Ferrovia: o que faz correr o Governo e Costa Silva?

"Não sei se António Costa Silva sabe que o futuro do transporte de mercadorias na Europa são camiões sobre plataformas ferroviárias, solução já existente em alguns países…"

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Sou forçado a voltar ao tema da ferrovia, porque o Governo e o Dr. António Costa Silva (ACS) decidiram, por razões a esclarecer, enganar os portugueses numa indecente campanha de desinformação. Mais uma, que só vale a pena tratar dada a enorme importância que a ferrovia tem no futuro da economia portuguesa e porque os erros do Governo e do seu ilustre conselheiro são tão óbvios que se tornam irritantes. Além de não ser difícil fazer a demonstração, trágica, dos erros cometidos a bem da sanidade política e económica dos portugueses. 

Na tentativa prévia de compreender o que se passa, enviei uma carta ao Dr. Antónia Costa Silva, carta que, lamentavelmente, não teve resposta. Algumas partes deste jogo de enganos:

1

O Dr. António Costa Silva começou por defender a mudança de bitola nas ligações internacionais, mas mudou de ideias dizendo que os técnicos lhe explicaram haver novas tecnologias que permitiam chegar com os comboios portugueses de bitola ibérica para além dos Pirenéus. Infelizmente, não explicou que tecnologias são essas, qual o seu custo, o tempo e o custo dos transbordos e, principalmente, se haverá empresas europeias que façam os investimentos necessários para entrarem em Portugal, um pequeno mercado no extremo da Europa. Porque se não fizerem esses investimentos, como acredito não farão, teremos como consequência a posição dominante da Medway, que agradece e pode praticar os preços que quiser.

Além da certeza de que as tecnologias dos comboios em bitola UIC, usadas em toda a Europa, conhecerão novos avanços no futuro, o que nunca acontecerá com os comboios em bitola ibérica, cujas tecnologias se tornarão únicas, logo mais caras e indisponíveis devido a o seu uso estar confinado a Portugal.  

2

ACS informou o País ter decidido propor um comboio de alta velocidade, ou de velocidade elevada, entre Lisboa e o Porto, mas não esclareceu se isso é para ser em bitola UIC ou bitola ibérica, se é uma linha nova ou é mais um remendo na existente linha em bitola ibérica. Se é uma linha nova de um comboio de alta velocidade (320- 350 quilómetros hora) estamos de acordo, mas por alguma razão ACS não o disse. Porque se é mais um remendo, recordo o seguinte:

2.1

O ex-ministro Oliveira Martins elaborou um relatório sobre o assunto há vinte e cinco anos, concluindo que remendar uma linha do século XIX seria mais caro do que construir uma linha nova. Infelizmente, o ministro seguinte, Joaquim Ferreira do Amaral, não acreditou e sucessivos governos já lá enterraram 1.500 milhões de euros e as quase três horas de viagem são as mesmas. Se ACS pretende enterrar naquela linha ainda mais dinheiro, sabendo que a via está saturada de tráfico e que as obras custam fortunas e nunca mais acabam por serem feitas com a via operacional, deve voltar a estudar melhor o assunto. Se sabe, é bom que diga quanto custa uma linha nova em bitola UIC e quanto custa remendar a existente. Também é bom que esclareça a que velocidade pretende ande o seu comboio, porque para concorrer com o avião não será a 250 quilómetros. É o que dizem os estudos internacionais; e na linha existente, nem o Santo António alguma vez vai permitir 320-350 quilómetros por hora, que é o que existe na Europa e no Mundo. A Alemanha e a Suíça têm comboios de passageiros a 250 quilómetros, mas são investimentos antigos, não feitos agora, como é o nosso caso. Além de não terem de mudar de bitola.

