Apesar dos grandes progressos da Ciência e da Tecnologia portuguesas no nosso regime democrático, os Governos cometeram erros que têm impedido que a economia portuguesa beneficie dos avanços científicos entretanto conseguidos. O maior erro reside porventura na incapacidade de introduzir nas empresas os benefícios da Ciência e da Tecnologia, por força de uma filosofia estatizante do sector e de um relacionamento ineficaz entre as empresas e os centros nacionais de conhecimento.

Este problema tem sido muito discutido ao longo dos anos, os argumentos sobre as causas desta separação têm emergido em profusão, as várias culpas têm sido estigmatizadas sem cessar, mas o resultado não mudou ao longo de décadas. Sucessivos Governos lançaram muito dinheiro sobre o problema, produziram milhares de doutoramentos e pós doutoramentos, mas o resultado foi mais desemprego, a saída para o estrangeiro de muitos investigadores e a dependência de subsídios inconstantes e de objectivos científicos inexistentes. O actual Governo já anunciou mais do mesmo, isto é, lançar mais milhões de euros sobre a questão, sendo previsível que com os mesmos resultados.

Fiel ao meu hábito de procurar resolver problemas complexos com soluções simples, há muitos anos que proponho uma solução nada complicada e bastante económica: a criação da figura profissional do vendedor de Ciência e de Tecnologia junto das empresas, vendedor cuja função será visitar e trabalhar diariamente com os empresários e os quadros das empresas, com o objectivo de conhecer as suas necessidades e de promover os conhecimentos científicos e tecnológicos, próprios ou alheios, junto das empresas visitadas para estabelecer relações de cooperação e de trabalho permanente ou para projectos concretos de aplicação da Ciência e da Tecnologia na melhoria dos processos e dos novos e velhos produtos.

De facto, a ideia não é minha, surgiu e cresceu a partir da realidade, quando há trinta anos fui visitado na empresa pelo Professor António Cunha, que tendo terminado o seu doutoramento pretendia desenvolver uma colaboração da Universidade do Minho com a indústria da Marinha Grande, colaboração que ainda hoje continua com excelentes resultados, no que, ajudado pelo aparecimento posterior do IPL – Instituto Politécnico de Leiria, constitui uma das bases do grande progresso competitivo da indústria da região. Claro que a colaboração que refiro tem de ser permanente e não pode resultar de impulsos descontínuos, razão de estes vendedores que proponho – ou divulgadores científicos, para o caso de esta designação pacificar algumas almas – deverem constituir um sistema e não serem meras incursões mais ou menos temporárias.

Adicionalmente, sendo certo que neste sistema de que falo haverá, por vezes, falhas de conhecimento especializado em algumas áreas, uma segunda tarefa destes profissionais será propor às empresas novos doutoramentos com fins específicos, participados e parcialmente pagos pelas empresas, bem como a indicação de outras universidades e institutos, nacionais ou estrangeiros, com o mesmo objectivo.

A experiência ensinou-me que, no início, não se tratará de uma tarefa fácil, na medida em que os investigadores e os empresários têm culturas e objectivos de vida muito diferentes, mas que mudam a partir da continuidade dos contactos e da compreensão que os empresários vão adquirindo de quanto têm a ganhar em receber nas suas empresas pessoas dispostas a aprender com os problemas existentes, da mesma forma que a explicar todas as alternativas que a Ciência e a Tecnologia podem abrir à melhoria da competitividade e aos resultados da empresa.

No passado escrevi sobre este assunto com mais detalhe e apresentei a ideia na Fundação para a Ciência e Tecnologia, com o resultado habitual de total desinteresse. Fiz o mesmo junto de algumas associações empresariais e o resultado não foi diferente. Aparentemente, o Estado continua a preferir lançar dinheiro sobre os problemas; por alguma razão o País está falido e os problemas sobrevivem.

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