António Costa: a causa recente do nosso atraso

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A vitória de António Costa por maioria absoluta nas últimas eleições teve origens conjunturais e terá efeitos muito negativos no progresso e desenvolvimento de Portugal no contexto dos países da União Europeia. Nos próximos quatro anos, Portugal continuará a sua evolução descendente dos últimos seis, não tenho dúvida, e estou pronto a debater esta previsão com qualquer pessoa que o queira fazer.

A razão principal para a previsão reside em António Costa, ele próprio, porque tendo errado no desenvolvimento do país nos últimos seis anos, vai certamente errar nos próximos quatro e as suas desculpas com a pandemia e com a guerra são falsas, porque todos os outros países tiveram de enfrentar a mesma pandemia e a mesma guerra com melhores resultados.

António Costa é a pessoa errada para dirigir Portugal na actual conjuntura e a razão principal estará, porventura, na sua formação. Foi criado no seio de uma família com fortes convicções de esquerda e, não sendo comunista, absorveu muitos dos mitos do comunismo, a mesma fé nas soluções sociais e a mesma ignorância sobre as mais que estudadas regras do desenvolvimento económico. A sua preferência pelo Partido Comunista nos últimos seis anos é o resultado dessa sua formação, como o é a sua arrogância muito comunista com a direita e em particular com o PSD. Certamente também com o seu anterior amigo Rui Rio, a quem recentemente recordou, com notável crueldade, que vai ficar a governar por mais quatro anos, enquanto Rio…

Cavaco Silva errou recentemente ao eleger a falta de coragem da governação de António Costa, porque o problema do primeiro-ministro não é a sua falta de coragem, mas a sua ignorância económica, a sua falta de seriedade intelectual e de racionalidade organizativa. Tal como o Partido Comunista, António Costa acredita nas manhãs que cantam e no mesmo determinismo histórico, ou seja, nos bons efeitos sem causas. Acredita ainda nos fundos comunitários que estão a ditar a sua sobrevivência política.

Tal como nos regimes comunistas, António Costa criou uma elite de “aparachiques” semelhantes e copiou, provavelmente sem a plena consciência do facto, a mesma relação entre as grandes vitórias obtidas e a realidade. Claro que a violência dos regimes comunistas, ou afiliados, não faz parte da nossa cultura e dos bons costumes portugueses, todavia existe a mesma capacidade de sofrimento e o mesmo conformismo que permitiu a longevidade do regime soviético. 

É evidente que o PS é um partido democrático que esteve na linha da frente da luta pela democracia em Portugal, mas a relação entre o PS de Mário Soares e o PS de António Costa é hoje uma lenda, de que apenas resta o símbolo soarista na pessoa do deputado Sérgio Sousa Pinto, eleito para o efeito. Dito isto, não acredito que o PS possa constituir um perigo para a continuidade da defeituosa democracia portuguesa, limita-se apenas a não tirar partido das virtualidades das verdadeiras democracias liberais.

Entretanto, António Costa tem naturalmente qualidades óbvias, algumas herdadas da sua formação, como a sensibilidade social, a sua preocupação, que reputo sincera, com os mais desfavorecidos, uma certa determinação na conquista dos seus objectivos e mesmo alguma capacidade de liderança. Todavia, falta-lhe completamente a visão que determina a acção dos grandes líderes, o conhecimento da economia e das diferentes formas de criação de riqueza e a cultura empresarial é para ele suspeita, bem como inexistente a capacidade de analisar e compreender o sucesso dos outros países. Aliás, já no ano 2000, quando indiquei aos socialistas o exemplo da Irlanda, a incompreensão foi geral e a aprendizagem nula.

Recentemente, António Costa, depois de muitos meses a ser pressionado pelo facto de outros países europeus nos estarem a passar à frente, lá sentiu a necessidade de uma explicação: as causas seriam a educação e a geografia, dado que esses países estão próximos da Alemanha, uma verdade e um provincianismo na mesma resposta. É verdade que o melhor nível educativo desses países está na origem do seu sucesso económico, mas seria preciso completar a afirmação com a convicção de um determinado modelo educativo, que não seja o do facilitismo português, acompanhado da explicação sobre as causas do “grande sucesso” da educação em Portugal depois do 25 de Abril não ter conduzido aos mesmos resultados. Já lá vai meio século e é necessária essa explicação.

Quanto à geografia, é só ignorância ou efabulação, ou as duas coisas juntas. Será que António Costa não sabe que hoje vivemos numa economia global e que Portugal possui uma das melhores localizações do planeta nas rotas do Atlântico, entre os dois maiores mercados mundiais da Europa e da América do Norte e com uma logística marítima sem rival? Será que a dimensão económica do seu pensamento parou na Alemanha? E será que não sabe que estamos a perder alguns bons investimentos internacionais para a Espanha, apenas porque não temos uma ligação ferroviária para as fábricas da Alemanha na Europa? Ou não sabe prever que, mais tarde ou mais cedo, perderemos a “AutoEuropa” pelo mesmo motivo?

A ignorância e a insensibilidade económica de António Costa levaram-no a acreditar no pensamento mais ou menos delirante do seu novo ministro da Economia. Todavia sem compreender que esse pensamento entra em rota de colisão com a cultura minimalista, ambientalista e não industrialista hoje existente no PS. Ninguém no PS passou pela indústria, nem mesmo o seu ministro da Economia, para perceberem que apenas a educação e a industrialização poderão parar este longo ciclo de empobrecimento do país. 

Uma das razões porque vaticino o insucesso de António Costa nos próximos quatro anos reside no facto do Plano de Restruturação e Resiliência (PRR) disparar em todos os sentidos, sem efeitos permanentes no processo de crescimento e desenvolvimento da nossa economia. Será sempre o resultado dos aprendizes de feiticeiro que lhes estiveram na origem. Talvez que o exemplo mais delirante seja Portugal a transportar hidrogénio para toda a Europa, mas outros exemplos não faltam. ■