2.2

Como ACS deve saber, ninguém faz investimentos pesados na ferrovia para amortizar em vinte anos e mudar a seguir. Por isso espero que ACS nos diga se a bitola ibérica nas ligações internacionais é para durar, e quantos anos. Ou qual a razão por que insiste em dizer que mudar a bitola de todo o sistema ferroviário “seria um investimento colossal”, quando ninguém no seu juízo alguma vez propôs tal coisa, mas apenas construir o Corredor Atlântico, como proposto pela União Europeia. Aliás, sobre isso, qual a razão por que omitem sempre que a União Europeia financia os investimentos na casa dos 70%, como aconteceu em Espanha e nos países do Leste?

3

Tendo ACS falado com muita gente, não sei se falou com os empresários do sector exportador, porque se falou deve saber que estão muito nervosos, porque a política europeia é privilegiar o transporte de mercadorias por ferrovia e a decisão é desinvestir no transporte rodoviário. As razões da mudança são conhecidas: custo do transporte e custos energéticos e ambientais, além do congestionamento das estradas europeias. Assim, os exportadores europeus planeiam o seu futuro, mas os empresários portugueses não fazem a mais pequena ideia do que lhes vai acontecer. 

4

Falando de tecnologias, não sei se ACS sabe que o futuro do transporte de mercadorias na Europa são camiões sobre plataformas ferroviárias, solução já existente em alguns países. A vantagem é que carregam as mercadorias nas fábricas em Portugal e descarregam directamente nas fábricas em França, ou na Alemanha, sem transbordos e sem paragens, situação ideal para as entregas ‘just in time’. Estará ACS a ver esse tipo de transporte a chegar a Portugal com bitola ibérica? Aliás, de acordo com as propostas de ACS, cada vez que Portugal pretenda comprar material ferroviário, este ou outro, vai pagar mais e esperar mais tempo, porque será uma produção especial, única na Europa e, já agora, no planeta. A menos que continue a comprar barato os comboios que os espanhóis não querem e lhes retire o amianto. Ou pior, como agora acontece em muitas escolas, deixar o amianto em paz. 

5

Não sei se ACS sabe que uma reclamação da AutoEuropa e da PSA é não terem transporte ferroviário para França e Alemanha. Por isso pergunto ao Dr. António Costa Silva se acha que mais alguma empresa industrial se decidirá a investir em Portugal, sem ligações ferroviárias competitivas de e para os outros países europeus? Também acontece que a AutoEuropa transporta os seus carros para o porto de Setúbal por camião – um absurdo, não concorda? 

Como ACS sabe, Portugal está no centro do Ocidente, no centro das rotas do Atlântico, entre os dois maiores mercados mundiais, tem portos que o ligam a todos os continentes, mas permanece, de acordo com as suas propostas, uma ilha ferroviária.

6

Uma das coisas que o Governo de António Costa mais gosta de dizer é que os espanhóis não estão a fazer nada na ferrovia e que não se sabe quando chegarão com a bitola UIC à nossa fronteira. Claro que o Governo poderia esclarecer-se em Madrid e em Bruxelas, é essa a função da diplomacia, mas se o Governo e ACS insistirem na bitola ibérica, os espanhóis já prepararam plataformas logísticas ao longo da nossa fronteira e terão muito gosto em tomar conta das nossas exportações, o que deixa os empresários portugueses exportadores à beira de um ataque de nervos. Eles acham que os seus principais concorrentes são espanhóis e que no mundo real em que vivemos tudo farão para ter melhores condições de transporte – custo e tempo – do que os lusitanos. Como dizia o outro, é da vida.

*

Pessoalmente, tenho dado cabo da cabeça a tentar entender as razões por que o Governo decidiu, contrariando os governos anteriores e a União Europeia, manter a bitola ibérica. Tanto pensei que estou convencido, ainda que não o possa provar, que existe uma cláusula, certamente secreta, no contrato de venda da CP Carga que promete manter a bitola ibérica na ferrovia portuguesa por muitos anos. A racional disto é que uma empresa internacional, com grande experiência e que sabe o que está a acontecer no transporte ferroviário europeu, não compraria a CP Carga em bitola ibérica sem ter essa garantia. Claro que o Governo e a Medway podem acabar com a dúvida publicando os contratos, completos está bem de ver. ■