Excesso de burocracia e ausência de liderança

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Quando há duas semanas aqui escrevi sobre os fogos de Pedrógão Grande, estava longe de pensar que nada de relevante se passaria até hoje sobre a determinação das razões da morte de 64 pessoas.

Durante todo esse tempo, as versões sobre porque é que ninguém atendeu os apelos dos sitiados pelo fogo em duas aldeias e na estrada 236, têm sido as mais diversas e o jogo do empurra entre o Governo e as instituições sob a sua direcção não param de aumentar.

Por sua vez, a celebrada comissão independente ainda não existe, apesar de ter sido considerada urgente, e o Governo e a Assembleia da República continuam a sua vida como se nada tivesse acontecido. Mesmo o Primeiro-Ministro foi de férias abandonando o barco à deriva, suponho que na expectativa de que o tempo acabe com as preocupações dos portugueses.

Claro que então também não pensava que um outro caso, o roubo de material de guerra da base de Tancos, viesse ensombrar a acção do Governo e de uma penada colocasse em evidência que o Governo não é muito mais do que um conjunto de burocratas à deriva, totalmente impreparados para prever acontecimentos complexos e, menos ainda, para tomar decisões no auge da batalha. Como todos os burocratas, limitam-se a procurar ganhar tempo, a propor algumas medidas óbvias e a esperar que a tempestade passe.

Por exemplo, aparentemente não passou pela cabeça do Governo verificar de imediato as chamadas com pedidos de socorro em Pedrógão, as horas a que foram feitas e a quem foram dirigidas e saber quem decidiu a prioridade dada a apagar os fogos em vez de evacuar as populações em perigo. Como é óbvio, não é precisa uma comissão para apurar estes factos de imediato, o que evitaria que os governantes se comportassem como baratas tontas durante tanto tempo.

O caso do SIRESP é claramente mais complexo e, esse sim, precisa de ser investigado, mas pela Procuradoria Geral da República, porque me parece ser da mais clara evidência tratar-se de corrupção pura e dura, estando em causa governos e a Assembleia da República, pelo que será uma inutilidade qualquer outra forma de tentar saber-se o que realmente se passou. O caso envolve gente demasiado importante e com demasiadas ligações ao poder político, para que se possa sonhar que alguma coisa de verdadeiro saia daí.

O caso de Tancos não envolveu, felizmente, mortes: tratou-se apenas de um segundo acto de uma peça de má qualidade, uma amostra do amadorismo burocrático que habita o topo do poder político nacional e, assim sendo, todos os intervenientes não atinaram que a tarefa principal seria proteger o prestígio das Forças Armadas, apesar de todos sabermos que nos últimos anos têm sofrido as mais perversas e humilhantes intervenções do poder político, nomeadamente a partir do momento em que o mérito deixou de ser o critério para as nomeações das chefias militares e passou a seguir-se a regra geral da conveniência partidária. Razão central para se compreender as intervenções grotescas do Ministro da Defesa e do Chefe do Estado-Maior do Exército, que aceitaram os respectivos cargos pensando que iam para uma festa.

Finalmente, se procurarmos reduzir os acontecimentos das três últimas semanas a um único tema, incluindo agora os casos do ponto de exame de Português e do Galpgate, encontramos a razão por que o regime partidário português perdeu toda a credibilidade e a razão de muitos cidadãos eleitores terem deixado de votar.

Trata-se de um sistema vidrado nos seus próprios interesses, incompetente e por vezes corrupto, muito diferente do que se passa na generalidade dos outros países europeus, onde, apesar de tudo, as chefias políticas e militares são responsáveis por aquilo andam a fazer os seus subordinados e verificam-no através do treino e da execução de exercícios de avaliação do seu estado de competência e de prontidão, bem como dos equipamentos que lhes estão distribuídos.

Entre nós bastam umas tantas patacoadas políticas e algumas frases de efeito preparadas pelos treinadores de comunicação e imagem, para que as mentiras, ou as meias verdades dos governantes, passadas em prime time televisivo, sirvam para que o bom povo que ainda vota se sinta mais confortado.

Por estas e por outras razões, a tragédia das 64 mortes de Pedrógão Grande, famílias inteiras, ficará para sempre marcada a negro no currículo dos partidos políticos portugueses, que na Assembleia da República e nos governos não passam há muito de burocratas preparados apenas para a propaganda e para os mais variados festejos, mas sem nenhuma preparação para as crises que não sabem prever ou combater.

Neste contexto, o Primeiro-Ministro é o principal responsável e não poderá evocar no futuro a capacidade de liderança que desperdiçou nas primeiras horas que se seguiram ao incêndio.