A Turquia não é Europa

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Manuel Silveira da Cunha

No passado Domingo passou um ano sobre um golpe militar na Turquia. A imprensa portuguesa, geralmente de muito má qualidade, apelidou a efeméride de “golpe falhado”. Continuamos a não entender como um golpe que teve o sucesso que teve pode ser considerado de golpe falhado.

O golpe de 15 de Julho de 2016 teve um sucesso extraordinário. Segundo o embaixador turco em Lisboa, numa entrevista a um jornal português, do qual não divulgamos o nome para não darmos publicidade gratuita a jornais de qualidade inferior a este ‘O Diabo’, a “Turquia tem mais de oitenta milhões de habitantes e apenas um por cento foi atingido pelas prisões em massa e demissões forçadas após o golpe”.

A afirmação é extraordinária: estamos a falar de oitocentas mil pessoas, números ditos com toda a naturalidade pela voz insuspeita do senhor embaixador, pessoas que foram presas, deportadas, expulsas, agredidas ou foram demitidas sem processos disciplinares ou judiciais. Isto por serem apenas opositores a Erdogan, presidente turco que mais se assemelha a um sultão medieval do que a um sucessor do visionário modernista Mustafa Kemal Atatürk.

Um golpe encenado para levar à desgraça oitocentos mil opositores sem grande estardalhaço nos meios de comunicação mundial, acusando, de caminho, um pacífico clérigo moderado que vive em sossego nos Estados Unidos, é uma marca de génio malévolo, na linha de um Hitler, que também inventou exactamente nos mesmo moldes o incêndio do Reichstag.

O embaixador da Turquia em Lisboa, Mehmet Hasan Göğüş, continua na entrevista a afirmar que a Turquia tem de ser um membro de pleno direito da União Europeia! Desculpe, caro embaixador, só entra em nossa casa quem é convidado. Trata-se da nação que passou toda a sua história a querer invadir a Europa, que detém ilegitimamente grande parte da ilha de Chipre, país membro da União Europeia, que ocupa ainda partes significativas da Europa como grande parte da Grécia, nomeadamente Constantinopla, invadida de forma selvática recentemente em 1453, apenas há 564 anos, uma nação que ainda em 1683, há uns escassíssimos 300 anos, tentava ocupar Viena e que ainda no século XX ocupava militarmente, com um jugo terrífico, partes da Grécia, dos Balcãs, da Europa Central, massacrava deliberadamente a nação arménia num dos maiores genocídios de que há memória e que ainda tortura hoje em dia o massacrado povo curdo. Se a Bósnia teve problemas religiosos que originaram uma terrível guerra no final do século XX, isso deve-se à perniciosa influência religiosa turca que ainda perdura hoje.

Erdogan quer islamizar o seu país, renega nos actos tudo o que Kamal realizou, enquanto continua a fazer-se acompanhar de fotografias do pai da Turquia moderna, num gesto da mais despudorada hipocrisia. A Turquia tem apoiado encapotadamente o “daesh”, através de esquemas de corrupção e de compra de petróleo. A Turquia tem-se comportado de forma agressiva para com países soberanos da União Europeia, como a França, a Holanda, a Alemanha e a Bélgica, como se Erdogan pensasse que pode, quer e manda na sua terra e na terra dos outros, usando a seu bel-prazer as leis permissivas dos países democráticos, como o exemplo dos comícios feitos, ou tentados, por ministros seus comprova à saciedade.

A islamizada Turquia não é a Europa. Integrar quem não se quer integrar mas sim conquistar, de religião intolerante, um país que se afasta cada dia que passa da democracia e dos direitos humanos, que reduz a igualdade entre géneros, que encena golpes de Estado a seguir aos quais enclausura oitocentas mil pessoas, é um país que não pode, nem deve entrar na União Europeia. Seria um crime contra mais de mil anos de história, seria um crime contra o sangue derramado pelo católico Jan III Sobieski, rei polaco, e por todos os seus aliados quando salvaram Viena do saque e morte às mãos turcas em 1683. Em 2016 houve um golpe de Estado que se saldou por um estrondoso triunfo de Erdogan e que provou, mais uma vez em mil anos, que a Turquia não é Europa.