Esta frase vem a propósito da proposta de alargamento do Metro de Lisboa feito pela deputada Assunção Cristas, que foi universalmente contrariada como irrealizável e cara, mas, pior do que isso, foi gozada como um exemplo de puro oportunismo político. Esta reacção é típica da política nacional, em que os dirigentes partidários se preocupam essencialmente em serem os únicos a terem ideias e, assim sendo, todas as outras ideias, que não as suas, estão erradas.

Pessoalmente não sei qual a razão porque Assunção Cristas fez a proposta, mas sei que é uma boa proposta. Desde logo porque coloca o Metro na primeira linha das prioridades para Lisboa, como a forma privilegiada de transporte público na capital; e, fazendo-o, atira para segundo plano o transporte rodoviário, seja o carro particular seja o transporte público através do autocarro, com todos os seus inconvenientes de congestionamento de trânsito, ambientais e energéticos. Ao gozarem a proposta, os opositores deveriam pelo menos definir as suas preferências neste domínio, já que a autarquia e os governos nunca justificaram ou planearam um modelo coerente para o transporte público na cidade. Daí a manta de retalhos existente, em que o único objectivo conhecido é complicar a vida aos automobilistas, mas sem uma boa alternativa de transporte público.

Seguidamente, como defensor do transporte ferroviário, que considero ser a melhor forma no futuro do transporte para distâncias até seiscentos a oitocentos quilómetros, considero o Metro como o seu equivalente nas cidades. Ora, se os políticos portugueses estão preocupados em reduzir o consumo das energias do petróleo, bem como os custos da sua importação, não se compreende que não sejam sensíveis à redução da conta energética importada e prefiram o autocarro, mesmo se movido a gás natural.

Sei do que falo, porque ao longo dos anos da minha vida política elaborei várias propostas inovadoras, com o mesmo resultado da proposta da líder do CDS, com a nota de que foram, na sua maioria, propostas a que o tempo deu razão. Neste caso, se o nosso sistema político tivesse como prioridade o interesse nacional, os deputados teriam aceite a proposta e pedido esclarecimentos sobre quais as razões da preferência pelo Metro, o valor do investimento e o prazo previsível de execução.

Num outro país, em que estas coisas sejam tratadas a sério, isso já não seria preciso, porque já existiria um plano aprovado para os transportes públicos, definidos os modos de transporte, os investimentos previstos, o seu financiamento e os prazos de execução. Plano feito pelas entidades com competência para o fazer e aprovado por quem de direito.

Claro que em Portugal não é assim, e a preocupação fica-se pelo facto de a proposta não ser do nosso partido, com o resultado conhecido da abundância de obras inúteis ou erradas, desde o aeroporto de Beja à modernização da linha férrea do Norte, passando por duplas ou triplas auto-estadas sem carros, estádios vazios e um sem-fim de grandes e pequenos investimentos inúteis, como aqui tratei a semana passada.

Em resumo, a cidade de Lisboa necessita de um plano de investimento para resolver o grave problema da mobilidade na cidade, nem que seja a vinte anos, sendo que na minha opinião o transporte por Metro é a solução desejável e provada um pouco por todo o lado. Não podemos continuar a tratar estas questões como inadiáveis, à pressa e para tapar alguns buracos mais urgentes. Por exemplo, a decisão para Lisboa não deve ser a da semana passada, de comprar à pressa mais 80 autocarros, o que é fácil, mas que apenas serve para manter e aumentar a manta de retalhos em que vivemos.

Por todas estas razões, talvez seja bom ouvir as ideias das pessoas antes de as condenar.