E Costa higienizou as mãos

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A enorme subida de casos de Covid-19 em Portugal, nesta semana, corresponderá a mais mortos daqui a duas semanas. Essa é uma dúvida que alguns profanos na ciência, ou muito prudentes e temerosos em falhar, ainda têm, mas que é um efeito inexorável desta doença. Isso é tão certo como o dia suceder à noite.

A prudência é, precisamente, alertar para esse facto, com cuidado, sem alarmismo. Não usar máscara, ter aeroportos abertos e viagens internacionais em pleno, tem custos em vidas humanas. Festa do Avante, celebrações em Fátima, grandes ajuntamentos, foram extremamente perigosos e vão ter custos.

As pessoas estão saturadas, mas as mortes vão saturar ainda mais o Mundo. A saturação, entre outras causas, provocou mais mortos na segunda vaga da gripe espanhola do que na primeira.

Circulam histórias junto de pessoas mal informadas ou de pseudo-cientistas, onde se destaca a auto-designada organização de “médicos pela verdade” e que o penumonologista Filipe Froes classificou recentemente numa entrevista como “ignorante pela mentira”, sobre T-cells e uma suposta imunidade de grupo que se estaria a aproximar, nomeadamente na Suécia, que não passam de teorias não comprovadas e não validadas. Nesta fase é mais prudente não continuar a acreditar nas histórias da carochinha que, quase certamente, contribuirão para matar muita gente, mas antes seguir os conselhos comprovados da ciência.

São coisas simples, evitar festas familiares, evitar jantaradas de grupo, planificar melhor os transportes públicos, dessincronizar horários a sério, e não assumir soluções anedóticas de fazer isso num intervalo de sessenta minutos, medida recentemente aprovada pelo governo; é necessário ter um sistema de informação que funcione a sério, com centenas ou milhares de voluntários, estudantes universitários ou estagiários, como no Japão, a seguir as cadeias de contágio, colocar as universidades em campo para apoiar a DGS a criar bases de dados que funcionem.

Existe uma teoria, completamente desfasada da realidade, de que a mortalidade específica estaria a reduzir-se. Isso não está minimamente comprovado. A letalidade efectiva desta doença, o COVID-19, deve andar na casa de 1% desde o início, variando com a estrutura etária. Desde o navio de cruzeiro Diamond Princess, onde a doença teve um importante foco, que se sabe isso. Os dados actuais oficiais indicam 4% a nível mundial, ou seja, muito acima do valor real; existe uma redução aparente nos gráficos que resulta apenas de haver mais testagem e de os casos assintomáticos estarem mais no radar, aumentando o denominador.

Já se sabia disso desde Março e Abril, já o investigador Timothy Russel, do Instituto de Medicina Tropical de Londres, e a sua equipa tinham publicado essas estimativas, algo que foi incluído nos modelos de previsão de casos e óbitos que funcionaram na primeira vaga para Portugal. Sem essa estimativa, a nossa previsão de óbitos abaixo de 2.000, se feito o confinamento, como foi feito, e como escrevi em Março, teria sido aumentada para mais de 8.000, o que estaria errado.

Nada indica que a pandemia seja menos perigosa actualmente. Falam da Suécia como se fosse o grande milagre, mas esquecem-se dos EUA, onde a pandemia não abranda e os números, por exemplo, de Nova Iorque atingiram mortalidades que andam acima dos 0.33% face a toda a população da cidade. O que significaria um número de mortos em Portugal de mais de 30.000 pessoas. A Suécia tem em prática distanciamento social e cuidados que não se vêem em Portugal, hoje. Basta olhar para os transportes públicos de uns e outros. 

É necessário explicar que estas comparações não fazem o menor sentido, só pessoas intelectualmente desonestas podem comparar a Suécia com Portugal ou advogar as mesmas medidas para um e outro país. O problema é também de hábitos culturais e de educação. É necessário expor essa gente ao ridículo da comparação, porque dizer que está tudo bem e que não haverá mais mortos é criminoso e pode levar-nos aos caminhos de Espanha, país com o qual as fronteiras já deveriam estar, de novo, fechadas. Pedir medidas iguais entre os dois países, Suécia e Portugal, está ao nível de considerar que a Terra é plana e pode levar a dezenas de milhares de mortos no nosso país.

A prudência é o nosso único guia nesta matéria. Ainda não temos completos os modelos para a segunda vaga, mas pensamos que será prudente começar a remontar os hospitais de campanha. Se nada for feito de novo (e o primeiro ministro António Costa já higienizou as suas mãos do problema, atirando com as responsabilidades para cima dos portugueses e dos cuidados que possam ou não ter), esta segunda vaga vai ser pior do que a primeira. Há mais lentidão na propagação por causa dos cuidados paliativos que se têm tomado; isso tem um lado positivo, que é dar mais tempo para tomar medidas, mas, por outro lado, é enganador pois os números a crescer mais devagar vão dando uma ilusão de falsa segurança. Com estes números, e sem mais medidas, os internamentos e os doentes em cuidados intensivos vão atingir os limites do SNS antes do final do Outono.

Finalmente, em Portugal deu-se um falhanço tremendo, o de não extirpar completamente a pandemia conseguindo zero casos ao longo de algumas semanas. A segunda vaga, que já acordou, está colada à primeira. Isso deveu-se ao laxismo governamental. Primeiro de Maio, manifestações, feiras do livro, Costa e Marcelo, insensatos a apelar a que os portugueses saíssem à rua, o apelo à invasão de hordas de turistas infectados vindos de Inglaterra – foram atitudes incrivelmente imprudentes, a que se sucederam a festa do Avante e o 13 de Setembro em Fátima. Isto a par de transportes públicos maus e não reforçados em Lisboa e Vale do Tejo. Todo esse laxismo foi gravíssimo, foi a base, a semente, para a segunda vaga lançada por esses factores.

A situação nunca deixou de ser de emergência; as vistas curtas e a incapacidade de liderança foram manifestas. Se mais nada for feito, como anunciou António Costa, completamente perdido nesta crise, sem boa assessoria e sem conhecimentos ou capacidade de decisão, poderão morrer mais três a quatro mil portugueses de COVID-19, e muitos outros por o sistema nacional de saúde ficar saturado e em ruptura com a segunda vaga que está agora a emergir no Outono e Inverno. 

É preciso ser impopular para ganhar esta luta contra uma doença mortal que está a limpar a memória da nossa sociedade. ■