portugal se continuar a atrasar em relação aos seus parceiros europeus, por ausência de ideias e de visão estratégica. Além dos casos de corrupção que, entretanto, se institucionalizaram. Por exemplo:

A EDP e António Mexia

Quem conhece a relação, de muitos anos, de António Mexia e da EDP com o poder político, não pode ter dúvidas sobre as razões de a electricidade ter  em Portugal dos preços mais altos da União Europeia. Nesse sentido, durante os governos do PS de António Costa, já foram despedidos dois secretários de Estado por terem tentado reduzir os apoios do Estado à EDP. Também no Governo anterior de Passos Coelho, foi despedido o secretário de Estado Henrique Gomes e o ministro ficou a prazo, pela mesma razão.

Antes, José Sócrates e o ex-ministro Manuel Pinho estiveram, durante anos, ao serviço da EDP, cumprindo as recomendações de Ricardo Salgado. O Ministério Público tem prontas as acusações de corrupção, num processo que tem passado pelas mais diversas vicissitudes, mas que agora parece ter chegado a um momento crucial de decisão, nomeadamente excluindo António Mexia e Manso Neto da Administração. Veremos. Por alguma razão os corpos gerentes da EDP estão repletos de ministros e ex-ministros, sendo claro que António Costa tentará proteger António Mexia, além de a própria Justiça ter alguns juízes amigos, como é o caso de Ivo Rosa.

Depois de despedidos os dois secretários de Estado, que tentaram colocar alguma ordem nas relações do Estado com a EDP, António Costa escolheu o homem ideal para colocar ao serviço de António Mexia, um dos mais exímios praticantes da política oficial do partido: “quem se mete com o PS leva”. Conhecido pela sua enorme ignorância e por uma igual vontade de subir na vida, João Galamba é o homem certo para levar a cabo os negócios particulares envolvendo o PS, o Estado e algumas das empresas do regime e estrangeiras à procura de dinheiro fácil.

O secretário de Estado João Galamba

João Galamba foi um dos homens de mão de José Sócrates, de quem continua a ser amigo, tendo passado pelo Parlamento e deixado atrás de si as afirmações mais ignorantes proferidas naquela casa, além da sua permanência, como convém, nos meios de comunicação social. Como secretário de Estado não perdeu tempo a organizar negócios do Estado com os privados, militantes ou amigos do PS. Começou com a primeira concessão de exploração de lítio, concedida a um amigo socialista, uma semana depois de este ter criado a empresa concessionária. À conta disso, a jornalista que denunciou a negociata foi para a prateleira, para aprender a não ser demasiada curiosa.   

O segundo negócio tem sido o da produção de hidrogénio. Do alto da sua ignorância, João Galamba e o igualmente ignorante ministro não dão ouvidos aos especialistas, nomeadamente os do Instituto Superior Técnico, que já disseram que o hidrogénio é um mau negócio para o Estado, a exemplo de outros negócios semelhantes do passado. Não para João Galamba, para quem um investimento de dez mil milhões de euros são trocos, mesmo quando a industrialização da tecnologia do hidrogénio está longe de ser conhecida. Afirma João Galamba que será um investimento privado, sabendo ele bem que isso não é possível sem chorudas ajudas do Estado. Recordo uma situação semelhante que ocorreu com o porto do Barreiro, depois de anos da mesma afirmação de que se trataria de um investimento de privados e depois de milhões de euros gastos pelo Estado em estudos, para um investimento sem viabilidade. O projecto borregou por falta de investidores, como, aliás, era previsível.

Para se averiguar do calibre de João Galamba, basta ler a sua entrevista no passado fim-de-semana ao ‘Expresso’. Sobre o preço do gás de garrafa, que custa quase o dobro do preço em Espanha, disse o seguinte: “Não há cobertura legal para o fazer. Agora, deve o Governo ter uma política até 2030 para embaratecer o gás de garrafa quando tem metas de descarbonização em que esse gás não é um combustível que se enquadre na estratégia do Governo? Nós entendemos que não”. Ou seja, os portugueses mais pobres que usam este tipo de gás, que se cuidem e paguem a conta à EDP durante dez anos, pouca coisa para João Galamba e para o PS.

Perguntado sobre a proposta de Rui Rio para  três investimentos industriais da dimensão da AutoEuropa, respondeu: “O PSD não faz ideia que o país já atrai Autoeuropas”. Quais? Responde apenas que no sector energético, mas sem dizer quais os investimentos, sem os quantificar e, principalmente, sem os qualificar. Santa ignorância e santo atrevimento. Por exemplo, o homem não sabe que as empresas industriais integradoras, como a AutoEuropa, criam milhares de empregos directos, que desenvolvem empresas fornecedoras em Portugal, que nos casos resultantes da empresa de Palmela, só no ano passado, resultaram em exportações de componentes em mais de oito mil milhões de euros, para além das próprias exportações de automóveis completos. Ora, mesmo que os investimentos de João Galamba fossem verdadeiros, que não o são, mesmo assim, estaríamos a falar de coisas totalmente diferentes. Claro que ele não sabe disso, e mesmo que soubesse não o diria. Fica apenas bem expresso que o homem não sabe do que fala e que está no Governo para beneficiar a EDP à custa dos consumidores nacionais.

Presidência da República

Sempre que ouço Marcelo Rebelo de Sousa falar, não posso deixar de me recordar de Américo Tomás. Ainda que num estilo diferente, existe entre os dois a mesma irrelevância do discurso, a mesma pequenez de pensamento e o mesmo seguidismo em relação ao governo de cada época. Chama-se a isso, ausência de relevância política.

Igualmente, os grandes desafios que o País enfrenta passam ao lado do actual Presidente como se não existissem: corrupção, modelo económico, investimentos do Estado errados, como na ferrovia, uma administração pública que não dá segurança aos portugueses nos serviços que presta, vergonhosa dependência dos fundos da União Europeia, etc. As causas são, naturalmente, diferentes, mas a incapacidade de sobre elas ter uma opinião, ou de as enfrentar, é a mesma.  

Sobre a ferrovia em bitola ibérica, falámos com o Presidente da República, que se mostrou muito receptivo quanto à necessidade de uma ligação ferroviária à Europa e participou, por sua vontade, num debate sobre o assunto, mas onde não emitiu qualquer opinião sobre o assunto. Finalmente, ficou calado perante o investimento errado do Governo em bitola ibérica, investimento contrário à política de interoperabilidade   ferroviária de Bruxelas. 

Tal como Américo Tomás, a existência de uma coluna vertebral sólida não foi e não é o forte destes dois habitantes do Palácio de Belém. ■